Lava Jato

Moro determina prisão preventiva de Aldemir Bendine, diz a Folha

O ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine teve a prisão preventiva decretada nesta segunda (31), pelo juiz Sergio Moro.

A prisão do executivo, detido na última fase da Operação Lava Jato, na semana passada, vencia nesta noite.

Ele é suspeito de solicitar R$ 3 milhões em propina para executivos da Odebrecht, em fevereiro de 2015, a fim de proteger a empreiteira em contratos da Petrobras. Bendine nega as suspeitas e disse que nunca recebeu vantagens ilícitas.

O Ministério Público Federal pediu a conversão da prisão em preventiva –sem data para acabar– com base em documentos apreendidos na casa de Bendine.

Entre eles, estão anotações de próprio punho, em folhas timbradas do Banco do Brasil, de obras e projetos da Odebrecht, com percentuais ao lado (que variam entre 0,5% e 2%).

A Procuradoria também destaca uma tentativa de intimidação de um ex-motorista do Banco do Brasil, que depôs em inquérito que investigava irregularidades na gestão de Bendine. Uma anotação manuscrita apreendida na casa do ex-diretor faz referência a uma ligação ao motorista, ao lado da frase “para dissuadi-lo a não depor no MPF”.

O motorista, Sebastião Ferreira, disse ao Ministério Público que estava recebendo “muita pressão para não declarar nada”, e afirmou que Bendine chegou a convidá-lo para um encontro em seu apartamento. Ele afirmou não ter ido ao local, com receio de “mutreta”.

“É um vergonhoso episódio”, escreveu Moro. Para o juiz, embora tenha ocorrido no passado, o caso “autoriza conclusão, pelo modus operandi, de que a presente investigação e instrução está em risco, já que testemunhas poderão aqui ser igualmente intimidadas”.

Bendine nega as suspeitas e chegou a protocolar uma queixa-crime contra o ex-funcionário.

Para os procuradores, a “gravíssima conduta” de Bendine demonstra uma tentativa de obstrução da Justiça. Sua liberdade, assim, seria um risco à ordem pública, à aplicação da lei penal e à instrução criminal.

OPERADORES

Moro também concedeu a prisão preventiva dos irmãos André Gustavo Vieira da Silva e Antonio Carlos Vieira da Silva Júnior –suspeitos de serem operadores de Bendine. Assim como o ex-presidente do BB, eles estavam detidos temporariamente.

Para os procuradores, há “fortes indicativos de que Aldemir Bendine mantinha com André Gustavo e Antônio Carlos uma conta-corrente de propina, cujos valores iam sendo utilizados à medida da necessidade do então presidente da Petrobras e familiares”.

Entre as operações em destaque, além do recebimento dos R$ 3 milhões em 2015, estão o pagamento de uma viagem a Nova York, para a família Bendine, no Réveillon de 2016. A defesa do executivo diz que ele reembolsou os irmãos posteriormente.

“[Os elementos sugerem] que existiria uma relação mais profunda entre Aldemir Bendine, André Gustavo Vieira da Silva e Antônio Carlos Vieira da Silva Júnior, os dois últimos aparentes profissionais da lavagem de dinheiro”, escreveu Moro.

O Ministério Público ainda enumera ligações de André Gustavo para outros investigados, como o corretor de valores Lúcio Funaro, que negocia acordo de delação premiada, e o executivo da OAS Leo Pinheiro, que já admitiu o pagamento de propina em outros processos.

“É mais um elemento que coloca uma sombra sobre a natureza real de suas atividades econômicas”, afirmou o juiz, no despacho.

OUTRO LADO

A defesa de Bendine diz que a prisão é “absolutamente desnecessária”, nega obstrução à Justiça e diz que os percentuais que aparecem nas anotações do ex-diretor não eram referências a propina.

“[O episódio do motorista do Banco do Brasil] aconteceu em 2013, e o inquérito foi arquivado. Em nenhum momento ele fez isso [pressionou o motorista]. Isso não tem aptidão para sustentar nenhuma cautelar”, disse o advogado Pierpaolo Bottini, na saída do depoimento.

O defensor ainda afirmou que Bendine “manteve ativas todas as restrições à Odebrecht” quando era presidente da Petrobras, e que nunca recebeu propina.

À Polícia Federal, em depoimento prestado nesta segunda (31), Bendine disse que “se sente injustiçado, pois foi um dos maiores colaboradores da Lava Jato” quando presidente da Petrobras, e que construiu “uma carreira técnica de 37 anos sem filiação partidária ou qualquer ideologia política”.

A defesa dos irmãos Antonio Carlos e André Gustavo argumenta que eles fizeram operações lícitas para ajudar na liberação de um recurso da Odebrecht junto ao Banco do Brasil, e que não puderam regularizar a operação a pedido da empreiteira.

Antonio Carlos, em especial, afirma ter deixado a sociedade com o irmão em julho de 2014, um ano antes dos supostos pagamentos, e diz que não tinha relação próxima a Bendine.

Eles negam que tenham pago viagens a Bendine ou à sua família, apesar de admitirem uma relação próxima de André Gustavo com o ex-presidente da Petrobras.

Os advogados ainda sustentam que a documentação “não permite presunção” de que os dois são profissionais de lavagem de dinheiro, tampouco que tenham atentado contra a instrução criminal.

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