Lula

Faltam alternativas a Lula, avalia sócio da Vox Populi é o título de matéria no Valor

A um ano das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não tem um adversário capaz de fazer frente a sua popularidade e a alternativa de direita, representada por Jair Bolsonaro (PSC-RJ), é muito extremada para o gosto da maioria dos eleitores e para conseguir impedir uma vitória petista.

Afora os dois – que ocupam há meses primeiro e segundo lugares em todas as pesquisas -, quem parece ter potencial para atrair uma fatia importante do eleitorado de centro é o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, sem partido.

Essas são algumas das avaliações de um veterano de pesquisas de intenção de voto e de campanhas eleitorais, João Francisco Meira, cientista político e sócio da empresa de pesquisas Vox Populi, de Belo Horizonte.

Ele se diz cético em relação à possibilidade de Lula ter sua candidatura impedida pela Justiça.

“Parece-me que o Lula é candidato a presidente da República em qualquer circunstância. Até preso, ele é candidato”, afirmou o cientista político em entrevista ao Valor.

Alvo de ações sobre corrupção no âmbito da Lava-Jato, Lula já foi condenado em uma delas em primeira instância. Se sofrer uma condenação de segundo grau, se torna ficha suja e ficaria impedido de se candidatar.

Mas Meira avalia que não será tão simples sepultar a candidatura de um líder de pesquisas e que é de se esperar uma batalha jurídica no caso de uma condenação. Se Lula for impedido – preso ou não -, o cenário esdrúxulo que poderá surgir é o de uma campanha com um representante do PT prometendo que, se eleito, será Lula, de fato, quem governará, avalia Meira.

Lula apareceu no Datafolha de 1º de outubro com intenções de voto entre 35% e 36%. Em segundo lugar, Bolsonaro com 16% a 17%. Se os dois se mantiverem como favoritos às vésperas da eleição, Lula se elege no primeiro turno, acredita o cientista político.

“Pode ser que as pessoas não se animem a votar em Lula, mas não vão votar em Bolsonaro para Lula não ganhar. Bolsonaro é extremo demais para a grande maioria da população.” Meira diz que o desafio central do deputado é deixar de ser o atual candidato de nicho para se tornar um nome nacional.

A Vox tem atualmente contrato com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) para produção de pesquisas. A empresa tem dois sócios: Meira e Marcos Coimbra, este autor de artigos simpáticos ao PT. Os dois fazem pesquisas e consultorias para políticos desde 1989, entre eles Collor, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Ciro Gomes, Lula e Dilma e para o governador mineiro Fernando Pimentel.

Sobre o adversário tradicional do petismo, o PSDB, João Francisco Meira vê o partido em dificuldade de escolha para 2018. “Agora o PSDB não tem uma liderança em condições de disputar a Presidência da República.”

Os dois tucanos na fila, Geraldo Alckmin e João Doria, enfrentam, na avaliação de Meira, problemas distintos. O primeiro já foi derrotado na disputa ao Planalto e sua gestão como governador de São Paulo não goza de uma avaliação tão alta para catapultá-lo ao quadro nacional. E Doria, eleito prefeito de São Paulo em 2016, exibe um perfil muito empresarial e de mercado para convencer eleitores país afora, avalia Meira. Os dois ficaram em quarto lugar no último Datafolha, com 8% das intenções.

O PSDB teria outra dificuldade: o fato de estar lado do governo do presidente Michel Temer (PMDB), que padece de altíssima rejeição.

“O PSDB tem lideranças lúcidas, como o Fernando Henrique Cardoso, e cabe a elas tomar medidas para que o partido retome seu caminho natural de tentar ser um polo alternativo entre o PMDB e o PT. O PSDB precisa sair correndo da base do governo Temer, como parte da legenda deseja”, diz Meira.

A rejeição a Temer é também um desafio de saída para as pretensões eleitorais do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD). Se a economia melhorar a ponto de ser sentida no bolso do eleitor, o ministro poderia tentar ocupar o espaço dos eleitores que rejeitam Lula nem e Bolsonaro. Mas a “radioatividade do governo Temer”, como diz Meira, minaria esse plano.

Quem estaria numa posição melhor para esse papel intermediário é Joaquim Barbosa, na avaliação do cientista político. Barbosa já foi sondado pelo PSB e pelo Rede, de Marina Silva. Deixa no ar suas intenções, mas é visto como uma das peças do xadrez de 2018. “O nome dele está colocado e, para mim, não como vice de Marina.” O Datafolha não incluiu Barbosa na última sondagem.

“Ele deixou uma impressão muito marcante como juiz”, diz Meira. “E tem essa característica e um juiz que enfrentou os poderosos.” Barbosa foi relator no STF do processo do mensalão do PT, que levou à condenação de membros da cúpula do partido. Aposentado em 2014, foi um crítico do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. “Tem o fato de ele ser novo na política eleitoral e o fato de ser negro, o que é importantíssimo num país que nunca teve um candidato negro competitivo à Presidência”, diz Meira.

Ao falar das regras para as eleições 2018, aprovadas semana passada, o mineiro destaca dois pontos. Elogia a decisão de que as doações de pessoas físicas sejam limitadas a dez salários mínimos. Mas ao mesmo tempo vê uma dificuldade: “O valor do fundo público não é suficiente para cobrir de uma forma correta a campanha e dificilmente elas serão mais baratas que as de 2014.”

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