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Para Eurasia, Bolsonaro não deve se tornar o Donald Trump brasileiro, diz o Valor

A ascensão de Jair Bolsonaro nas pesquisas é um “indicador antecedente” de uma eleição presidencial a ser marcada pelo sentimento anti-establishment, mas é improvável que ele se torne o Donald Trump brasileiro, avalia a consultoria de risco político Eurasia. Para a empresa americana, as intenções de voto do deputado do PSC do Rio são um reflexo do crescente descontentamento com a classe política tradicional. “Mas, à medida que mais candidatos com credenciais contra o establishment surgirem, o avanço adicional de Bolsonaro nas pesquisas será limitado.”

A consultoria lembra que, até as eleições de 2018, o cenário político terá como pano de fundo escândalos de corrução e uma recuperação econômica incipiente. Nesse quadro, as intenções de voto precisam ser vistas com cautela.

Apesar disso, o relatório destaca que o ex-militar aparece com bons resultados no levantamento da CNT/MDA, divulgado na terça-feira. Em três cenários testados, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem uma média de 32%, enquanto Bolsonaro aparece com cerca de 19%, seguidos pela ex-senadora Marina Silva (Rede), com aproximadamente 12%.

Para a consultoria, o avanço de Bolsonaro sugere que pode haver algo mais sólido por trás de sua ascensão. “Embora os números certamente vão flutuar nos próximos meses, eles confirmam o crescente descontentamento dos eleitores com a classe política.” Em meio ao sentimento anti-establishment, o “discurso histriônico” do deputado tem ecoado em parte do eleitorado, segundo a empresa.

Na visão da Eurasia, porém, Bolsonaro não deverá ser o principal representante do descontentamento do eleitorado. “Primeiro, Bolsonaro não tem a estrutura de um grande partido e provavelmente será incapaz de fazer alianças significativas, que lhe garantiriam mais recursos.” Num país continental, em que a legislação eleitoral costuma dar mais tempo e dinheiro do fundo partidário, isso seria uma desvantagem importante.

O outro ponto é que o desempenho do deputado também vai depender da oferta de candidatos. À medida que outros postulantes com apelo anti-establishment aparecerem nos próximos meses, o potencial de alta de Bolsonaro tende a ser limitado, diz a Eurasia.

Para a consultoria, não apenas o prefeito João Doria pode capturar parte desse descontentamento se concorrer à presidência, o que a Eurasia vê como provável, mas outros nomes podem surgir no páreo, como o do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa ou mesmo o do apresentador de televisão Luciano Huck. Além disso, o discurso radical de Bolsonaro tende a aumentar a sua rejeição entre eleitores moderados.

Isso não quer dizer, contudo, que a performance do deputado passará despercebida, acredita a consultoria. A eleição dos EUA no ano passado, na qual Trump saiu vitorioso, é uma advertência de que um cenário com vários candidatos sem atrativos pode abrir espaço para resultados surpreendentes. Outro ponto é que as chances de Bolsonaro aumentariam num quadro em que ele seria o único candidato anti-establishment, o que hoje parece improvável. “E, mais importante, a ascensão de Bolsonaro é um indicador claro de que ele está atingindo um descontentamento profundo do eleitorado, algo que não tende a se dissipar muito, mesmo se a economia se recuperar no ano que vem.”

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