Lava Jato

Nova procuradora-geral, Dodge tem desafio de mudar sem afetar Lava Jato é o título de matéria na Folha

A nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, 56, assume com a intenção de mudar o estilo de condução da instituição e mostrar que não vai diminuir o ritmo da Lava Jato, apesar de ter sido indicada por Michel Temer, alvo de duas denúncias do antecessor Rodrigo Janot.

Dodge toma posse nesta segunda-feira (18) em uma rápida cerimônia com a presença do presidente Temer. Ambos devem fazer um rápido pronunciamento.

Janot já avisou que não vai à cerimônia. Adversário de sua sucessora, ele alega que não foi convidado para a posse. Raquel Dodge rebate essa versão e afirma que o chamou por e-mail.

A palavra “discrição” é usada nas rodas de conversa dos assessores e procuradores mais próximos da nova chefe da Procuradoria-Geral da República para definir o estilo dela.

Diferentemente de Janot, Dodge pretende evitar o protagonismo na condução da Lava Jato. Delegou a missão ao procurador José Alfredo de Paula Silva, que vai coordenar o grupo de trabalho da operação dentro da Procuradoria-Geral.

Ele atuou na investigação do mensalão e na Operação Zelotes, que investiga esquema de fraudes no Carf, conselho no qual contribuintes recorrem de multas aplicadas pela Receita Federal.

OUTROS TEMAS

Em relação às delações premiadas, Dodge deve fazer um pente-fino nas negociações, incluindo a mais polêmica de todas, com os executivos da JBS.

A procuradora tem dito que dará visibilidade a outros temas, como questões ligadas a indígenas e minorias, causas cíveis no STF (Supremo Tribunal Federal) e direitos humanos.

Por isso, escolheu para compor sua equipe procuradores que vêm trabalhando com a questão indígena –como Luciano Mariz Maia, novo vice-procurador-geral, e Mara Elisa de Oliveira, que será sua chefe de gabinete.

Primeira mulher a ocupar o cargo mais alto do Ministério Público Federal, Dodge assume sob uma expectativa nada fácil de alcançar: pacificar as relações entre a PGR com o Congresso, o Planalto, o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal.

Ao mesmo tempo, ela toma posse no cargo sob desconfiança, por ter sido indicada por Temer, alvo de duas denúncias de Janot –a última delas na semana passada, por obstrução de Justiça e organização criminosa.

Seu nome teria sido costurado no Planalto pelo ministro Gilmar Mendes (STF), adversário declarado de Janot.

A imagem de Dodge se desgastou depois da revelação de um encontro secreto (não registrado em agenda oficial) que teve com o presidente, após sua nomeação, no Palácio do Jaburu.

Por isso, sua postura na condução da Lava Jato é vista como um enigma. Enquanto adversários apostam que a nova gestão pode diminuir o ritmo das investigações, aliados da procuradora-geral defendem que seu estilo discreto não é nada incompatível com um comportamento “linha dura”.

O primeiro pronunciamento de Dodge à imprensa será em uma entrevista coletiva, prevista para ser realizada nesta semana. A procuradora, assim, tenta passar uma mensagem de que não vai priorizar nenhum veículo de comunicação.

A assessoria da procuradora disse à Folha que a nova equipe da Procuradoria “atuará de acordo com a orientação” dela, com “discrição, seriedade e firmeza”.

“Haverá um firme propósito de consolidação e avanço, nos limites constitucionais, quanto à utilização das novas técnicas de investigação criminal que se mostraram como ferramentas eficazes de apuração e combate ao crime organizado e à corrupção”, afirma nota da PGR.

Além de José Alfredo de Paula Silva na Lava Jato, Dodge nomeou Raquel Branquinho para cuidar das investigações criminais de políticos com foro no Supremo Tribunal Federal.

Branquinho e Silva, ao lado do procurador Alexandre Espinosa, membro do Grupo de Trabalho da Lava Jato, atuaram no passado em diversas operações contra a corrupção e estiveram juntos na investigação do mensalão, por exemplo.

Janot fechou 159 acordos de colaboração, deixando para Dodge uma série de inquéritos em curso.

POLÍCIA FEDERAL

Dodge terá de reconstruir pontes com a PF, que enfrentou desavenças com Janot principalmente em torno das delações premiadas.

O ex-procurador-geral ajuizou ação no STF para proibir policiais de fecharem acordos, mas o tribunal ainda não tomou uma decisão sobre o assunto. O clima de embate contaminou o cotidiano das duas instituições, que atuam juntas durante a fase investigativa dos inquéritos.

Sobre a relação com a PF, sua assessoria diz que a PGR vai se basear em “diálogo, respeito mútuo, valorização do trabalho de investigação da polícia e cooperação”.

“A proposta da nova equipe é inteirar-se de todas as investigações e processos em andamento no propósito de dar continuidade aos trabalhos, com plena consciência da responsabilidade que paira sobre a instituição em razão do cenário de apuração de fatos relacionados às diversas autoridades com foro no STF, situação jamais vivenciada pelo país”, afirma.

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