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Doria trabalha para ampliar base eleitoral no PSDB, diz o Valor

Cotado como candidato à Presidência em 2018, o prefeito de São Paulo, João Doria, articula-se para usar as eleições internas do PSDB, que começam domingo, para ampliar sua base eleitoral. Em aceno aos evangélicos, Doria apoia o vereador João Jorge, principal representante da Assembleia de Deus na Câmara Municipal, para presidir o diretório do PSDB da capital paulista.

João Jorge atuou nas prévias e na campanha de 2016 para aproximar Doria dos evangélicos e dos militantes da periferia da zona leste, a mais populosa da cidade. O vereador foi eleito com apoio do bispo Samuel Ferreira, líder nacional da Assembleia de Deus, investigado na Operação Lava-Jato por suposta lavagem de dinheiro para o ex-deputado Eduardo Cunha.

Filiado há 25 anos ao PSDB, o parlamentar é crítico do modelo cicloviário adotado pela gestão anterior, de Fernando Haddad (PT), e defende a extinção da maioria das ciclovias.

João Jorge foi lançado pela bancada do PSDB para a eleição do diretório da capital, marcada para o dia 29. Doria anunciou apoio em agosto e reiterou sua posição na terça-feira, em reunião com vereadores. Entre os apoiadores estão o vice-prefeito, Bruno Covas, e o presidente da Assembleia Legislativa, Cauê Macris.

A escolha do vereador como candidato para presidir o PSDB-SP é mais um gesto de Doria para aproximar-se de lideranças evangélicas, com quem se reúne com frequência. Na Câmara Municipal, o número de vereadores ligados a igrejas passou de 8 para 14 eleitos em 2016 (25,4% do total). Dos novatos evangélicos, João Jorge foi o mais bem votado, com 42,4 mil votos. A eleição municipal seguiu a tendência de crescimento da bancada evangélica no país, que tem 74 deputados federais (17% do total). Segundo o Censo de 2010, os evangélicos são 22,2% da população – ou 29%, de acordo com pesquisa do Datafolha de 2016.

No Legislativo, entre os projetos apresentados por João Jorge estão o liberação de alvará para o “exercício de culto religioso” a locais com até 250 metros quadrados e a mudança de nome para “Nação Madureira” a uma rua próxima a um grande templo da Assembleia de Deus. O vereador apresentará projeto para flexibilizar a lei do silêncio, o Psiu, e torná-la menos rigorosa com cultos, eventos, shows e baladas. “Não há que se ter rigor excessivo”, diz. “Hoje a lei do Psiu é como se fosse para uma cidade do interior do país nos anos 60. Há excessos”. Segundo o vereador, a revisão da lei é uma demanda não só de lideranças religiosas, mas também de promotores de eventos.

Na gestão Doria, a bancada cristã tem obtido importantes vitórias, como uma ampla anistia de multas e dívidas de IPTU a templos religiosos e a previsão do uso do Anhembi por pelo menos 30 dias para eventos religiosos, mesmo depois da privatização. O projeto relativo ao Anhembi foi aprovado em primeira votação e precisa de mais uma votação antes de ser sancionado pelo prefeito.

Criador da Frente Cristã, o vereador Eduardo Tuma (PSDB) diz que o objetivo da bancada é ter influência na Secretaria de Turismo e indicar o diretor responsável por eventos antes da privatização do Anhembi e São Paulo Turismo (SPTuris).

Apesar da forte ligação com a Assembleia de Deus, João Jorge pondera que sua representatividade vai além dos evangélicos. Dos 42,4 mil votos recebidos, vincula pouco mais de um terço ao apoio da Assembleia de Deus. O restante, afirma, veio da militância tucana da zona leste.

O vereador é filiado desde 1992 ao PSDB e foi vereador em Americana (SP) no fim dos anos 80. No governo Geraldo Alckmin (PSDB), foi gerente da CDHU, companhia responsável por habitações, e do sistema de ônibus na Grande São Paulo.

Uma das principais bandeiras de seu mandato é revisão das ciclovias. Ontem o vereador conseguiu aprovar projeto de lei de sua autoria, que dificulta a construção de ciclovias. Segundo o texto, as novas ciclovias só poderão ser feitas depois de audiências públicas e de estudos de viabilidade, impacto viário e demanda. O projeto proíbe a implantação de ciclofaixas e faixas compartilhadas nas calçadas. “Sou crítico ferrenho do modelo de Haddad para as ciclovias. Não houve planejamento. Ninguém gosta e ninguém usa. Sou contra o que foi feito”, diz. “Grande parte das atuais ciclovias tem que sumir”.

O tucano apresentou projetos para dar o nome da antropóloga Ruth Cardoso a um trecho de avenida; proibir propaganda de bebidas alcoólicas no mobiliário urbano e para classificar com as letras A, B ou C restaurantes, bares e lanchonetes.

A colegas tucanos, o vereador defendeu a candidatura de Doria à Presidência em 2018. Publicamente o tucano diz que “não descarta” o lançamento do prefeito, mas desconversa sobre a disputa de Doria com o governador Geraldo Alckmin. “Espero que eles se entendam”.

O atual presidente do diretório, vereador Mário Covas Neto, o Zuzinha, poderia ser reeleito, mas optou por não concorrer a um novo mandato, em meio a reclamações de “asfixia financeira” do PSDB ao seu diretório. Filho de Mário Covas, Zuzinha tem se mostrado como “independente” na Câmara Municipal e por vezes é apontado como opositor a Doria. “Essa independência não agrada”, diz Zuzinha.

Na disputa pelo PSDB-SP são citados nomes da burocracia partidária. Um deles é Luis Fernando Alfredo, conhecido como ‘Fernandão”, que é alvo de um pedido de expulsão no PSDB ainda não analisado pelo partido. Outro nome é de Evandro Losacco, também da máquina tucana.

Alckmin ainda não declarou apoio formal a nenhum candidato no diretório municipal e deve centrar esforços no estadual e no nacional. O governador deve medir forças com Doria nas convenções do PSDB. A troca do comando partidário começa no domingo, com a eleição dos diretórios zonais. Depois da eleição dos municipais, no fim do mês, será a vez dos estaduais, em novembro.

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