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Cunha ameaça delatar núcleo do governo é chamada de capa no Valor

“Era uma vez cinco irmãos. Um virou presidente, três viraram ministros e um foi preso”. Como quem não quer nada, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), narra a anedota a agentes penitenciários do Complexo Médico Penal (CMP) de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. O breve relato logo se espalha como ameaça de delação premiada, mais uma entre muitas já feitas por Cunha.

Na fala do ex-deputado o presidente Michel Temer, os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e o senador Romero Jucá (ex-ministro do Planejamento), todos do PMDB, figuram como personagens de uma historinha infantil em que o próprio Cunha aparece como o único injustiçado.

Mas as mensagens são dúbias. Até os mais próximos consideram difícil entender aonde Cunha quer chegar. Para o Ministério Público, o ex-deputado continua impassível. Os que o visitam asseguram que ele segue negando qualquer intenção de fechar uma colaboração. Amigos avaliam que ele estaria fazendo contas, deduzindo de sua hipotética sentença os benefícios que a lei garante, como redução de pena e progressão de regime. Quem sabe ele poderia beneficiar-se de um habeas corpus. Ou, no futuro, até mesmo de eventual mudança no entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o momento da prisão. Atualmente, a corte considera que o preso pode cumprir sentença a partir da decisão de segunda instância, o que acelerou muito o cumprimento das penas no Brasil. Há conversas em curso, porém, para tentar convencer o STF a voltar à conclusão anterior pela qual a prisão só podia ocorrer após esgotados todos os recursos nas instâncias do Judiciário, inclusive o Supremo.

Preso desde dezembro no CMP, quando foi transferido da carceragem da PF em Curitiba, Cunha é descrito pelos que transitam no local como de personalidade difícil. Recusa-se a respeitar a ordem hierárquica do presídio, onde, para os presos da Operação Lava-Jato, inverte-se o arranjo da pirâmide social. O ex-presidente da Câmara não esconde indignação por receber ordens de um agente penitenciário. Gasta boa parte do tempo lendo e relendo seus processos. Aproveita para estudar procedimentos de outros presos, como os do ex-ministro José Dirceu, que compartilha o mesmo hábito.

Dirceu, ao contrário, é descrito como um homem cortês, conhecedor das regras do cárcere. Um dia, ainda preso na carceragem da PF em Curitiba, avistou uma nesga de sol iluminando o corpo de um advogado que falava com o cliente. Pediu licença para disputar o espaço: “O sol aqui é algo valioso.”

Cunha não queria ser transferido para o CMP, onde, apesar das celas maiores, as condições são consideradas piores que as da carceragem da PF. Primeiro, o deslocamento gera insegurança no preso, por temor do desconhecido. Recentemente, outras razões mais concretas passaram a justificar a preferência pela carceragem. Depois que a primeira leva de engenheiros foi levada para lá em novembro de 2014, na sétima fase da Lava-Jato, as circunstâncias melhoraram muito. Organizados e metódicos, esses executivos instituíram um sistema pelo qual as tarefas e compras de alimentos e materiais de limpeza, feitas por familiares ou representantes da empresa do lado de fora da prisão, são divididas e beneficiam a todos os detentos. Assim não faltava comida de qualidade, por exemplo. Para executivos da Odebrecht, roupas lavadas chegavam cuidadosamente dobradas dentro de saquinhos empilhados em uma caixa grande.

Apesar de rígidas, as regras da carceragem são mais flexíveis que as do CMP quanto à entrada de comida e às roupas que podem ser usadas. Os detentos contam com vasos sanitários, enquanto no complexo penal só existem buracos no chão. Para qualquer privacidade, de qualquer forma, é preciso usar um colchão como porta.

Conhecida como “hotel de delatores”, a carceragem também permite alguns benefícios aos que se propõe a fechar acordos com o Ministério Público e a PF. Alguns conquistaram o direito de manter um frigobar na cela, ou um iPad. O doleiro Alberto Youssef, um dos primeiros presos da Lava-Jato, conseguiu ter um aparelho de TV. Agora ele está solto, mas enquanto permaneceu por lá, aumentava o volume todos as noites no horário do Jornal Nacional para que os companheiros de carceragem acompanhassem o noticiário. Volta e meia, uma reportagem causava constrangimento ao revelar nomes, ali presentes, que ele próprio havia entregado. Mesmo assim, o doleiro ganhou na cadeia o título de “gente boa”.

Um dos problemas da carceragem é a entrada de presos em flagrante a qualquer hora do dia ou pior, da noite, o que provoca transtornos no sono. Uma vez, policiais prenderam vários integrantes do tráfico de drogas e tiveram que separar os presos da Lava-Jato dos demais. A orientação era que, quando passassem pelos traficantes, olhassem para o chão para evitara o mais breve contato de olhos. Manter um preso de status social elevado traz sempre o risco de extorsão.

Marcelo Odebrecht já transitou pelo CMP mas, disposto a delatar, foi autorizado a voltar para a carceragem, onde estão hoje 11 presos da Lava-Jato. O executivo é tido pelos colegas de prisão como muito focado. Faz de três a cinco horas de exercício físico por dia. Se não é correndo, movimenta os braços com barras de peso dentro da cela.

Religioso, o ex-senador Gim Argello recebia visitas de um padre na carceragem. Hoje está no CMP ao lado de outros dez presos na mesma operação, entre eles o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-deputado André Vargas e o lobista João Augusto Henriques. Até que alguém se proponha a fazer delação premiada e volte para as celas da PF. Enquanto isso, nos banhos de sol do CMP, um detento dá treinos de “cross fit” para os interessados. 

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