Economia

Estrangeiros aguardam definição no cenário político para investir no país é a manchete do caderno de economia da Folha

No último mês, investidores estrangeiros em Nova York e Washington ouviram, em diferentes encontros com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, e até o presidente Michel Temer, um relato otimista sobre como o Brasil tem deixado a recessão para trás e o cenário positivo prometido pela agenda de reformas.

O recado, comprovado em parte pela previsão de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e pela queda no desemprego, no entanto, foi recebido nos Estados Unidos com um entusiasmo contido. O problema é a incerteza política no próximo ano.

Investidores e empresários ouvidos pela Folha foram unânimes em apontar as eleições de 2018 como um fator que tem limitado movimentos mais ousados na hora de apostar no Brasil.

A principal preocupação é que o próximo governo não dê continuidade às reformas de Temer–e de que a fiscal, considerada pela maioria deles a mais importante, não seja contemplada.

INCERTEZA

A preocupação com as eleições foi o tema central em praticamente todas as conversas que o economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, Evandro Buccini, teve com investidores estrangeiros há duas semanas em Nova York e Washington.

“Aqueles investidores que não têm relação obrigatória com o Brasil, que não têm mandato para América Latina, não querem entrar agora. Há muita incerteza para uma expectativa de retorno não tão boa quanto era no passado”, disse Buccini.

Segundo o economista, se o Brasil estivesse numa situação fiscal “mais tranquila”, a questão das eleições não seria tão relevante. “Mas não é o caso. A preocupação é se o candidato que vencer vai aprovar reformas.”

Para que os investidores voltem, diz o economista, três coisas precisam acontecer. “É preciso continuar a recuperação, ter alguma melhora no [âmbito] fiscal, nem que seja cíclica, e haver mais clareza sobre [o cenário da] eleição.”

Apesar de a principal reforma citada por Meirelles durante suas recentes passagens pelos EUA ser a da Previdência –cuja aprovação ele disse prever ainda para este ano–, é a fiscal que mais interessa os investidores.

“A simplificação tributária [no Brasil] é uma grande questão”, disse o vice-presidente-executivo do Walmart International, Richard Mayfield, durante a Conferência Econômica sobre o Brasil, organizada pela Câmara de Comércio Brasil-EUA em Washington, no dia 13.

“Estamos animados de ver que há boas notícias em relação à agenda de reformas. No geral, estão tentando simplificar a estrutura fiscal, apesar de não haver clima político”, completou, em uma fala entre as exposições do presidente do Banco Central e do ministro da Fazenda.

Mayfield elogiou especialmente a reforma trabalhista. “Uma mudança em particular, da introdução da jornada de trabalho flexível, é absolutamente importante para o empregador”, disse.

“Isso atrai pessoas jovens para a força de trabalho e permite ao empregador contratar trabalhadores por meio período e casar o trabalho quando e onde deve ser feito, permitindo mais eficiência.”

O problema é o fôlego das reformas no longo prazo. À Folha o representante de uma empresa de gestão de fundos com operação no Brasil disse que a percepção geral dos investidores é que houve uma mudança “construtiva” na agenda da política econômica no Brasil.

“Agora, é evidente que a agenda não vai se encerrar neste governo, vai haver ainda desafios gigantescos, sobretudo na parte fiscal, para 2019”, observou o economista, que pediu anonimato.

“O medo das pessoas é que, caso o governo mude, essa recuperação não se mantenha. Esperamos que seja uma mudança sustentável”, disse o representante de uma empresa de varejo americana, também sob a condição de não ser identificado.

“Não temos empregado muita energia em discutir os possíveis resultados da eleição porque o que tiver que acontecer vai acontecer, mas esperamos que a agenda de reformas se mantenha”, completou o executivo.

REVISTA

O Brasil e os obstáculos ao governo Temer foram capa da revista “LatinFinance”, que circulou em todos os eventos com investidores às margens dos encontros anuais do FMI (Fundo Monetário Internacional) em Washington.

“Reformas mais profundas vão ser necessárias para colocar a economia brasileira em condições de competir com outros emergentes. Investidores querem muito ver a maior economia da América Latina dar a volta por cima, mas não está claro se Temer, com uma posição política enfraquecida e profundamente impopular com os eleitores, vai conseguir isso”, diz o artigo, numa síntese sobre os dilemas do Brasil.

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