Reforma Política

Mulheres unem-se por protagonismo na política é o título de matéria no Valor

Na sala de reuniões de um amplo sobrado no bairro do Paraíso, na região centro-sul de São Paulo, cerca de 150 mulheres almoçam animadas. Entre uma cadeira e outra é até difícil localizar Luiza Trajano, fundadora do império varejista que faturou R$ 11,4 bilhões no ano passado. Sentada em uma das mesas com outras três mulheres, ela se mistura às demais participantes, acessível enquanto come e conversa. A hierarquia do Magazine Luiza não se aplica ali, diz.

“Prova o escondidinho que está uma delícia”, recomenda Luiza à reportagem. “É receita da Sonia, tem gosto de comida do interior”. Da cozinha sai Sonia Hess, amiga de Luiza e ex-presidente da fabricante de camisas femininas Dudalina. Traz nas mãos uma travessa recém-tirada do forno, embrulhada em um pano de prato, e logo repõe parte do menu caseiro distribuído em duas pequenas mesas: arroz, feijão, frango frito, salada de alface, suco de frutas – e escondidinho de carne-seca.

Nenhum homem à vista: a única figura masculina que passou por ali por alguns minutos naquela última quinta-feira do mês de agosto foi Ricardo, assessor de imprensa pessoal de Luiza há mais de 20 anos, para acompanhar a entrevista ao Valor.

O clima informal e amistoso pode enganar quem imagina que são pouco ambiciosos ou que há algo de improviso nos planos do grupo Mulheres do Brasil, que começou em 2013 com 40 empreendedoras e hoje reúne mais de 7 mil associadas de perfis variados em todo o país. A meta é tornar-se o principal movimento civil político não partidário do Brasil. “O que a gente quer é ter interferência política em quem decide a política”, diz Luiza.

Cada ação do grupo é baseada em pilares bem determinados: levar mais mulheres ao protagonismo na política, nas empresas e nas transformações do país. Agenda feminista? “Se você achar que feminista é defender que haja mais mulher na política, é ser contra a violência contra a mulher, é pensar que não podemos levar 80 anos para ter mulheres em cargos altos nas empresas, então eu vou te responder que é, que eu sou feminista”, diz Luiza, rejeitando qualquer versão pejorativa do conceito.

A frase “não somos contra os homens, mas somos a favor das mulheres” é um dos motes definidos pelo grupo como os valores “inegociáveis”: qualquer nova integrante precisa estar afinada para participar. Há outros: elas são apartidárias, não podem ser candidatas a nenhum cargo público e nem criticar políticos ou partidos específicos em nome do grupo.

“Quando a gente se põe contra o distritão é porque estudamos e vimos que isso é muito ruim para o Brasil. Não é contra um partido”, explica Luiza. Elas só combatem alguma decisão política em Brasília quando há consenso entre todas. “Porque as pessoas divergem muito”, explica Ligia Sica, coordenadora do núcleo de pesquisa em direito e gênero da Fundação Getulio Vargas (FGV) e líder do comitê de política do Mulheres do Brasil, um dos 14 comitês temáticos: os tópicos abrangem ainda violência contra a mulher, igualdade racial, empreendedorismo, liderança empresarial, entre outros.

O nome Mulheres do Brasil nasceu inspirado na exposição homônima da artista plástica Eliana Kertész, falecida este ano, mas que em 2013 exibia suas obras no Palácio do Planalto no dia da primeira reunião do grupo, em 8 de outubro. As esculturas em bronze e fibra de vidro, à época, caíram nas graças da ex-presidente Dilma Rousseff ao retratarem um conjunto de “gordinhas sexy” que, na visão dela, representavam a alma da mulher brasileira. “Liguei para a Eliane e falei: a gente está querendo fazer um grupo, pode chamar Mulheres do Brasil?”, conta Luiza.

