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Truculência partidária é o título de artigo de Rosângela Bittar no Valor

O deputado Jarbas Vasconcelos é fundador do PMDB, foi um dos líderes do grupo autêntico do partido, uma espécie de braço executivo das formulações políticas de Ulysses Guimarães e comandante do partido em Pernambuco, Estado de que já foi governador e já representou, em Brasília, tanto no Senado quanto na Câmara. Em nenhum momento da atribulada história do partido, porém, sempre tão dividido, tão acusado e tão criticado, Jarbas teve que se sentir nauseado com atitudes e golpes de violência partidária de vez em quando desferidos.

Fosse o que fosse, o PMDB tinha um lado de tolerância, de acomodação das forças políticas que dava gosto ir-se mantendo no grupo. É uma marca Ulysses que permaneceu na linha da história.

Agora, qual sentimento deve ter o deputado Jarbas Vasconcelos diante do golpe que está tentando lhe aplicar o presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR)? Uma rasteira bem engendrada, cheia de dissimulações e truques grosseiros, tendo como instrumento o senador Fernando Bezerra Coelho (PE).

Romero Jucá segue cavando seu abismo com desenvoltura

Um grupo de políticos do PSB vinha negociando sua transferência para o DEM com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o prefeito de Salvador, ACM Neto, quando foi atropelado por uma jamanta. No time estavam o senador Bezerra Coelho e o seu filho, ministro das Minas e Energia, Fernando Filho, os dois com projeto político enraizado em Pernambuco onde o PSB está aliado ao PMDB de Jarbas e não ao DEM. O ex-deputado Raul Henry (PMDB), presidente do diretório, é vice governador de Paulo Câmara (PSB), num acordo costurado pelo falecido Eduardo Campos, morto na campanha presidencial de 2014.

Henry e Jarbas são sinônimos de PMDB nacional e pernambucano, ao mesmo tempo. Houve, porém, a votação da primeira denúncia por corrupção contra o presidente Michel Temer, na Câmara, e Jarbas Vasconcelos aprovou a continuidade das investigações, votando contra o presidente e a orientação do partido, que fechou questão, numa atitude inédita para o PMDB. Jucá iniciou, então, uma guerra contra o deputado independente, uma espécie de grife de ética e correção que o PMDB às vezes exibia para provar que não é de todo uma espelunca, principalmente em momentos dramáticos como o atual.

Numa providência vingativa, que transcorreu celeremente, desviou-se o senador Bezerra Coelho do DEM para o PMDB, filiação que ocorreu na véspera do feriado da Pátria, convocando-se para hoje uma reunião da Executiva Nacional para decretar intervenção no diretório de Pernambuco.

A ideia é afastar Jarbas e Henry, impedir repetição da aliança com Miguel Arraes e Eduardo Campos, na pessoa de Paulo Câmara, o atual governador candidato à reeleição. E dar a candidatura para Fernando Bezerra Coelho.

O senador tem dito que a vaga é para ele, mas há informações, entre os políticos do partido que ele vai apenas segurá-la para Fernando Filho, que tem até março do ano que vem para decidir seu destino. O pai abre uma avenida para o filho percorrer de agora em diante.

Anteontem, Henry elevou o tom contra o agora adversário; ontem, foi a vez de Jarbas ir à tribuna para denunciar a truculência, com horário generoso liberado pelo também traído presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Uma atitude rigorosa, que o partido não teve diante das pilhas de dinheiro vivo de Geddel Vieira Lima, de quase uma dezena de denúncias contra o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, da meia dúzia de processos do próprio Jucá, das dezenas de inquéritos contra toda a cúpula do PMDB de todos os tempos.

O presidente do partido, Romero Jucá (RR), está entregando a Fernando Bezerra Coelho a legenda que pretende tirar de Jarbas Vasconcelos com requintes de crueldade e desconsideração. Por exemplo: alega-se, na cúpula, que Jarbas foi consultado sobre o desejo de filiação do senador Fernando Bezerra Coelho e, polido, teria respondido o que a boa educação manda: “É um quadro que chega para somar, tudo bem”. Assim acabou assinando o atestado de “concordância” que Jucá deve exibir a partir de agora para provar que fez a sondagem.

O palanque do PMDB em 2018, em Pernambuco, por esse acordo, vai para os Bezerra, e se Jucá conseguir afastar mesmo do partido Jarbas e Henry, o governador Paulo Câmara fica sem o cacife eleitoral da legenda para sua candidatura à reeleição.

Jarbas Vasconcelos não vai renunciar, não vai desistir, não vai entregar os pontos. Não tomará a iniciativa de sair do PMDB e, se for saído, lutará na Justiça. A comum e não a eleitoral.

No dia da nova filiação promovida por Jucá, Henry estava na Coreia e Jarbas no hospital, com sinusite. Ou seja, caminho livre para o passo sorrateiro do presidente do PMDB, que aproveitou a distração geral com os escândalos, por sinal boa parte protagonizados pelo PMDB, para ir à forra. Com isso, Jucá seguiu cavando seu interminável abismo.

Todas as atenções se voltam, hoje, para a reunião da Executiva e seu veredito. Jarbas não é inimigo de Michel Temer, ao contrário. Conviveram até agora cordialmente no partido. Votou pelo prosseguimento da investigação contra o presidente, porém, exatamente para que se apurasse a veracidade da denúncia, essa sua lógica.

No grupo palaciano, tem relações também com o ministro Moreira Franco. Mas todos, ao que se informa no PMDB, decidiram a revanche por consenso. Com Jucá, Jarbas nunca teve proximidade, o mínimo que se diz para definir essa relação é que têm DNAs diferentes.

O caso é exemplar por comprovar algumas teses que têm sido demonstradas na crise. Uma delas, o tratamento invertido que o PMDB dá aos seus problemas.

Anteontem, Raul Henry subiu o tom contra Fernando Bezerra Coelho; ontem, Jarbas Vasconcelos discursou no plenário da Câmara para denunciar a rasteira; hoje, reúne-se a Executiva Nacional para decidir. Os políticos ficha limpa esperam que aconteça algo de última hora que não seja a punição a um voto de consciência. Que não prevaleça no PMDB a opção preferencial pela ficha suja.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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