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Alckmin x Doria vai ditar rumo político do PSDB é o título de matéria no Globo

O dilema do PSDB entre o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria para a vaga de presidenciável em 2018 não se restringe a buscar o candidato mais competitivo. A escolha vai ditar em que campo político o partido se apresentará na próxima eleição: se permanecerá como uma opção de centro ou se vestirá uma roupagem mais à direita. À distância, Alckmin e Doria parecem ter poucas diferenças. Porém, o clima de disputa entre os dois pela vaga de candidato ao Planalto tem evidenciado, a cada dia, profundas divergências.

No campo administrativo, enquanto o prefeito defende publicamente privatizações em larga escala — da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil —, o governador desconversa sobre o assunto. Perguntado este mês sobre a proposta de Doria, Alckmin encerrou a conversa sem se posicionar: — Não tenho estudos sobre isso. Na eleição de 2006, contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a fama de privatista do PSDB custou caro a Alckmin. Embora o governo paulista seja pioneiro em parcerias público-privadas no país, Alckmin se mostra mais comedido que Doria.

É, entretanto, no discurso político que se revela a diferença mais marcante entre os dois até o momento. A narrativa de cada um para o enfrentamento com o PT, adversário histórico, segue estratégias opostas. O episódio da condenação de Lula na Lava-Jato foi emblemático. Enquanto Doria foi às redes sociais comemorar a sentença do juiz Sergio Moro, se referindo ao petista como “o maior cara de pau do Brasil”, Alckmin, até hoje, não se manifestou.

Essa não foi uma atitude pontual. O prefeito usa um discurso raivoso contra a esquerda para arregimentar um exército nas redes sociais e alavancar sua popularidade. O governador, por outro lado, aposta num discurso de conciliação nacional e apenas passou a se preocupar com a sua presença no mundo virtual este ano, depois que o afilhado político despontou como alternativa para 2018.

Vou trabalhar para unir o Brasil — disse Alckmin um mês atrás, inaugurando a tática de se contrapor a Doria, que vinha em outra toada:

Vamos derrotar o Lula na eleição e, depois, pôr Luiz Inácio na prisão.

RELAÇÃO COM MOVIMENTOS SOCIAIS

A postura em relação a movimentos sociais segue na mesma linha. Alckmin tem feito um movimento de aproximação com alguns grupos, entre eles o MST, pregando o diálogo e atendendo reivindicações. Doria encarna o “xerife” e, dedo em riste, já disse: o tratamento que movimentos por moradia receberão dele é “a aplicação da lei” em caso de invasões.

Atitudes como essas, somadas ao estilo pessoal, que é antagônico, fazem das duas figuras alternativas bem diferentes do PSDB para 2018. Com um discurso revanchista na política e liberal na economia, ancorado em privatizações, estado mínimo e parcerias privadas, Doria, se for o escolhido, levará o PSDB ao campo da centro-direita, de linha mais conservadora. Alckmin, apesar da fama de conservador, mais resultado do perfil religioso do que pela ideologia política, representaria nas urnas um PSDB mais conhecido, de viés de centro e que transita dos partidos de direita aos de esquerda.

Por isso, é possível dizer que, seja qual for a escolha do PSDB, ela terá reflexos na construção do arco de aliados para a campanha. O PSB, por exemplo, descarta uma aliança com o PSDB caso o candidato seja Doria. Na semana passada, Alckmin recebeu o ex-ministro Aldo Rebelo, recém-saído do PCdoB e a caminho do PSB, para uma conversa reservada em seu gabinete.

Por outro lado, o PSD, com quem Doria tem tido uma aproximação bem-sucedida patrocinada pelo ministro Gilberto Kassab, dificilmente estaria com Alckmin, no caso de uma candidatura do ministro Henrique Meirelles não ficar de pé. No PMDB, o presidente Michel Temer não esconde a simpatia que sente por Doria. Ele ainda não engoliu a ação de Alckmin, que autorizou a bancada paulista do PSDB a votar majoritariamente a favor da denúncia da PGR contra ele na Câmara no mês passado.

