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Odebrecht grampeou e cooptou controlador-geral do Equador, diz O Globo

Há exato um ano, o executivo da Odebrecht José Conceição dos Santos Filho era um dos cerca dos 15 executivos internacionais da empresa que, silenciosamente, se preparavam para delatar. Diretor da empresa no Equador desde 1994, Conceição já havia reunido provas documentais para tentar provar que a empresa havia vencido licitações e conseguido adiantar pagamentos por meio de propinas. Mas faltavam provas concretas para tornar irrecusável ao Ministério Público Federal do Brasil (MPF) sua proposta de delação. Inspirado no então recente exemplo do expresidente da Transpetro Sérgio Machado, Conceição armou-se com um gravador e, no melhor estilo Joesley Batista, produziu provas que prometem fazer a política equatoriana tremer.

A delação de Conceição, ainda em sigilo e obtida pelo GLOBO, mostra que uma das principais autoridades gravadas por ele foi Carlos Polit, o controlador-geral do Equador durante dez anos, e responsável por comandar a investigação que levou à expulsão da Odebrecht, em 2008, pelo ex-presidente Rafael Corrêa. Conceição revelou aos procuradores brasileiros que a Odebrecht comprou o passe de Polit, fazendo-o reverter a decisão e a emitir pareceres que recomendavam ao Equador aceitar de volta a empreiteira.

A caneta de Polit custou caro à empreiteira. O homem que deveria combater a corrupção foi direto.

Ele me informou que não concordava com os pareceres da Controladoria contra a companhia. Revisaria seus pareceres contanto que fosse realizado a ele um pagamento de US$ 6 milhões”, contou Conceição ao MPF.

Polit passou, a partir daí, a ser um funcionário de luxo da empreiteira, que, sem constrangimento, exigia pagamentos para dar pareceres fundamentais para que a Odebrecht ganhasse licitações. Não foram poucas.

Somente entre 2012, ano de retorno da empresa ao Equador, e 2015, Polit foi decisivo para que a empreiteira conseguisse construir grandes obras de infraestrutura, a exemplo da Hidrelétrica de Manduriaco, a Refinaria do Pacífico, o Poliduto Pascuales, para transporte de gasolina e diesel, e o Projeto Daule Vinces, de abastecimento de água.

Ficou acertado que (…) haveria pagamento de valores a serem estipulados caso a caso”.

Só nesse período, os pareceres de Polit lhe renderam, de acordo com os registros do departamento de propina da Odebrecht, US$ 4,1 milhões.

Conceição gravou Polit em uma conversa telefônica e também numa visita que fez ao próprio em sua casa. Em 23 de julho, num dos trechos mais fortes da conversa de 38 minutos, Polit se diz preocupado com os desdobramentos no Equador da investigação sobre contas de offshores no Panamá, o “Panamá Papers”. O executivo da Odebrecht é direto:

Me lembro sempre que você me dizia: quero receber em espécie, não quero em contas para não ter problemas”. Polit concorda: “Nada de contas. Olha, eu não tenho nem dinheiro em espécie. Não tenho nada. E, o pior, tem gente que correu para abrir conta no Panamá. Às vezes, você me dizia: me dá uma conta lá fora. Isso é uma confusão”.

As entregas a Polit ocorriam de duas a três vezes por mês, sempre feitas em espécie, em seu apartamento no Swiss Hotel, em Quito. O dinheiro ficava no closet do apartamento, em um cofre embutido na parede. Os pagamentos de propina eram tão frequentes que a Odebrecht chegou a alugar um apartamento no hotel para armazenar o dinheiro e facilitar a operação. Apesar de, na conversa com Conceição, o agora ex-controlador — ele renunciou em junho passado — dizer que não recebeu em contas no exterior, o delator apresentou ao Ministério Público Federal brasileiro provas de que houve, sim, pagamentos a contas de offshores.

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