Crise

Editorial do Estadão faz dura crítica à Lava Jato

Quando o remédio mata o doente

Foi extremamente benfazejo o surgimento da Operação Lava Jato, desencadeando uma sequência de investigações que puseram a descoberto

graves crimes praticados por políticos, empresários e funcionários públicos. Como logo foi reconhecido pela população, que lhe dá forte apoio, ela foi como lufada de ar fresco num ambiente profundamente poluído, abrindo uma larga estrada para acabar com a impunidade dos poderosos. Seus grandes e inegáveis méritos não devem, porém, comprometer o juízo crítico a que tudo tem de ser submetido permanentemente.

Aos frutos positivos que ela já deu e aos muitos que ainda pode dar, vieram se misturar modos de agir de agentes da lei que causam

inquietação e se transformaram no maior perigo que a ameaça. É imperioso tirar de baixo do tapete toda a sujeira ali acumulada e que tanto mal faz ao País. Corrupção escondida é sinônimo de corrupção impune, e isso os brasileiros não aceitam mais. Mas é preciso atentar também para outro aspecto importante.

Há três anos, o País é abalado por anúncios semanais, quando não diários, de casos de corrupção, denúncias, delações, subornos e tudo o mais que povoa esse mundo tenebroso. E há quem se esforce em disseminar a ideia de que o principal das investigações está por vir, que ainda se ignora parte substancial da corrupção.

Não há país que resista a tal sequência que parece interminável, recheada por vazamentos ilegais e espetáculos policialescos, que servem muitas vezes somente para abalar a confiança nas instituições e nos homens que as dirigem. E que não podem ser todos, sem exceção, igualados. Pratica-se, assim, um verdadeiro terrorismo psicológico, que prejudica o ambiente de trabalho e afasta investimentos. Quem deseja investir ou trabalhar num país em que todas as instituições são dadas como podres? Quem quer produzir num país onde a promessa é que o escândalo da próxima semana será mais espantoso que o de hoje?

Alertar para a existência desse lado da Lava Jato, resultado do modo de conduzir as investigações, não significa pleitear o seu término, como se ela tivesse um prazo de validade. As investigações devem continuar, sim, mas sem fechar os olhos a essa realidade. Se é verdade que o Brasil só encontrará a tão necessária normalidade de sua vida institucional, política, econômica e social, se levar até o fim a limpeza iniciada – se os corruptos forem investigados e devidamente punidos –, é também verdade que essas investigações não podem destruir o País nem levar os seus meios produtivos a uma letargia suicida.

O problema não é que se esteja investigando demais, e sim que as investigações – que muitas vezes se resumem a transcrever o conteúdo de delações – são utilizadas para gerar escândalo. Vazamentos e delações feitas a conta-gotas solapam o ânimo da nação. Predispõem cada brasileiro a esperar o pior de seu país e a aguardar passivamente que seja anunciado o último dos corruptos. É preciso evitar a armadilha dos falsos dilemas. Não é verdade que a Lava Jato já deu o que tinha de dar. Tudo indica que ainda há sujeira embaixo do tapete. Mas não é igualmente verdade que ela só pode caminhar como vem fazendo, que esse é o preço a pagar para que tenha êxito.

A Lava Jato vive uma fase crítica. Para continuar dando bons frutos, deve abandonar sua pretensão de ter o monopólio da verdade e da virtude, reconhecer os erros cometidos – dos quais ninguém está livre – e, com humildade, prosseguir seu trabalho. Para isso, seria importante, por exemplo, reunir todas as denúncias e provas que tiver e divulgá-las de uma só vez, sem vazamentos. Os investigadores e promotores terão menos notoriedade, mas a nação poderá respirar mais aliviada e satisfeita, livre que estará dos sobressaltos de cada semana.

Já se disse que a desmedida pode transformar uma coisa em seu contrário. Que o vício é uma virtude enlouquecida. A História está cheia de exemplos disso. É essa tentação fatal que ronda os condutores da Lava Jato.

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