A diferença de perfil político-ideológico entre os dois tucanos já foi percebida pelo eleitorado. Pesquisa Datafolha publicada em julho mostrou que Doria tem seu melhor desempenho na fatia do eleitorado que se declara de direita. Alckmin mostrou uma performance homogênea em todos os segmentos (direita, esquerda e centro). Por enquanto, as intenções de voto de ambos estão no mesmo patamar, de 8% a 10%.

O clima de descrédito com os políticos tem potencial alto de influência no voto em 2018. Nesse cenário, discursos de negação da política podem ganhar espaço, como ocorreu em 2016. É o que avalia o cientista político da Universidade de São Paulo (USP) Christian Lohbauer. Ele acredita que o eleitor vai procurar nas urnas um candidato que represente a indignação social, mas também vai procurar estabilidade.

O próximo presidente não será da esquerda nem da direita. Será alguém do centro, eu arriscaria dizer que até um centro-direita — afirmou Lohbauer.

Para Carlos Melo, do Insper, o maior desafio do futuro governante será pacificar o país politicamente e socialmente. Diante disso, ele aponta o que considera ser o perfil mais adequado para o próximo presidente da República:

Precisamos de um bombeiro e não de um incendiário. Precisamos que o próximo presidente seja capaz de promover um diálogo, uma concertação nacional e uma distensão social. Só vai conseguir fazer isso quem tiver amplitude política.

O debate sobre qual perfil de candidato o PSDB terá em 2018 já começou a mobilizar o partido. Anteontem, um dos aliados de Alckmin e pré-candidato ao governo paulista Floriano Pesaro divulgou uma carta em uma rede social, na qual alerta a sigla a não cair em “tentações liberais”.

CONSELHOS PARA SUAVIZAR DISCURSO

A possibilidade de o PSDB decidir em dezembro quem será seu candidato à Presidência tem se revelado a cada dia mais remota por lideranças do partido. O provável é que essa escolha aconteça somente entre fevereiro e abril. Isso significa que a guerra fria entre Alckmin e Doria vai se arrastar por meses ainda. Para ampliar suas chances internamente, o prefeito já foi orientado a substituir o discurso monotemático contra Lula por algo mais propositivo.

Ninguém ganha a eleição fazendo discurso contra um candidato — avaliou um auxiliar do prefeito.

Apesar de não esconder nas atitudes que é pré-candidato, o prefeito não tem pretensões, segundo aliados, de se colocar publicamente para a vaga, por enquanto, porque teme ganhar a pecha de “traidor”. Foi Alckmin quem o ajudou a se eleger prefeito. A equipe de Doria também não está segura da reação da população de São Paulo quanto a ele abandonar a prefeitura.

Já Alckmin, foi alertado numa viagem recente a Brasília de que ele precisa melhorar sua interlocução no cenário político nacional se quiser ser candidato.

Quando o senhor fica sabendo das coisas, governador, Brasília inteira já sabe — relatou o interlocutor a ele.

O tucano se referia ao fato de Doria estar viajando mais que o governador pelo país e investido numa aproximação com as bases do PSDB e de outras legendas, repetindo o “modus operandi” que adotou nas prévias em 2016 em São Paulo e que o levou à vitória nas urnas.

No PSDB, Alckmin é conhecido pelo comportamento discreto e enigmático.

Ele não é de abrir muito o que pensa, trabalha discretamente e delega pouco na articulação política. Isso pode prejudicá-lo nesse momento — resume um antigo aliado de Alckmin.

Exceto os aliados de um e de outro, ninguém no PSDB arrisca hoje um palpite sobre o desfecho da disputa interna. O discurso de quem está de fora dos dois exércitos é dar tempo ao tempo. Doria tem defendido que a indicação do presidenciável aconteça baseada em pesquisas de intenção de voto. Para ele, quanto mais demorar essa decisão, melhor. Enquanto isso, ele continuará andando pelos estados à procura de apoio para seu plano presidencial.

Já Alckmin prega que a definição aconteça, no máximo, até fevereiro, e que a experiência política do pré-candidato tenha maior peso do que o fator novidade nessa escolha.

Atrelar uma definição a pesquisas é uma grande bobagem. Se isso valesse algo, Doria nunca teria sido candidato em São Paulo — ponderou um alckmista.

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