Embora a primeira reunião tenha ocorrido no Planalto, com a presença de Dilma – e Luiza já tenha sido até cogitada para ser ministra da ex-presidente -, a fundadora do Magazine Luiza faz questão de enfatizar que o grupo é absolutamente apartidário e que seu objetivo não é seguir carreira política. “Sempre soubemos que não queríamos ser candidatas, nem montar partido. A gente não sabe se amanhã alguém vai querer, mas hoje a gente não quer”, diz Luiza. Criado por empreendedoras, hoje o grupo quer ser o mais plural possível, abrangendo da elite às comunidades da periferia, aberto a qualquer mulher alinhada com seus ideais. “Pode ser dona de casa, quem quiser”, diz Luiza.

A empresária diz que o plano é receber todos os candidatos à Presidência no ano que vem. “Vamos receber sem vaiar ninguém, sem aplaudir ninguém. Queremos saber a opinião de Fernando Henrique [Cardoso], do [Luiz Inácio] Lula [da Silva], se ele quiser vir. Já recebemos o [João] Doria”, diz a presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, que de manhã até a noite daquela quinta-feira conduziu pessoalmente as reuniões chamadas de “portas abertas”, que apresentam o grupo a novatas.

Na apresentação, Luiza afirmou que a intenção do Mulheres do Brasil no ano que vem é ter propostas políticas “bem fortes, que mexam com a comunidade”. Entre risos, ela diz que cogita uma campanha para que políticos coloquem seus filhos em escolas públicas. “Toda palestra em que falo isso faz o maior sucesso. Estou testando”, diz. Ela também compartilhou sua memória do dia 17 de maio, em que foi divulgado o teor dos áudios da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer. “De repente todo mundo pensou: ou assumimos o Brasil ou o Brasil vai embora.”

Outro tema caro ao grupo é o da representatividade que, na visão unânime das associadas, anda baixa no governo de Michel Temer. O anúncio, no ano passado, de que a equipe ministerial do presidente seria formada exclusivamente por homens brancos foi motivo até de reunião de emergência. “O povo aqui quase morreu, as meninas do comitê de política não dormiram à noite”, diz Luiza. “Não podemos aceitar no mundo de hoje haver 30 ministros e não ter nenhuma mulher”, critica. “Independentemente de ser feminista ou não, é provado que a diversidade traz riquezas que a gente nem mensura”, diz. Sonia Hess faz coro às críticas de que os ministérios de Temer não representam o Brasil. “Hoje nós temos ministérios que são só políticos”, afirma. O grupo já abriga ONGs e líderes comunitárias, e planeja criar um comitê específico para comunidades da periferia. “Não podem nos enxergar como meia dúzia de mulheres ricas que bebem chá. Somos heterogêneas, brancas, negras, ricas, pobres”, diz Ligia.

No dia 18 de agosto elas criaram uma petição online que reuniu 11 mil assinaturas contra a adoção do distritão, bem como contra a criação do fundo eleitoral de R$ 3,6 bilhões para financiar campanhas, duas das propostas da reforma política. Isso não significa que elas sejam contra a reforma. Ao contrário, elas são favoráveis a mudanças, mas querem mais democracia nos partidos e veem na atual proposta a perpetuação do modelo atual.

Além disso, as associadas dividiram entre si uma lista de celulares e e-mails dos deputados e se dedicaram pessoalmente a “inundá-los” com mensagens de posicionamento. “Eles devem estar falando: quem são essas malucas dessas mulheres do Brasil?”, brinca a coordenadora do comitê político. No dia 23 a Câmara retirou do projeto o valor do fundo eleitoral e fatiou a votação. Mas a petição continua ativa no site Avaaz, e a meta é coletar 20 mil assinaturas. “Vamos continuar monitorando”.

Por enquanto, o Mulheres do Brasil se financia da renda de palestras e recursos das executivas que fundaram o grupo, como Luiza e Sônia. Quem pode, contribui com R$ 100. O almoço da semana passada era por adesão: R$ 60 por pessoa. A sede, uma casa alugada onde antes funcionava um showroom da Dudalina, foi reformada com recursos do próprio grupo e fica aberta às participantes sem cobrar entrada. “A gente não aceitou patrocínio. E não precisa doar para participar. Eu nem sei os nomes de quem doa”, diz Luiza.”

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