Reforma Política

Eventual candidatura de Meirelles pode trazer riscos a reformas, diz O Globo

A economia americana criou menos vagas de emprego do que o previsto por analistas em outubro, mas indicadores da indústria e do setor de serviços mostram que os Estados Unidos estão em franca recuperação. De acordo com o Departamento de Trabalho, as empresas americanas abriram 261 mil vagas em outubro. Assim, a taxa de desemprego caiu para 4,1%. Além disso, o salário médio pago por hora cresceu 2,4%, em relação ao ano passado, para US$ 26,53. Na prática, o trabalhador americano está conseguindo emprego e com mais dinheiro no bolso, o que é bom para o consumo.

A criação de empregos veio abaixo do esperado pelos economistas, que projetavam aumento de 310 mil vagas. Mesmo assim, foi o 85º mês seguido de saldo positivo na criação de postos de trabalho, a maior sequência desde o início da série histórica. O dado representa uma recuperação em relação a setembro, quando o mercado de trabalho foi afetado pelos furacões Harvey e Irma.

Também ontem, o Instituto para Gestão de Oferta (ISM, na sigla em inglês) mostrou que as encomendas no setor de serviços avançaram para o maior nível desde 2005. O indicador ficou em 60,1 pontos em outubro, frente a 59,8 pontos em setembro. Leituras acima de 50 indicam crescimento da demanda.

AVANÇO DOS INVESTIMENTOS

Na indústria, os dados também são positivos. As encomendas às fábricas dos EUA cresceram 1,4% em setembro, segundo o Departamento de Comércio. A melhor notícia do relatório é o desempenho dos bens de capital — um indicador do ritmo dos investimentos —, que foi revisado para alta de 1,7% Foi a maior avanço desde julho de 2016.

A recuperação da economia confirma o cenário traçado pelos analistas de que o novo presidente do Banco Central dos EUA, Jerome Powell, nomeado anteontem para o cargo, deve elevar os juros básicos americanos em dezembro.

A eventual candidatura do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, à Presidência da República tem sido vista com ressalvas por alguns líderes de partidos na Câmara. Tanto aliados do governo quanto da oposição dizem que ainda é cedo para falar em nomes e que uma possível précandidatura do ministro poderia interferir no andamento de reformas, como a da Previdência. Entre economistas, a visão é que o maior risco para as reformas é a preocupação do Congresso com o custo político da votação de medidas impopulares, independentemente de quem estiver na corrida para o Planalto.

A confirmação de que se considera “presidenciável” foi dada pelo ministro à revista “Veja” nesta semana. Nos dias seguintes, ele negou estar no páreo, e ontem chegou a dizer que não concorrerá ao cargo “em hipótese alguma”.

Não tomo decisões por antecipação, como tem sido uma prática na minha carreira. Até porque decisões por antecipação são uma perda de tempo — disse Meirelles, em entrevista à Rádio Gaúcha.

Mas as possíveis repercussões já circulam entre parlamentares. Para o líder do Democratas, deputado Efraim Filho (DEM-PB), o momento não é de pensar em nomes para a disputa do pleito, e a presença de Meirelles na lista de presidenciáveis “mais atrapalha do que ajuda” nas reformas.

É hora de focar numa agenda que seja boa para o Brasil. Nós temos uma tarefa difícil, que é fazer a travessia desse fim de 2017. Acredito que a melhor estratégia é deixar 2018 para ser discutido em 2018, e não antecipar a discussão de candidaturas, especialmente de nomes — declarou o líder do DEM.

O deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP), líder do PSDB na Câmara, também criticou a antecipação do debate sobre possíveis presidenciáveis.

Acho que é prematuro lançar qualquer candidato agora, e não vejo isso como algo benéfico para o avanço das reformas. Eleição é só o ano que vem, agora é um ano de estabilizar o país. Você não pode provocar e antecipar um processo que nem começou. Nós ainda temos grandes desafios e não podemos jogar o país numa aventura — defendeu Ricardo Trípoli.

Do lado da oposição, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), líder do partido, disse acreditar que a reforma da Previdência já encontra dificuldades para avançar. Mas ele reconheceu que uma provável candidatura do ministro da Fazenda pode ajudar a compôr forças entre aqueles que se opõem ao próprio ministro e às reformas.

A reforma da Previdência já está com dificuldade de avançar pela impopularidade dela, pela forma como ela foi elaborada, sem nenhuma interação e discussão com a população. O Meirelles fica fazendo essas afirmações no sentido de que vai votar só para agradar o mercado. Agora, evidentemente que ele, na medida em que aparece como candidato, acaba aglutinando as forças que são contra ele e contra as propostas dele também, e isso não ajuda o camarada a ser candidato — disse Zarattini.

Já no partido do ministro, o PSD, a perspectiva é mais otimista. O líder da sigla na Câmara, deputado Marcos Montes (MG), reconheceu que ainda é cedo para colocar nomes, mas disse que a bancada da legenda tem reivindicado a candidatura de Meirelles:

Acho que não atrapalha as reformas. Pelo contrário, o risco é exatamente pelo momento que nós estamos, não por uma eventual candidatura. Nós conversamos com ele há um mês com a ideia de colocar seu nome para a avaliação da sociedade e da própria imprensa. E ele é muito competente, não tem ainda aquele verniz político que precisa ter, mas o nome dele está colocado, de uma forma até um pouco cedo. Cabe agora avaliar. Se vai ser uma candidatura que se viabilizará e terá competitividade, só o tempo dirá.

DEPUTADOS SERÃO CANDIDATOS

A aprovação de reformas como a da Previdência é vista como fundamental por boa parte dos economistas. Na avaliação de José Julio Senna, ex-diretor do Banco Central e chefe do Centro de Estudos Monetários da FGV, os deputados estarão mais preocupados com as próprias candidaturas, seja agora, seja em 2018, e esse seria o principal risco, não a declaração de Meirelles. Ele acrescenta que vê como urgente o avanço da medida.

A reforma deve vir em ondas, não com uma bala de prata com abrangência sobre todas as mudanças. Então, quanto antes começar essa caminhada, melhor. A economia sem as reformas está muito vulnerável — afirma o economista.

Já Luiz Roberto Cunha, professor de economia da PUCRio e um dos intelectuais ligados ao PSDB, acredita que a fala do ministro cria um ruído, em um cenário já conturbado por um cenário político difícil.

Se a declaração for interpretada como uma vontade, de fato, de o Meirelles concorrer, pode criar um prejuízo para a negociação das reformas. Nesse quadro muito fragmentado, de candidaturas, principalmente pelo centro, obviamente não é hora de mais gente ficar criando ruído — afirma Cunha.

Apesar de admitir o risco de turbulência, Cunha não acredita que Meirelles, em uma eventual campanha, deixará o lado candidato interferir na defesa das reformas. Principalmente porque considera que o ministro sabe que, sem uma sinalização positiva sobre as medidas, será mais difícil para qualquer um tocar o país a partir de 2019.

Mesmo candidato, ele não poderia deixar de trabalhar pelas reformas. Ele só teria chance de ser candidato mais à frente com a economia se recuperando — completa.

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