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Câmara se descola da opinião pública é o título de matéria no Globo

A Câmara dos Deputados vive hoje seu maior descolamento da opinião pública em quase duas décadas. A revelação está em levantamento inédito feito pelo projeto Congresso em Números, do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV-Rio, que comparou a taxa média de apoio da Câmara às propostas do Planalto desde 1999 com a taxa de popularidade do governo nas pesquisas CNI/Ibope nesse mesmo período. Em setembro, 79,6% dos deputados acompanharam as orientações da liderança do governo, enquanto o presidente era avaliado positivamente por meros 3% dos entrevistados pelo Ibope. Na média anual, o apoio parlamentar a Temer está em 78,7%, enquanto a popularidade média patina em 6%.

O apoio parlamentar ao presidente chegou a ser maior em junho passado, após assumir o governo, quando sua orientação era seguida por 84,2% dos deputados, mas na época sua impopularidade ainda não era tão profunda, atingindo 13% de avaliações positivas. Desde então, o apoio parlamentar caiu um pouco, mas a popularidade foi embora de forma acentuada.

Nos 18 anos analisados pela pesquisa é possível notar que, embora de forma menos intensa, esse descompasso entre os parlamentares e a opinião pública ficou muito evidente também nos segundos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff. Em 2000, FH registra a maior média anual de apoio parlamentar ao governo, com suporte de 88,2% dos deputados, no momento em que 21% da população consideravam seu governo ótimo ou bom.

A partir do primeiro governo Lula (2003-2006), as duas curvas começam a se aproximar e chegarão ao ponto de maior similaridade no final do segundo mandato, em 2010, quando o presidente deixava o governo batendo recordes de popularidade, sendo avaliado positivamente por 77% dos brasileiros e contando com apoio de 81,8% dos parlamentares.

Apesar do gritante descompasso numérico entre a opinião pública e o apoio congressual em quase todo o período, é interessante notar que há momentos em que, mesmo em ritmos diferentes, as curvas de popularidade e apoio parlamentar caminham na mesma direção. Isso ocorre em todo o governo Lula, que perde apoio popular e parlamentar desde a posse, em 2003, até o fim da crise do mensalão, em 2005, mas volta a recuperá-la com a reeleição em 2006 e entra em uma ascendente culminando com o ápice de popularidade e apoio parlamentar de 2010, que leva à eleição de Dilma.

A crise na transição do primeiro para o segundo governo Dilma é outro momento em que as curvas caminham no mesmo sentido. A média de apoio parlamentar do governo sai de 75% em março de 2014 para 67,6% em março de 2016, pouco antes de ser afastada do cargo pelo impeachment, acompanhando a popularidade do governo, que cai de 36% para 10%. É visível, em seguida, a inflexão ascendente do apoio parlamentar a partir da chegada de Temer ao Planalto, o que não se repete, no entanto, em relação à opinião pública.

Num modelo ideal, as curvas deveriam apresentar tendências parecidas, tanto de alta, quanto de baixa, num típico movimento de resposta do Congresso às expectativas da população. Mas não é exatamente e sempre assim que acontece. A Câmara tende a registrar taxas de apoio ao governo de maneira muito mais estável, quando comparamos com as curvas da avaliação de “Ótimo+Bom” feita pela população — explica o pesquisador Fábio Vasconcellos, responsável pelo levantamento .

Nesses 18 anos, a taxa média de apoio parlamentar teve seu pior momento em outubro de 2014, mês em que Dilma era reeleita, quando chegou a 64,1%, enquanto o pico foi em agosto de 2000, no governo FH, de 91,8%. Já as avaliações positivas flutuaram de forma mais ampla: dos risíveis 3% de Temer em setembro até os 80% de Lula ao deixar o governo em dezembro de 2010. Vasconcellos, que é cientista político, destaca que mesmo no governo Dilma, que entre os analisados foi o com maior dificuldade para administrar sua coalizão parlamentar, a taxa de apoio no Congresso não chegou nem próxima dos patamares da opinião pública.

Se o governo não tivesse mecanismos para formar maiorias e ficasse só a reboque da opinião pública, correria grande risco. Em caso de baixa muito forte na sua avaliação, poderia ser paralisado na Câmara. Então, os governos adotam estratégias para controlar a coalizão e governar, como montar agenda com mais chance de aprovação. As outras são emendas e ter um governo com as forças da coalizão.

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