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Presidente do PSDB, Tasso Jereissati critica decisão de apoiar o governo na Folha e no Globo

O presidente do PSDB, Tasso Jeireissati (CE), defendeu o desembarque do partido do governo Michel Temer na última reunião da Executiva, ocorrida na segunda (12).

Nesta quinta-feira (15), Tasso Jeireissati explica em entrevista à Folha e ao Globo sua posição em relação ao governo.

Entrevista de Tasso Jeireissati a Folha de S.Paulo

Folha Como o PSDB vai se posicionar em relação à denúncia que deve ser oferecida contra Temer?
Tasso Jereissati A crise não vai se aprofundar apenas por causa da decisão eventual da PGR. Estamos vivendo um sistema político que apodreceu e morreu. A corrupção que era de batedor de carteira virou de quadrilhas internacionais.

A Câmara precisaria autorizar um processo contra Temer. Qual será a posição do PSDB?
Não há decisão, mas com certeza os deputados vão agir como juízes e votar de acordo com sua consciência, não de acordo com orientação.

Se o sistema político está podre, por que o PSDB continua num governo desse sistema?
Ninguém falou em romper com o governo Temer, em entrar na linha do PT. Estamos dentro desse sistema que apodreceu e a saída só se dará por meio de reformas. Estar dentro do governo significaria continuarmos dentro de um sistema que temos que mudar. Não temos condições éticas e morais para tentar mudar isso estando no governo.

O sr. quer dizer que a decisão do partido –de permanecer no governo– não é adequada?
Ficar no governo em si é detalhe. O que é importante é que precisamos fazer uma autocrítica profunda, reconhecer que a população não aguenta mais o que está aqui.

O sr. continuará defendendo que o PSDB saia do governo?
Sim, mas isso não é pedir “Fora, Temer”, não é pedir o impeachment. Eu acho difícil que o presidente saia.

Temer tem condições éticas de continuar governando?
Não tenho condições de dizer se ele é culpado ou não, mas tenho condições de dizer que, praticamente com todo o seu gabinete preso, processado ou pego em flagrante, e as próprias gravações com ele, ele precisa muito rapidamente comprovar sua inocência para ter autoridade suficiente para levar esse momento difícil.

O presidente se recusou a responder a perguntas da PF…
Não vou julgar cada ato do presidente. É preciso reconquistar credibilidade. Quanto mais rodeios e omissões, mais essa falta de credibilidade vai se aprofundar.

Em que momento o PSDB vai precisar reavaliar seu apoio?
A reavaliação já está sendo feita. Estamos atrasados.

O sr. diz que o PSDB não quer “Fora, Temer”, mas quer recorrer da decisão do TSE que o livrou da cassação.
Demos início a esse processo, passamos anos no microfone dizendo que a eleição foi financiada por corrupção com dinheiro público. Então, vamos recorrer, sim.

Mas esse recurso pode ter um efeito prático, que é a cassação do presidente.
Se a Justiça chegar à conclusão de que houve [abuso], que se cumpra a lei.

A preocupação eleitoral influenciou a decisão do PSDB de ficar no governo e preservar uma aliança com o PMDB?
Quem tiver alguma atitude pensando na eleição de 2018… Não é um sonho, é um delírio.

Seu nome surgiu em articulações para suceder Temer em caso de eleição indireta. O sr. pretende se candidatar?
Eu seria irresponsável se colocasse isso em pauta.

A delação da JBS atingiu em especial o PSDB dado o envolvimento do senador Aécio Neves. Ele deve deixar o partido?
Ele tem direito de defesa. Ele se afastou, está vivendo momentos muito difíceis, principalmente com a prisão da irmã dele, que, a meu ver foi uma brutalidade –como eu acho que uma série de abusos também foram feitos.

A Lava Jato comete abusos?
A Lava Jato está fazendo um trabalho excepcional, colocando a nu toda essa podridão do sistema político. O problema é que no meio disso, não só na Lava Jato, existem abusos.

É preciso impor limites?
Há excesso de interferência do Ministério Público e do Judiciário no Legislativo e no Executivo. Mais do que isso, essas prisões… Sou a favor da delação premiada. Sem ela, não teríamos descoberto uma porção de coisas, mas a questão da JBS, preparar delação em troca de esquecer pecados de 30 anos, é um acinte.

