Congresso

A pauta se apequena é o título de editorial da Folha

A vitória expressiva —dadas as circunstâncias— de Michel Temer (PMDB) na votação da Câmara dos Deputados que garantiu sua permanência no Palácio do Planalto não se deu, como já se nota, sem custos para o que há de virtuoso na agenda do governo.

Assim que foi rejeitado, pela maioria de 263 dos 513 deputados, o prosseguimento da acusação de corrupção apresentada contra o presidente, o núcleo governista propagou que seriam buscados, em seguida, os 308 votos necessários para aprovar a emenda constitucional da reforma da Previdência.

Pela argumentação desenvolvida, o placar obtido contra a denúncia da Procuradoria-Geral da República não equivalia às novas dimensões da base de apoio a Temer; esta voltaria a se expandir quando estivessem em pauta temas caros aos parlamentares e partidos de maior orientação programática.

O personagem principal de tais previsões é, decerto, o PSDB —que se dividiu entre ficar ou não no governo, mas não abandonou a retórica em favor das reformas.

Faça sentido ou não, a tese caiu a segundo plano —e não apenas porque os tucanos ainda se mostram mais dedicados às querelas internas do que ao debate nacional.

Eis que o famigerado centrão, como é conhecido o bloco de partidos sem nitidez ideológica capaz de se alinhar a qualquer governo, rebela-se em nome de princípios que regem as coalizões do presidencialismo nacional.

As siglas que se mantiveram majoritariamente fiéis ao presidente —PP, PR, PSD e outros— julgam-se no direito de obter ministérios e cargos hoje ocupados pelo PSDB e por outros recalcitrantes.

Amesquinha-se, inevitavelmente, a pauta legislativa. Recrudescem as ameaças de boicotes a votações e os lobbies por vantagens setoriais à custa do erário.

Se nada disso chega a surpreender, tampouco a atual debilidade do Palácio do Planalto deve ser dada como definitiva.

A permanência de Temer até o final do mandato tornou-se o cenário mais plausível, salvo na hipótese de que uma segunda denúncia devastadora venha a ser formulada pelo procurador-geral, Rodrigo Janot; este, de todo modo, deixa o posto no próximo mês.

A economia passa por melhora vegetativa, que tende a prosseguir na ausência de guinadas nas políticas da Fazenda. Depois de anos calamitosos, um desempenho mediano em 2018 pode favorecer o governo, que disporá ainda de considerável máquina partidária.

Tais cálculos preservam, sem dúvida, alguma coesão das forças em torno do presidente. Mais difícil é imaginar o que tal consórcio será capaz de propor ao eleitorado, principalmente se deixar pelo caminho a agenda reformista.

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