Reforma da Previdência

Mesmo sem votos, governo tenta aprovar reforma da Previdência ainda neste ano, diz o Valor

O governo iniciou ontem a ofensiva final para tentar votar em dezembro a proposta de reforma da Previdência, mesmo que nos bastidores já se reconheça como mais provável que o tema fique para o ano que vem. Duas reuniões trataram do tema, um almoço com dirigentes partidários no Palácio da Alvorada e um jantar com deputados na residência do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O primeiro encontro também foi marcado por uma articulação para unir o centro político em torno de um nome para as eleições de 2018.

Temer pediu aos dirigentes, entre eles os ministros Marcos Pereira (Mdic), Maurício Quintella (Transportes) e Gilberto Kassab (Comunicações), que busquem os votos necessários para aprovar a versão mais recente da reforma, que o governo entende que ajudará a melhorar a economia e fortalecerá eleitoralmente este grupo político. Na reunião inclusive foi mencionada estatística de que houve nas eleições anteriores maior índice de reeleição de políticos que votaram pelas reformas do que de contrários. Nova reunião ocorrerá na quarta-feira para contar os votos obtidos e verificar a chance de aprovação.

Os líderes prometeram buscar os votos sem novas alterações no texto. Segundo relatos, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, chegou a falar até em cortar o fundo partidário de quem for contra a reforma, posição contraposta por Kassab, que lembrou que até março os parlamentares podem mudar de partido.

O almoço contou com os comandantes dos partidos do chamado Centrão e Maia, representando o DEM. Não apareceram dirigentes do PSDB, mas à noite, o jantar teve a participação do presidente interino do partido, Alberto Goldman.

Apesar de as articulações estarem se intensificando, o governo sabe que está muito difícil a votação neste mês. Cresce a tese de que, dada a falta de votos, o melhor a fazer é manter o assunto vivo e esperar até fevereiro, na volta do recesso. Isso ajudaria inclusive a mitigar uma preocupação dos deputados, manifestada nas reuniões, de o Senado não votar, risco que Maia e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tentaram afastar.

Fonte do governo diz que, nesse quadro, o adiamento para fevereiro não faria a economia sofrer, o que ocorreria caso a proposta fosse levada a voto agora e derrotada. Para este interlocutor, o mercado financeiro já está cauteloso, “com o dedo no gatilho”, mas segue em posição que considera a aprovação. “A rejeição não está precificada”, disse, explicando que investidores acham que descobrirão o momento de sair.

No jantar, a área econômica insistiu que a reforma será boa para a economia no curto e longo prazos e que a rejeição colocaria o país em risco de nova recessão, se não em 2018, com certeza em 2019, por conta do crescimento da dívida. “Sem a Previdência teremos problema com ou sem teto de gastos”, diz uma fonte. Estiveram reunidos no jantar representantes de partidos com mais de 320 votos na Câmara, acima dos 308 necessários, o que exigiria altíssimo apoio ao projeto – o que não há. Maia avisou que decide até quinta-feira se pauta a votação na semana do dia 13 ou se fica para 2018.

A votação em fevereiro atrasa o cenário mais turbulento, mas também impede um reforço no clima positivo do mercado, que poderia se espalhar para a economia e acentuar o cenário de alta do PIB e melhora fiscal acima do que hoje projeta a área econômica.

A definição do PSDB é vista no governo como fator chave. Sem o apoio maciço dos tucanos, que decidirão na quarta-feira sobre o fechamento de questão, estima-se que não há como fazê-la avançar. Nesse sentido, a fala de sábado do governador Geraldo Alckmin, de que o que é bom para o país será apoiado pelo PSDB, agradou interlocutores de Temer. Mas vale ressaltar que, embora previsto, não houve encontro privado entre os dois em São Paulo.

Uma fonte ressalta que os tucanos continuam “em cima do muro”, com Alckmin dando apoio à reforma, mas ao mesmo tempo salientando a divisão do partido. O governo sabe que a questão eleitoral pesa muito contra a reforma. Tanto pela possibilidade de que sua aprovação ajude a fortalecer a economia e a candidatura patrocinada pelo Planalto, como pela própria rejeição da população.

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