Lava Jato

Ao tomar posse, Dodge promete combater corrupção, mas não cita Lava Jato é o título de matéria na Folha

Ao lado de autoridades investigadas pelo Ministério Público e sem mencionar a Lava Jato, a nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, 56, tomou posse na manhã desta segunda (18) na sede da Procuradoria-Geral da República.

Dodge defendeu a “harmonia entre os Poderes” como “requisito para a estabilidade da nação” e enfatizou em várias partes de seu discurso que o Ministério Público deve combater a corrupção sem descuidar de outras atribuições, como a defesa dos direitos humanos e das minorias.

A ausência de menção à Lava Jato, segundo pessoas próximas de Dodge, é parte da estratégia da nova procuradora-geral de não se associar excessivamente à operação –daí ter ampliado o leque para outros temas. A Lava Jato, na visão de aliados, é marca da gestão anterior, de Rodrigo Janot, adversário de Dodge na PGR.

Presente, o presidente Michel Temer, que nomeou Dodge para o cargo, também falou de harmonia entre o Executivo e o Ministério Público.

Janot não compareceu. Na última quinta (14), ele denunciou Temer pela segunda fez vez ao Supremo Tribunal Federal, desta vez agora sob acusação de chefiar organização criminosa e obstruir a Justiça.

A presença de procuradores do núcleo de confiança de Janot criou um ambiente de indisposição na cerimônia.

O ex-vice-procurador-geral Nicolao Dino –o mais votado na lista tríplice da categoria, que acabou preterido por Temer– teve dificuldade para entrar no auditório, porque estava sem um adesivo amarelo para identificar as autoridades. Segundo a assessoria da PGR, a segurança foi feita pelo Planalto e também houve problemas com outras autoridades.

O ex-chefe de gabinete de Janot, Eduardo Pelella, só venceu a fila de entrada no meio do evento. Depois, ao cumprimentar Dodge, desabafou: “Agora está na hora de viver um pouco”. A convidados que o abordavam para perguntar do ex-chefe, ele dizia apenas que “não veio”.

Janot ficou em seu gabinete de subprocurador-geral durante a posse, no mesmo prédio onde Dodge assumia a sua cadeira. Ele voltará a atuar pela PGR junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Aliados disseram considerar uma descortesia o fato de Janot não ter sido convidado para o evento –não havia uma cadeira reservada com o nome dele, por exemplo.

A assessoria de Dodge afirmou à Folha, na sexta (15), que o convite foi enviado por e-mail, conforme decisão do cerimonial da PGR.

No sábado (16), Dodge dispensou dois procuradores do Grupo de Trabalho da Lava Jato que atuavam na PGR. Antes, ela havia convidado os membros a permanecer –a dispensa gerou críticas deles.

NA BERLINDA

Dodge sentou-se ao lado de Temer, da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo, e dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE).

Das autoridades da mesa, somente Cármen Lúcia não é alvo de investigação. Além de Temer, denunciado duas vezes, Maia e Eunício figuram em inquéritos da Lava Jato.

Outros denunciados presentes eram o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, e o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), acusado de corrupção passiva em contratos com a empreiteira Delta.

Havia ainda investigados na plateia, como o ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, e o senador Jorge Viana (PT-AC). “Espero que a normalidade seja restabelecida”, disse Viana.

“O Ministério Público posta-se ao lado dos cidadãos para cumprir o que lhe incumbe a Constituição de modo a assegurar que todos são iguais e livres, que o devido processo legal é um direito e que a harmonia entre os Poderes é requisito para a estabilidade da nação”, discursou Dodge.

Para ela, “o país passa por um momento de depuração”. “Os órgãos do sistema de administração da Justiça têm no respeito e harmonia entre as instituições a pedra angular que equilibra a relação necessária para se fazer justiça.”

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, disse que “certamente” Dodge vai rever atos assinados por Janot.

No primeiro dia no cargo, Dodge cumpriu agenda interna e recebeu representantes do Ministério Público vindos de outros Estados. Segundo o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio, uma das propostas dela é fortalecer a integração entre o Ministério Público Federal e os ministérios públicos estaduais.

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