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PIB tem 1ª alta desde 2014 é a manchete do Globo

A economia brasileira voltou a ficar no azul após dois anos de resultados negativos consecutivos. O IBGE informou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) cresceu 1% no primeiro trimestre, na comparação com o quarto trimestre do ano passado. O resultado — sustentado basicamente pelo avanço recorde de 13,4% do setor agropecuário — foi comemorado pelo presidente Michel Temer, que foi às redes sociais para anunciar o fim da crise: “Acabou a recessão!”, disse no Twitter. Economistas, no entanto, são mais cautelosos e destacam que é cedo para decretar que o país encerrou o ciclo recessivo, principalmente considerando as incertezas causadas pelo aprofundamento da crise política, que podem dificultar a aprovação das reformas, atrasar o corte de juros e afetar a economia nos próximos meses.

Além disso, a previsão é de que, no próximo trimestre, o resultado do PIB seja menos auspicioso. Segundo dez analistas consultados pelo GLOBO, a economia poderá ficar estagnada ou mesmo voltar a registrar resultado negativo. Uma queda colocaria em xeque o fim do ciclo recessivo, já que um dos conceitos usados por economistas para marcar a saída de uma crise é a repetição de dois resultados positivos seguidos.

Economistas destacam ainda que o PIB do primeiro trimestre foi muito influenciado pela forte expansão da agropecuária, graças às safras recordes de soja e milho. O setor respondeu por 70% do crescimento do PIB — sem a produção do campo, a expansão da economia teria sido de só 0,3%. Este resultado não deve se repetir nos próximos trimestres, até porque a colheita dos grãos mais importantes para a economia brasileira ocorre na primeira metade do ano.

Para a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, ainda é preciso observar mais dados, antes de concluir que a recessão acabou:

Temos de esperar para ver o que vai acontecer este ano. Tivemos crescimento, só que contra uma base depreciada, de oito trimestres seguidos de queda. Vamos ver o que vem pela frente. No segundo trimestre, teremos efeito positivo da safra agrícola novamente, principalmente de soja e milho, que são bastante exportados. Temos de esperar para ver qual vai ser a conjuntura geral à frente.

O presidente Temer atribuiu o resultado do PIB às políticas econômicas do seu governo: “Isso é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer. E com as reformas, vai crescer mais ainda”, escreveu o peemedebista no Twitter. Em nota, o Ministério da Fazenda classificou o dia como histórico para o país. “Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século”, disse o texto.

Mesmo com a alta do PIB no primeiro trimestre, o atual patamar de produção da economia brasileira está no mesmo nível de dezembro de 2010, num recuo de mais de seis anos. Além da agropecuária, a produção industrial também cresceu, 0,9%, mas graças principalmente a um avanço de 1,7% da indústria extrativa mineral, refletindo o fim do efeito do desastre da Samarco em Mariana. O setor de serviços ficou estagnado.

Considerando o lado das despesas — que, assim como os setores produtivos, também determinam o ritmo de crescimento do PIB — o destaque positivo foi o setor externo. As exportações cresceram 4,8%, e as importações, apenas 1,8%. Todos os outros componentes ficaram no negativo: consumo das famílias (-0,1%), consumo do governo (-0,6%) e a chamada formação bruta de capital fixo (-1,6%), que é um indicador de investimentos. Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o PIB recuou 0,4%, uma queda menos intensa que as dos trimestres anteriores, mas a 12ª consecutiva nesse tipo de comparação.

Tínhamos uma projeção mais positiva para o PIB e, após a divulgação, fica a impressão de que, mesmo positivo, o número é fraco, pois é totalmente concentrado no desempenho da agropecuária, influenciado por safras recordes no país. Não chegamos ao fim da recessão e não temos qualquer sinalização de recuperação expressiva — analisa o economista Daniel Silva, do Modal Asset.

Já Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), destaca que a dependência do setor externo mostra a fraqueza do consumo doméstico:

Alívio dá. Mas é um desempenho que está muito relacionado com o setor externo. A demanda doméstica, por mais que não esteja no seu pior momento, ainda não tem sinal positivo.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a crise política é a principal fonte de incerteza.

Sim (saímos da recessão), mas não é uma saída consistente, pois, se não vier uma solução política rápida e eficiente, a chance de voltarmos à recessão é muito grande. O PIB do segundo trimestre deve ter queda na margem (frente ao primeiro trimestre) e na comparação interanual de novo, então, infelizmente, não dá para pensar em sequência de números positivos por hora — diz o economista, que prevê queda de 0,8% no segundo trimestre, a projeção mais pessimista.

POLÍTICA VAI DITAR RITMO DE RETOMADA

Apesar de estar no grupo dos mais otimistas, Rodolfo Margado, economista do Santander, também vê crescimento moderado nos trimestres seguintes e riscos associados à crise política. Para o analista, o PIB ficará estável no segundo trimestre:

A grande pergunta agora é sobre o ritmo da recuperação da atividade. A economia vai mostrar alguma reação nos próximos trimestres, mas a um ritmo bastante moderado. Com os últimos eventos do quadro político, vemos alguns sinais de baixa. Mas podemos afirmar que a economia brasileira atingiu o fundo do poço. E os fundamentos do quadro político vão ditar o ritmo dessa recuperação.

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