Governo

Agenda de Temer privilegia ‘fiadores’ de sua permanência no cargo, diz a Folha

Desde que assumiu a Presidência da República, em maio de 2016, Michel Temer priorizou parlamentares e empresários em audiências no Palácio do Planalto em detrimento de movimentos sociais e entidades de direitos humanos.

Segundo levantamento feito pela Folha com a agenda oficial, o peemedebista recebeu em 15 meses todos os partidos da base aliada –20 no início de seu mandato. Os mais frequentes foram PMDB e PSDB, principais legendas de sustentação do governo.

No período, promoveu encontros reservados com representantes de 39 empresas brasileiras e multinacionais, como Volkswagen, Shell, Gerdau, Santander, IBM, Telecom e Coca-Cola. Temer também abriu espaço para empresários de grupos de mídia como SBT, Record e RedeTV!.

Em um mandato marcado por crises políticas e medidas impopulares, o presidente decidiu dar ênfase àqueles que são considerados os principais fiadores da sua sobrevivência no cargo. Também se reuniu com frequência, no gabinete, com ruralistas e evangélicos, dois grupos que têm manifestado apoio público à administração e à agenda de reformas, como a trabalhista e a previdenciária.

Entre reuniões e almoços, ele esteve cinco vezes com a bancada ruralista, formada por 210 deputados, e recebeu em sete oportunidades entidades e líderes evangélicos, como o missionário R.R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus) e o bispo Robson Rodovalho (Sara Nossa Terra).

Entre os grupos contrários às reformas, destacam-se apenas os cinco encontros com representantes da Força Sindical, UGT (União Geral dos Trabalhadores), CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros) e NCST (Nova Central Sindical dos Trabalhadores).

Por outro lado, o presidente dedicou pouco espaço para representantes de minorias e movimentos populares, tradicionalmente próximos a partidos de esquerda. Não consta na agenda oficial, por exemplo, encontros com movimentos quilombola, de moradia ou indígena. Este último promoveu uma série de protestos em frente ao Planalto nos 15 meses de Temer no poder.

Temer se reuniu apenas uma vez com um grupo que defende a reforma agrária. Em junho do ano passado, recebeu a Frente Nacional de Luta Campo e Cidade, com o ex-líder do MST (Movimento dos Sem Terra) José Rainha, que não quis falar com a imprensa após o encontro.

SALVA MANDATO

A frequência de encontros reservados com parlamentares governistas se intensificou após vir à tona, em maio, a gravação de conversa fora da agenda entre o presidente e o empresário Joesley Batista.

A partir de então, os empresários perderam espaço na agenda presidencial, dominada por audiências com a base aliada, quando o peemedebista tentava sobreviver no cargo.

O conteúdo do áudio embasou denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que apresentou acusação de corrupção passiva contra o presidente –que acabou barrada.

O ápice dos encontros ocorreu na véspera da votação da denúncia na Câmara, quando o peemedebista recebeu em apenas um dia 35 deputados, a maior parte deles até então indecisos na votação da admissibilidade da peça do Ministério Público.

Da posse até a semana passada, em busca de apoio, Temer também esteve com prefeitos e governadores. Os mais recebidos foram Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ), Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e José Ivo Sartori (PMDB-RS).

Com o primeiro foram 15 reuniões em meio a uma crise de segurança que afeta o Estado. Os outros dois se encontraram com o presidente, respectivamente, 10 e 12 vezes.

Como seus antecessores, o peemedebista adotou o hábito de promover encontros secretos (que não constavam em sua agenda). Além de Joesley Batista, reuniu-se mais de uma vez de forma sigilosa com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, e com Janot.

O mesmo ocorreu com a substituta do procurador-geral, Raquel Dodge, que viu o presidente à noite, no início do mês, no Palácio do Jaburu.

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