Muitos tucanos dizem que Aécio foi vítima de uma armadilha. O sr. concorda?
Uma pegadinha, com certeza. Foi montado. Agora, isso não o inocenta totalmente, porque foi montada uma armadilha e ele caiu. Tem que averiguar quais as razões que teve para ele cair –e é disso que ele está se defendendo.

 

Entrevista de Tasso Jeireissati ao Globo

‘Ninguém votou dizendo: vamos ficar até o fim’

A decisão do partido de permanecer no governo sofreu fortes críticas. Como se reconectar com a sociedade?

Foi uma grande catarse. Fui voto vencido. A decisão foi, de um lado, essa decisão que se esperou. Ninguém votou dizendo: vamos ficar no governo até o fim. Vamos aguardar se aparece algum fato novo, que confirme a inviabilidade desse governo. Em nenhum momento nós estamos pedindo o impeachment de Temer ou eleições “Diretas Já”. O que pregamos é que nós ficássemos afinados com as nossas propostas e ideias, mas desligados do governo, porque o governo agora nesse final vai representar justamente esse sistema político que faliu, de toma lá da cá.

E a reforma trabalhista?

A trabalhista vai passar. Não vai depender mais de estar no governo ou não. O PSDB votou unânime pela trabalhista aqui. Aliás, é surrealismo dizer que a nossa saída colocaria algum risco para a trabalhista. Na verdade quem está colocando em risco a trabalhista é o PMDB, o partido do presidente. Colocar a nossa eventual saída do governo nesses termos é uma grande mentira.

Muitos tucanos vinham se antecipando em dizer que haveria rompimento, antes da reunião da Executiva. O que aconteceu?

Não sei dizer o que aconteceu. Porque realmente houve uma mudança muito grande de discurso de alguns, entre a quintafeira e a segunda. E eu não sei, porque eu, também, em determinado momento, percebi que havia uma mudança, sem entender por quê.

Aquele recado do Jucá, na quinta-feira, pode ter influenciado?

Sim, pode ser. Mas quem estiver pensando em aliança para 2018 está vivendo um delírio. Quem está pensando, no dia de hoje, em que as coisas se modificam a cada semana em uma aliança que está montada hoje está delirando, não é sonhando. Até porque, no quadro de descrença que tem a classe política hoje de uma maneira geral é impossível prever, é até arrogância achar que nós temos uma candidatura preferencial, que teria apoio deste ou daquele. Temos que pensar no Brasil hoje, para estarmos vivos no ano que vem. Acho que chegarmos lá vivos será uma grande vitória.

O PSDB se preocupa em ser visto como “farinha do mesmo saco”?

Realmente essa visão de que a política é um jogo de trocatroca e a opinião pública e o destino do país não é relevante nessa questão é o que morreu e está desacreditando a nós, políticos. Essa maneira de fazer política acabou. Só quem não está percebendo isso é quem está morto-vivo.

Houve especulações de que uma ameaça do PMDB de caçar Aécio Neves no Conselho de Ética foi decisiva para o PSDB decidir ficar no governo.

Eu, sinceramente, nunca ouvi isso. Nunca chegou ninguém para falar ou insinuar sequer qualquer coisa parecida. Então eu não acredito que tenha existido isso porque seria uma atitude política muito rasteira demais, mesmo para os padrões de hoje.

Como o senhor vê a possibilidade de Aécio ser cassado e até preso?

Olha, eu vou dizer uma coisa: eu considero a prisão da irmã dele uma violência. Eu não vi pessoas muito mais envolvidas, com muito mais evidências do que ela sendo presas. Acho uma violência, sem julgamento, de forma preventiva, ela não representa (ameaça). E é bom dizer com toda a clareza que existem abusos, sim, do Ministério Público, do Judiciário e mesmo a questão do afastamento do Aécio, que não existe essa figura na Constituição. Tenho muita confiança que o Supremo veja com muita serenidade, sem nenhuma parcialidade o que está acontecendo.

Como segurar aquele capital eleitoral de 52 milhões de votos conquistados em 2014 para 2018?

Fazendo uma autocrítica, olhando profundamente onde nós erramos, nos acomodando nesse presidencialismo de cooptação e discutindo e apontando mudanças que devem ser feitas na política brasileira.

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