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Caravana reaproxima Lula do PMDB do Rio, diz o Valor

“Senhor presidente [Eduardo Cunha], que a partir de amanhã, segunda-feira, Deus possa derramar muitas bênçãos, sobre o Brasil e sobre o nosso povo brasileiro. Eu voto a favor”. Primeiro a votar, por questões médicas, na sessão da Câmara que apeou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) do poder, em abril do ano passado, o atual prefeito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Washington Reis (PMDB), se reaproxima do petismo em momento importante para o partido quase 20 meses depois do impeachment.

O prefeito do terceiro maior município do Estado do Rio não irá à caravana que começa a bater bumbo pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira em cidades do Rio e do Espírito Santo, numa espécie de campanha antecipada ao Planalto. Mas o pemedebista recebeu missão precursora do PT em seu gabinete e até propôs que o partido local mudasse o lugar do palanque de Lula para a mais simbólica Praça do Relógio. “Foi onde Lula, em 1989, fez comício com o [ex-deputado] Lysâneas Maciel [1926-1999]. Sugeri à juventude do PT porque ali tem mais tradição”, diz o prefeito, que afirma não ser “adversário nem inimigo político” do petista.

Washington Reis também era prefeito de Duque de Caxias, entre 2005 e 2008, período em que Lula esteve no Planalto (2003-2010). “Tenho boa relação com o ex-presidente. Ele vai ser muito bem recebido, vai dar muito movimento aqui. Na época, ele liberou verbas para compra de equipamentos e veio inaugurar o hospital municipal Moacir do Carmo. O governo dele foi bom, teve inflação baixa, crescimento”, elogia.

O apoio do pemedebista, porém, é menos ostensivo do que o de políticos do PMDB, da base aliada de Michel Temer e até do PSDB que caminharam com o ex-presidente na primeira caravana de Lula, realizada no Nordeste, entre agosto e setembro, e na segunda, em Minas Gerais, em outubro. “Não é meu palanque, é festa do partido deles. Não é respeitoso”, diz Reis, lembrando que “é lógico que tem a questão do meu partido [PMDB]” e que as decisões dos caciques sobre 2018 “vêm um pouco de cima para baixo”.

Nos bastidores, contudo, o prefeito põe o pé em duas canoas. Menos na dos tucanos, cujo pré-candidato é o governador Geraldo Alckmin: “Não gosto do PSDB, bando de oportunistas”, reclama, contrariado com a indecisão da legenda aliada entre sair ou ficar no governo federal. Reis fala em candidatura própria do PMDB, de Temer, mas afirma que “muita água vai passar debaixo dessa ponte” e não acha improvável a aliança entre Lula e o pré-candidato pemedebista ao governo do Estado, o ex-prefeito Eduardo Paes. “Se Michel não vier [à reeleição] não vejo dificuldade. É uma tendência forte, que defendo. Lula gosta muito do Eduardo Paes. Não tem trauma. Tem sinergia. Já tiveram ótima experiência”, diz.

Por onde passa, a caravana de Lula cumpre o papel de cerzir alianças com líderes locais. Mas quanto mais ruma para o Sul, sua capacidade de mobilizar apoio ostensivo encontra resistência. A discrição, como a do prefeito de Caxias, é mais comum. Secretário de Comunicação do PT fluminense, Ricardo Pinheiro diz que a “surpresa” da caravana de Lula no Rio é que o partido não está fechando encontros com políticos locais. “Não é campanha. Diálogo com políticos não é fundamental, e sim com o povo. Não estamos secundarizando nem priorizando [a presença de políticos]”, afirma.

Vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice também recorre à ideia de que a caravana não teria caráter eleitoral ao justificar o apoio explícito mais rarefeito, em relação a Minas e Nordeste. “Não convidamos ninguém, no máximo seremos nós, vereadores e prefeitos do PT, e companheiros do PCdoB”, afirma. Lembra que a passagem de Lula terá encontro com artistas da periferia, de folia de Reis e repentistas, em Nova Iguaçu, e intelectuais e professores no ato de encerramento de sexta-feira à noite, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que passa por uma grave crise financeira.

De ônibus, a caravana começa hoje no Espírito Santo, em Vitória, às 18h, vai para Cariacica, e depois desce pelo Rio: Campos dos Goytacazes (amanhã e quarta-feira), Maricá (quarta), Itaboraí (onde haverá ato no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj), Duque de Caxias, Belford Roxo (os três na quinta), Nova Iguaçu (quinta e sexta) e, por fim, a capital. Nestes municípios, o PT só elegeu o prefeito de Maricá, o vice-prefeito de Nova Iguaçu (o titular é do PR), e esteve na coligação do vitorioso em Belford Roxo, Waguinho, do PMDB.

Cantalice nega que o partido tenha discutido o adiamento do périplo político para evitar a associação de Lula com o PMDB do Rio, ex-aliados, num momento em que quase toda a cúpula pemedebista está na prisão, acusada de comandar uma organização criminosa que recebeu propina e dilapidou as finanças fluminenses. O dirigente afirma que a vinda do ex-presidente era um pedido do PT e da militância estadual, ressentida desde a questão do “golpe”, com o impeachment de Dilma. “Tínhamos que dar estímulo para a base. Se o partido convidou e quer… Rio e São Paulo são caixas de ressonâncias para o país”, diz.

Em São Paulo, porém, que seria o destino natural no roteiro pelo Sudeste, a viagem de Lula não deverá ocorrer. Vice-presidente nacional do PT e coordenador da caravana, Márcio Macêdo afirma que o calendário prevê idas às regiões Norte e Sul, e ainda não está confirmado Centro-Oeste, mas que em São Paulo “não amadurecemos o modelo da caravana”. Diz que pode ser outro formato, com a participação de Lula em debates sobre “educação, soberania nacional, políticas sociais” ou visitas a moradores beneficiados pelo programa Minha Casa Minha Vida, marca do governo PT na área habitacional. Questionado se a razão da mudança do formato seria em razão do forte antipetismo paulista, Macêdo afirma que o diretório no Estado “ainda está discutindo” e que o modelo de caravana faria menos sentido porque “Lula está lá, é de lá”.

Quanto ao PMDB fluminense, o dirigente diz que, durante seu período na Presidência da República, “a aliança de Lula foi com o povo e com o Estado do Rio, é impessoal”, e que se ele for eleito fará novamente a aliança, em nome da recuperação econômica do Estado. Na visita, o petista deve se encontrar com o governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB.

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