Crise

Mercado já vê cenário mais favorável sem Temer é a manchete do Globo

Diante do enfraquecimento crescente de Michel Temer à frente da Presidência, economistas e analistas do mercado financeiro já veem como mais favorável à travessia da delicada situação econômica do país a sua substituição pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O pragmatismo explica a troca: Temer, lutando para se manter no cargo, não conseguirá aprovar reforma econômica alguma, na avaliação do mercado. Já Maia, amparado por um acordo com outros partidos, teria mais chances de avançar alguma coisa, mesmo que as reformas saiam aquém do esperado.

Os mercados não estão preocupados com quem fica ou sai, mas sim com as condições políticas para se aprovarem as reformas. Se a reforma da Previdência não for aprovada neste mandato, provavelmente vamos ter uma perda de referência para a trajetória de estabilização da dívida, e a economia ficará mais vulnerável em momentos de choques — avalia Roberto Padovani, economistachefe do Banco Votorantim.

As mudanças na Previdência são consideradas essenciais para que o país consiga estabilizar a ascendente relação entre dívida e o Produto Interno Bruto (PIB), que já está em 72,5%, o nível mais elevado desde 2006, início da série histórica do Banco Central.

O que interessa saber é quais são as condições de governabilidade de Temer. Enquanto houver essa dúvida, a leitura é que as reformas não avançam — conclui Padovani, que mantém as projeções de alta do PIB em 0,5% para este ano e de 2,4% para 2018.

CAPACIDADE DE ARTICULAÇÃO MAIOR’

Mauricio Molon, economista-chefe do Santander, admite que uma eventual troca de presidente neste momento, dependendo da forma como for feita, pode até ser positiva, caso o substituto seja capaz de promover reformas. Isso porque o mercado financeiro já trabalha com cenários políticos que permitirão realizar as reformas, mesmo que com atrasos.

Sobre o risco de uma troca na Presidência agravar mais a crise política, com reflexos ainda piores sobre a atividade econômica, Molon diz que o cenário considerado contempla “um ambiente político sem otimismo para reformas a curto prazo”, mas que esse quadro seria bem diferente se as mudanças levarem a um dirigente com “capacidade de articulação maior”:

Esse tipo de coisa depende de como é feito, qual vai ser o apoio, qual será a diretriz, a forma como vai ser feito. Se, de repente, você tem uma mudança com um apoio ainda maior, com uma convicção de capacidade de articulação ainda maior, pode ser positivo para a recuperação da economia, sim.

A recuperação da economia, continua Molon, depende essencialmente da retomada da confiança.

A gente sabe que uma situação política mais incerta pode afetar a decisão de investimento e de consumo. Tem que ver se os indicadores (de confiança) vão aprofundar essa queda, ou se vai ficar no que já foi observado. Mas isso não está claro ainda — completa.

Na avaliação do cientista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências, a próxima semana será importante para a definição do impasse político sobre a permanência ou não de Temer no cargo. Se o governo perder o apoio e for derrotado em votações como a da reforma trabalhista e a da denúncia contra o presidente, então a opção Maia ganha força.

A semana que vem será crucial. No entanto, a credibilidade de Maia ainda desperta dúvidas, assim como suas condições de governabilidade —ressalva Cortez, observando que as razões para tais dúvidas são parecidas com as que enfraquecem Temer. — Ele já foi citado em delações da Lava-Jato, no caso Odebrecht. Na minha avaliação, o andamento das reformas segue em risco, mesmo com Maia. O espaço atual para que elas andem é cada vez menor. E, se a reforma trabalhista sair, ela será aguada.

Na prática, diz o analista da Tendências, não existe solução única para a governabilidade, e o mercado não está mais comprando a tese que comprou durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff, de que a mudança de comando seria a solução.

A alternativa Maia é delicada, e há muita coisa em jogo — conclui.

Para o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, as reformas econômicas já estão comprometidas tanto com Temer quanto com Maia, numa eventual transição de governo.

Gostaria de ver uma reforma da Previdência que fosse mais significativa, incluindo os servidores públicos. Mas não acredito nisso — diz Perfeito. — Acredito que esta proximidade (maior de Maia com o Congresso) traz mais dificuldades para a austeridade financeira que o governo precisa. Mas acredito que, mantido o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, haveria espaço para um aumento de imposto (especificamente a Cide) para cumprir a meta fiscal de um déficit de R$ 139 bilhões este ano, já que a inflação caiu bastante.

INCERTEZA PODE PIORAR PROJEÇÕES

Sem entrar no mérito da saída de Temer e de um eventual substituto, Denys Marc Ferrez, diretor Financeiro do grupo de logística JSL, conta que, desde a nova etapa da crise política, com a deleção dos executivos da JBS em meados de maio, a economia não piorou, mas a confiança diminuiu:

Não estou vendo a economia piorar. Mas a economia está perdendo o ânimo. Não é a mesma confiança de antes desses eventos.

Luis Gustavo Pereira, estrategistachefe da Guide Investimentos, avisa que o mercado não espera qualquer mudança neste mês. Para ele, contudo, dado o quadro atual, o melhor para a economia, e para o processo de retomada dos investimentos, seria a saída de Temer.

Temer tentando sobreviver é pior. Essa incerteza vai fazer a economia piorar, e isso pode impactar as projeções de crescimento — destaca.

O agravamento da crise política e a perda progressiva de apoio de Temer, com a piora dos indicadores de confiança de consumidores e empresários, fez o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, revisar suas projeções de crescimento para este ano e para 2018. Em 2017, sua estimativa do PIB caiu de 0,7% para 0,4%.

E para 2018, saímos de 2,1% para 1,7%. O risco é de perda de governabilidade, com o atual governo ficando sem margem de manobra para implementar as reformas. A contraposição a este quadro negativo é a inflação e os juros em queda, além de um bom desempenho do setor externo — explica Rosa.

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