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Divisão no centro favorece extremos, diz Lavareda é o título de matéria no Valor

A disputa pela candidatura presidencial no PSDB entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital, João Doria, se acirrou a ponto de se cogitar um cenário em que os dois concorram entre si. Numa eleição que se desenha pulverizada, Doria declarou ter recebido convites para se mudar para três partidos, entre eles o DEM, o que o colocaria em colisão com o padrinho político. Mas quem levaria vantagem num choque entre criador e criatura e quais as consequências para a corrida ao Planalto?

Para o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, o efeito mais marcante de uma eventual candidatura de Doria fora do PSDB seria a fragmentação do campo de centro. “Quando o centro se fragmenta, os extremos se beneficiam”, diz. Foi o que aconteceu, lembra, na superpulverizada eleição à Prefeitura do Rio, no ano passado, que teve oito candidaturas de destaque, levando ao segundo turno Marcelo Crivella (PRB), “de um partido evangélico”, e Marcelo Freixo (Psol), de uma legenda para além da centro-esquerda.

“Bolsonaro assistiria de dentes expostos. Pode haver um segundo turno de azarões”, resume, numa referência ao deputado federal da extrema-direita, que aparece em segundo lugar nas pesquisas, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, cuja candidatura é uma incógnita. O julgamento dos processos em que é réu, em segunda instância, pode torná-lo inelegível.

Os pretensos votos centristas de Alckmin e Doria, observa Lavareda, seriam disputados, por exemplo, por Marina Silva (Rede) – sobretudo se a ex-senadora for fortalecida por um vice que venha do Poder Judiciário – e até pelo senador Alvaro Dias (Podemos-PR), que é “um frequentador de carteirinha dos telejornais”.

Para o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, olhando-se nos detalhes da última pesquisa do instituto, João Doria teria uma ligeira vantagem sobre Alckmin, no momento. O prefeito é conhecido por apenas 59% dos brasileiros, enquanto o percentual do governador – que já concorreu à Presidência em 2006 – é de 87%. No entanto, apesar desse conhecimento 47% menor, Doria apresenta uma preferência maior em relação a Alckmin, 10% contra 8%, num cenário estimulado em que os concorrentes seriam Lula (PT), Marina Silva (Rede), Jair Bolsonaro (PSC), Ciro Gomes (PDT), Luciana Genro (Psol), Ronaldo Caiado (DEM) e Eduardo Jorge (PV).

A diferença entre os tucanos está dentro da margem de erro, mas Doria também aparece numericamente à frente na espontânea: 1% contra zero de Alckmin. Outro indicador sempre crucial para as chances de uma candidatura, a taxa de rejeição do prefeito é de 20% enquanto a do governador é de 34%. A rejeição de Alckmin só é menor do que a de Lula (46%) e está mais concentrada nos segmentos do eleitorado que são o reduto tradicional do PSDB, os mais ricos e escolarizados. “Mas isso tem que ser muito relativizado, pois a candidatura Doria não está apresentada”, diz Paulino.

No balanço das variáveis renda e escolaridade, o perfil de Doria é mais elitista e o de Alckmin tem viés um pouco mais popular. Entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, o prefeito mais que dobra sua média nacional e alcança 23%. Se a eleição fosse decidida pelo estrato mais alto de renda, Doria venceria o primeiro turno, à frente de Bolsonaro (19%) e Lula (14%). No entanto, entre os mais pobres, que ganham até dois salários mínimos, Doria é o preferido de apenas 6%, pouco mais da metade de sua média nacional.

No mesmo segmento, Alckmin tem 7% e dobra para 14% entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, crescimento que no caso de Doria é quase o quádruplo. Com 14%, o governador não venceria a eleição entre os mais ricos. “Com Alckmin, se a elite decidisse, daria Bolsonaro, com 20%”, destaca Paulino.

O pesquisador, porém, lembra que candidatos mais competitivos costumam ser os que têm um perfil mais homogêneo entre as faixas de cada segmento do eleitorado. “Um exemplo clássico é o do Lula, nas primeiras eleições. Enquanto ele era o preferido das classes mais altas não conseguia vencer. Ganhou quando conquistou os mais pobres”, diz.

O perfil de Doria é mais heterogêneo do que o de Alckmin também no quesito escolaridade. O prefeito amealha 18% dos que têm nível superior e cai para 7%, abaixo da média geral de 10%, entre os eleitores com nível fundamental. Alckmin tem menos preferência entre o eleitorado com nível superior, 7%, do que sua média de 8%, e um pouco mais (10%) entre os que têm ensino fundamental – percentuais semelhantes entre as faixas. “A imagem que Doria passa para o resto do país, no começo de seu mandato, agrada mais à elite, que tem escolaridade e renda mais alta”, afirma Paulino.

A preferência se reproduz quando o recorte é pelo tamanho das cidades. O político nascido em Pindamonhangaba, onde foi prefeito, tem preferência de 7% dos eleitores nos municípios de até 50 mil e acima de 500 mil habitantes. Vai melhor, com 11%, nos municípios de 200 mil a 500 mil habitantes. A faixa de cidades de porte intermediário também é a melhor para Doria, que chega a 14% nelas. Mas as maiores cidades dão ao prefeito o dobro (12%) das preferências que ele obtêm nos municípios menores (6%).

Nas regiões metropolitanas, Doria alcança 12%, mas no interior, 9%. Alckmin, de novo, oscila menos e tem, respectivamente, 7% e 8%. Pelas regiões do país, prefeito e governador estão iguais no Norte (5%) e Centro-Oeste (4%), e Doria é um ponto percentual melhor no Sul (9% a 8%) e Nordeste (5% x 4%). No Sudeste, o prefeito eleva sua preferência média de 10% para 15%, e Alckmin de 8% para 12%.

Para Paulino, sendo candidato ou não, Lula será o personagem central para a campanha de ambos. “Eles precisam conquistar o pobre que não rejeita o Lula, sem ofender esses pobres que veem o petista literalmente como um salvador da pátria”, diz.

Nas categorias idade e sexo, Doria tem um perfil mais homogêneo na primeira, com poucas oscilações entre as faixas etárias, enquanto Alckmin ganha mais preferência quanto mais velho é o eleitor. Por gênero, é o inverso: o governador é preferido de modo mais uniforme por homens e mulheres, enquanto Doria agrada mais ao eleitorado masculino (12%) do que o feminino (8%).

Para Lavareda, a chance de Doria sair do PSDB para concorrer é muito remota. “Os dois estão condenados a continuarem juntos. A classe média de São Paulo é muito tucana”, diz. Se a eleição presidencial fosse solteira, como em 1989, o cenário seria mais provável. “Mas é uma eleição geral, de operação muito complexa, entrecruzada, em que as candidaturas de dezenas de milhares de candidatos são amarradas”, argumenta, chamando atenção para a altíssima correlação entre votação e tempo de TV, que por sua vez reflete o arco de alianças. “Ninguém troca o PSDB por uma coisa reduzida. O DEM vai crescer, mas modestamente. O Doria vai para o PMDB?”, duvida Lavareda.

O filósofo político Marcos Nobre, da Unicamp e do Cebrap, concorda. Em sua opinião, uma candidatura fora do PSDB “pode acabar” com Doria, que tem a chance de concorrer a governador. “E a fatura que ele vai ter que pagar perante a elite a qual pertence, por dividir o campo conservador, é muito alta”, diz.

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