Eleições 2018

Adversários já traçam estratégias para cenário com e sem Lula

Pré-candidatos fazem seus planos de olho no julgamento do petista

Com a pré-campanha eleitoral em pleno andamento, os potenciais candidatos à Presidência da República têm um compromisso em comum na agenda esta semana: acompanhar com atenção o julgamento, em segunda instância, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no caso do tríplex do Guarujá (SP). Nos bastidores, traçam estratégias para cenários com e sem a presença do petista — e avaliam como hipótese mais provável que Lula, líder nas pesquisas de intenção de voto, siga na disputa até o limite máximo, ainda que seja eventualmente condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). 

Se for absolvido, o petista terá caminho livre para tentar o terceiro mandato. No entanto, se os desembargadores confirmarem a condenação imposta pelo juiz Sergio Moro, o assunto vai parar na Justiça Eleitoral. A lei da Ficha Limpa estipula que condenados em órgãos colegiados (como o TRF-4) fiquem inelegíveis, mas abre brecha para que a candidatura de Lula se mantenha até que todos os recursos sejam analisados.

Adversário histórico do PT, o PSDB tem em Geraldo Alckmin o nome mais provável para disputar a Presidência. O governador de São Paulo trabalha com o panorama de que o petista será seu adversário, mas, a aliados, confidencia que uma eleição sem Lula do início ao fim seria o melhor dos mundos para o PSDB. O raciocínio é simples: sem o petista, as duas vagas do segundo turno estariam em aberto.

NA ÚLTIMA HORA

No entanto, como considera remota a possibilidade de Lula abrir mão de uma candidatura, mesmo que seja declarado inelegível, Alckmin tem defendido que o cenário mais favorável a ele seria Lula fazer campanha e ser tirado da eleição na última hora. O tucano tem dúvidas sobre a tese de que o petista transferiria automaticamente os votos para um substituto indicado pelo PT. Alckmin avalia também que a presença de Lula em boa parte da campanha serviria de trava para o crescimento de outros candidatos de esquerda, como o ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato do PDT. Essas duas situações juntas, na opinião do governador, ampliariam a chance de o PSDB chegar o segundo turno.

Parte importante do eleitor de Lula não tem acesso à informação tão rapidamente. Quanto menos tempo um substituto de Lula tiver para fazer campanha e dizer que é o escolhido do petista, menor será a transferência de votos — avaliou um interlocutor de Alckmin.

Os nomes cogitados atualmente para suceder a Lula nas urnas, caso a Justiça barre a candidatura, são os do ex-ministro Jacques Wagner e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

Nas pesquisas eleitorais, o melhor resultado de Alckmin até o momento é um terceiro lugar. A polarização com Lula está a cargo do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que mantém um discurso forte contra o petista — a quem chamou de “lixo” em um vídeo recente publicado no Facebook. O parlamentar desconversa e diz que “tanto faz” se Lula for ou não candidato:

Não vou fazer campanha mostrando defeitos dos outros — disse ao GLOBO.

O grupo mais próximo ao deputado não acredita que Lula desista da disputa e avalia que Bolsonaro se tornará o principal alvo dos outros candidatos, já que a presença do ex-presidente no segundo turno parece consolidada, segundo as pesquisas. No entanto, se o petista for substituído por um correligionário, o discurso permanecerá afiado contra quem ocupar o lugar.

O Bolsonaro já é anti-Lula desde quando estava no PP, que era a base do governo. A polarização vai continuar, porque o Lula será um cabo eleitoral forte (se não for candidato). Vai ser alguém representando o Lula, e a gente vai atacar de qualquer forma — diz um aliado.

DISPUTA PELA HERANÇA

No campo ideológico mais próximo ao PT, Ciro Gomes e a ex-ministra Marina Silva, pré-candidata da Rede, vão disputar o espólio de Lula se ele não se candidatar. O comando da pré-campanha do PDT avalia que Ciro, no entanto, poderá tirar uma fatia do eleitorado de centro-esquerda ainda que Lula participe do pleito, especialmente no Nordeste — Ciro tem base eleitoral no Ceará, onde ele e seu irmão já foram governadores. Sem Lula, o avanço nessa fatia do eleitorado poderá ser mais amplo.

O Nordeste, onde o Lula é mito, é onde o Ciro pode crescer muito sem o Lula — avalia o presidente do PDT, Carlos Lupi.

Na hipótese de o petista participar da disputa, o ex-ministro tem tentado se distanciar: já irritou aliados do ex-presidente quando disse à BBC que Lula “é o grande responsável por este momento político trágico que o Brasil está vivendo” e classificou a candidatura de Lula de “desserviço ao Brasil”. Ao GLOBO, em julho, Ciro citou a “impertinência” da candidatura de Lula.

Já Marina procura não rivalizar com o ex-presidente e diz que não mudará o programa de governo com o intuito de atrair o eleitorado do petista, se ele não concorrer:

A campanha não deve se guiar pela participação ou não de Lula. As propostas não serão construídas para agradar um perfil de eleitorado, mas para dialogar com o povo brasileiro.

Sem Lula, Marina terá a chance de disputar com Ciro e o candidato do PT a herança de votos do ex-presidente.

O diferencial entre Marina e Ciro é que ele tem uma pregação próxima da usada por Lula, à esquerda de Marina, que tem abordagem própria sobre os grandes problemas nacionais — avalia o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ), aliado da ex-ministra.

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