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Após vídeo, ala tucana quer Aécio de volta, diz O Globo

A polêmica provocada pelo conteúdo da propaganda partidária do PSDB na televisão realimentou o movimento tucano ligado ao Palácio do Planalto que defende a volta do presidente licenciado Aécio Neves (MG) ao comando do partido. Governadores, ministros, parlamentares governistas e lideranças de peso do PSDB fizeram duras críticas ao presidente interino Tasso Jereissati (CE), que foi responsável pelo tom da propaganda denunciando o “presidencialismo de cooptação” no Brasil.

Logo após o programa ir ao ar, começou a pressão para afastar o senador cearense e fazer com que Aécio reassuma e escolha um novo interino para o mandato-tampão que vai até dezembro, quando acontece a convenção nacional dos tucanos. Ao longo do dia, no entanto, mesmo os que consideram inviável a permanência de Tasso passaram a avaliar ser um movimento arriscado derrubá-lo, pois levaria a uma fragilização ainda maior do PSDB.

Ainda indignados com o que chamam reservadamente de “traição”, os críticos dizem que o programa veiculado na TV não foi do partido, mas de Tasso, e consideram que o resultado foi “desastroso” tanto para a unidade da legenda, como para a disputa eleitoral de 2018 por deixar em posição vulnerável os ministros tucanos no governo. O partido ocupa quatro ministérios, e a avaliação interna é que o vídeo criou um constrangimento grande entre os tucanos e o presidente Michel Temer.

O vídeo foi um desastre total. Atingiu os ministros, fundadores do partido, muita gente da ala jovem e principalmente o Tasso. Houve muitos pedidos de ponderação para que o programa não fosse nessa linha. A insistência dele indica um desajuste com o desejo da maioria de que essa transição fosse uma oportunidade para pacificar o partido — opina o deputado Paulo Abi-Ackel (MG) da ala governista ligada a Aécio.

INTERINIDADE VIROU UMA PINGUELA’

A interinidade dele virou uma pinguela. Essa infelicidade desse vídeo pode lhe custar a presidência do partido. É difícil que ele possa se sustentar. Mas, apesar do gesto truculento que ele fez, não haverá gesto truculento como resposta. Ele mesmo vai achar que disputar uma cadeira de interino é algo muito pequeno para o tamanho dele — avalia outro tucano governista, pedindo para não ser identificado.

Aliados de Aécio informaram que ele conversaria com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e com o próprio Tasso e integrantes da Executiva nacional antes de tomar decisão.

O Aécio está licenciado e, pelo estatuto, pode suspender a licença e reassumir a qualquer momento, independentemente de Tasso devolver ou não o cargo. Ele interrompe a licença e volta. Quando reassumiu o mandato, há dois meses, perguntou ao Tasso sobre o programa e ele respondeu que já estava pronto e deu no que deu — explicou um dos aliados de Aécio.

A expectativa é que a cúpula do partido convoque uma reunião até o início da próxima semana. O PSDB hoje tem três vice-presidentes que poderiam assumir o comando: os deputados Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Giuseppe Vecci (PSDBGO), além do ex-vice-governador de São Paulo Alberto Goldman — nome já descartado. Outro cotado para o mandato-tampão até dezembro, se avançar a pressão pela substituição de Tasso, pode ser do líder no Senado, Paulo Bauer (SC), um dos parlamentares mais próximos de Aécio. O governador de Goiás, Marconi Perillo, é cotado para suceder Aécio definitivamente e conduzir o partido nas eleições do próximo ano.

O presidente Temer disse a aliados próximos achar que o programa do PSDB aumentará a pressão sobre o governo para troca de cargos de primeiro escalão ocupados por tucanos. O centrão, grupo responsável por dar vitória ao presidente na votação da denúncia por corrupção passiva no plenário da Câmara, tem pressionado para que o Palácio do Planalto puna o PSDB. O grupo tem interesse sobretudo em ocupar o Ministério das Cidades, hoje nas mãos de Bruno Araújo, que ontem divulgou uma nota criticando o programa de Tasso Jereissati. Essa possibilidade de aumentar a pressão sobre o governo incomodou o presidente Temer.

Claro que há um incômodo, e decorre de que, na Câmara, os partidos já não gostam muito do PSDB, sobretudo por ter o comando das Cidades. Agora, se o PSDB não tomar uma atitude muito viril, vai vir coice para cima do governo — disse ao GLOBO um ministro.

Outro ponto de insatisfação, segundo ministros, foi o fato de que, na propaganda de quinta-feira, os locutores não deixaram claro, quando apareceu a foto de Temer, que o PSDB comanda três dos principais ministérios do governo: além das Cidades, a articulação política, nas mãos de Antonio Imbassahy, e Relações Exteriores, sob o comando de Aloysio Nunes — além de ter a ministra Luislinda Valois na Secretaria de Direitos Humanos.

ABOLETADOS EM NOSSOS MINISTÉRIOS”

Deveria ter se falado, quando apareceu o retrato de Temer, que os tucanos apoiam o governo e estão aboletados nos nossos ministérios — afirmou uma pessoa próxima a Temer.

Alguns dos principais interlocutores de Temer fizeram fortes críticas à peça publicitária, zombando do fato de que não houve sequer a autocrítica prometida. Além disso, ponderaram que o chamado “presidencialismo de cooptação”, como foi chamado o modelo atual no vídeo, foi inaugurado nos governos de Fernando Henrique Cardoso, em decorrência das operações para criar a reeleição.

Aloysio Nunes e Imbassahy almoçaram com Temer em seu gabinete, no terceiro andar do Planalto, encontro do qual também participou o ministro Moreira Franco (Secretaria Geral). O clima, segundo os presentes, foi de “extrema irritação” com a postura “autoritária” de Tasso. Eles defendem que senador Aécio volte ao comando do partido, mesmo que de forma temporária, para acalmar os ânimos. Em seguida, antes de haver eleições, assumiria um dos vicepresidentes da legenda.

Foi um aceno aos cabeças pretas (ala jovem do partido), mas a votação da denúncia mostrou uma maioria favorável a Temer, e é para ela que o partido deve acenar. O PSDB voltou várias casas com esse programa — disse um dirigente tucano.

Uma fonte governista contou que foi positiva, no Palácio, a repercussão das críticas feitas pelos ministros ao programa. Imbassahy, Aloysio e o ministro Bruno Araújo conversaram ontem para criar uma linha comum no discurso que fariam.

Em público, ao menos, o centrão tenta pôr água na fervura.

Sou contra que o PSDB saia do governo, a gente precisa do partido para aprovar as reformas. O governo tem que ter muita calma para não participar dessa briga interna. Temos que botar panos quentes, tentar ajudar — pondera o deputado Beto Mansur (PRB-SP).

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