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Funaro diz ter reunião com Mariz e advogado da J&F é o título de matéria no Globo

O delator Lúcio Funaro afirmou ter feito uma reunião com o advogado Francisco de Assis, da J&F, no escritório do criminalista Antônio Mariz de Oliveira, no início de 2016. O encontro, que teria ocorrido entre fevereiro e março, tinha como objetivo demonstrar que a defesa de Funaro seria “alinhada” com o que pretendia o empresário Joesley Batista. Mariz deixou ontem a defesa do presidente Michel Temer, seu amigo de longa data, alegando conflito por já ter defendido Funaro, que agora passou a atacar o presidente depois de já ter atuado como operador de propina para o PMDB.

Segundo o depoimento de Funaro, ao qual o GLOBO teve acesso, a reunião no escritório de Mariz “era para deixar Francisco (da J&F) a par da estratégia de defesa, demonstrando assim que as partes estavam alinhadas”. O doleiro disse ainda que, caso Joesley ou seu advogado discordassem de algum ponto de sua defesa, eles poderiam imediatamente interferir e apontar o problema. Na prática, “Joesley queria acompanhar de perto, minuciosamente, qual seria a linha da defesa técnica” de Funaro e podia, inclusive, sugerir estratégias.

No depoimento, Funaro contou que seu escritório foi alvo de busca e apreensão na Operação Catilinárias e que, logo depois, recebeu a indicação de contratar Mariz. Três dias após a operação, em 18 de dezembro, foi chamado para uma reunião na casa de Joesley, que queria saber se “algo comprometedor” havia sido apreendido pela Polícia Federal. O empresário, segundo ele, já tinha em mãos uma cópia da ação cautelar que deflagrou a operação.

O doleiro afirmou ter ouvido de Joesley frases como “vamos tocando juntos”, “vamos amarrar as pontas”, o que significava, na prática, um acerto para que combinassem versões. No encontro na casa de Joesley, teria sido combinado o “cala boca” a Funaro e, na mesma semana, Joesley e Assis fizeram uma proposta de fazer um contrato guarda-chuva, com data retroativa a 2012, para dar aparência de legalidade a negócios já feitos. A J&F passaria a ter uma justificativa para os repasses de propina às empresas de Funaro. O doleiro poderia ter certeza de que o grupo J&F continuaria a lhe fazer os pagamentos.

Segundo o doleiro, o contrato foi assinado em duas vias. Em seguida, o original foi destruído. A intenção era que esse documento não pudesse ser periciado. O empresário Natalino Bertin também teria sido chamado a participar do pacto e também a fazer contratos

Funaro informou ter dito a Joesley, num segundo encontro, que o ex-deputado Eduardo Cunha “estava se segurando”. Ou seja, ameaçava falar. Joesley teria, então, orientado Funaro a “sair na frente” — fazer antes uma delação premiada resguardando a J&F. Segundo o doleiro, o empresário temia que ele e Cunha se juntassem para delatar seus “parceiros políticos” e queria garantir que Funaro permanecesse “fiel”.

O doleiro relatou que o advogado da J&F foi diversas vezes à sua casa, durante todo o primeiro semestre de 2016, para acompanhar a situação processual. Em uma das vezes, estava presente Dante, irmão do doleiro. Funaro teria dito que, caso lhe acontecesse algo, qualquer necessidade de dinheiro seria suprida pelo Grupo J&F, por meio de contatos com Assis ou com o próprio Joesley.

MARIZ DIZ QUE NÃO SE LEMBRA

Funaro foi preso no dia 1º de junho de 2016. Dante procurou Assis, e a J&F fez dois pagamentos de R$ 600 mil em espécie, em julho e agosto. Os demais repasses foram feitos para a irmã de Funaro, Roberta — um de R$ 600 mil, em setembro, e sete de R$ 400 mil cada nos meses seguintes. Os pagamentos, segundo o doleiro, mostravam que Joesley estava cumprindo o pacto, o que lhe deixava tranquilo porque sua família estaria financeiramente segura. Funaro diz que o empresário também se sentia seguro porque sabia que ele não tomaria decisões contra a J&F

Os pagamentos a Funaro foram comentados por Joesley, e gravados, durante encontro com o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu.

Segundo Funaro, Joesley aproximou-se de Geddel Vieira Lima, ex-secretário de Governo de Temer. Isso aconteceu depois da prisão de Funaro. Joesley teria enviado recados de que “estava cuidando do Lúcio”. Segundo o delator, Joesley procurou Temer e outros políticos do PMDB para dizer que a situação estava sob controle e, em troca, queria boa vontade e favores do governo.

Mariz disse ao GLOBO que não se lembra da presença do advogado da J&F em seu escritório, mas não descarta a possibilidade de Francisco de Assis ter acompanhado Funaro em alguma ocasião.

O Funaro é louco varrido. O Joesley nunca esteve no meu escritório. O Francisco pode ser que tenha ido acompanhando Funaro, não me lembro — disse o criminalista.

Mariz foi advogado de Funaro de 2015 a maio de 2016. Na época, o ex-diretor da Hypermarcas Nelson Mello havia dito, em delação, que pagou propina ao PMDB por meio do doleiro. O advogado afirmou que, na ocasião, sua recomendação a Funaro foi a de se pronunciar apenas nos autos, mas ele acabou se antecipando e falando — o doleiro confirmou os pagamentos.

Segundo Mariz, Funaro teria começado a negociar a delação em abril de 2016, e ele deixou o caso logo a seguir, pois não atua com colaboração premiada. Segundo o advogado, seu trabalho foi elogiado pelo doleiro e chegou a devolver a Funaro parte dos honorários que havia recebido.

Funaro disse que, durante as tratativas para delação com o escritório Figueiredo Basto, enviou uma proposta de honorários para Mariz equivocadamente. Logo em seguida, Geddel teria enviado mensagem pelo aplicativo Wickr perguntando se ele estava fazendo acordo de colaboração. Ele negou e perguntou a razão da pergunta. Geddel teria dito que a notícia havia chegado ao Planalto.

PARA DOLEIRO, INFORMAÇÃO FOI COMPARTILHADA

No entendimento do doleiro, Mariz passou a informação a Temer, que acionou Geddel para confirmar. Funaro diz ter ligado xingando Mariz. O advogado confirma o episódio: — Recebi um telefonema e ele gritava. Insinuou que eu tinha vazado a delação dele. Mas o Brasil inteiro sabia que ele queria fazer delação. Todos sabiam. Eu não falei nada (sobre a delação).

A J&F informou, em nota, que “os colaboradores apresentaram, dentro dos prazos legais, as informações e documentos que complementam os esclarecimentos prestados previamente à Procuradoria-Geral da República e continuam à disposição”.

A Presidência confirmou que Mariz deixou a defesa de Temer.

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