Congresso

‘Crise se aprofundará se dermos força a um governo que acabou’ é o título de entrevista com Daniel Coelho no Globo

A situação é muito grave. O presidente tem perdido governabilidade, e já havia dificuldades. As questões éticas e a falta de apoio político ao governo com certeza comprometem a possibilidade de reformas mais profundas, e é por isso que boa parte da bancada do PSDB hoje defende que o partido atue de forma independente, entregando os cargos no governo, mas sem deixar de votar as matérias de interesse do país e sem querer buscar o quanto pior melhor.

Por que a direção do PSDB não tem sido sensível a esse sentimento de se afastar do governo?

A direção está ouvindo a todos. A gente teve uma situação de dificuldade evidente pela saída de Aécio (Neves) da presidência do partido, mas (Ricardo) Tripoli (líder da bancada na Câmara) está fazendo um excelente trabalho. Ao longo dessa semana, ele escutou, em pequenos grupos, todos os deputados, e tenho certeza que o partido vai deliberar pela vontade da maioria. Na primeira reunião, esse nosso grupo não era majoritário, mas já era grande e temos recebido adesões e até com possível posição tomada pelo diretório de São Paulo. Acredito que, na próxima semana, ela se torne majoritária.

O senhor diria que esse grupo na bancada, que é a favor da saída, está restrito aos tucanos mais jovens?

Não está restrito aos jovens coisa alguma. Temos deputados de muitos mandatos, e acho que é uma simplificação essa coisa de jovem ou de cabeça preta. Temos pessoas muito experientes com essa posição. Ela é majoritária nos jovens, mas presente em diversos grupos do partido. Na minha opinião, a crise se aprofunda se nós continuarmos a render e dar força a um governo que acabou, que dificilmente conseguirá votar pautas importantes como a reforma da Previdência e já tem dificuldade em concluir a reforma trabalhista. A tendência é que novos escândalos continuem a aparecer, porque o formato e o modelo que o governo está montado tendem a trazer novas instabilidades e novos escândalos. Quanto mais rápido a gente conseguir virar a página e eleger um novo presidente, mais rápido a gente pode estabelecer estabilidade política e manter a pauta econômica. Por isso, esse grupo do PSDB defende que continue a votar matérias importantes para o país, mas a mudança de presidente e a abertura de novo ciclo, com um novo formato de governo, serão bons para a economia e para o país.

Caso o partido não deixe a base do governo, há possibilidade de esse grupo do PSDB tomar essa posição de forma independente?

Nesse momento não estamos contando com essa possibilidade. O que nós estamos construindo é trazer o partido para a posição que achamos correta. E as atitudes de Tripoli e Tasso (Jereissati, senador e presidente interino do PSDB) são de ouvir a bancada e deliberar por maioria.

No caso da saída do presidente, o senhor é a favor de eleições indiretas ou é a favor de uma mudança na Constituição para ser realizada uma eleição direta?

Ninguém cogita, no PSDB, mudança na Constituição. Eu, em tese, até acho que eleições gerais para deputado e senador poderiam ser uma boa saída. Mas mudar a Constituição evidentemente é um casuísmo, e o caminho natural é respeitar a Constituição e fazer a sucessão como está estabelecido em lei.

A decisão do PSDB de ficar ou sair do governo está vinculada à decisão do TSE ou ao adiamento do julgamento?

Não necessariamente, mas tem grande influência. Tem gente que acha que o parecer (do TSE) tem mais influência, mas outros têm opinião mais radical e acham que o afastamento é independente.

O senhor acha que o PSDB está demorando para definir sua saída, considerando que as denúncias contra o presidente são tão graves?

Na minha opinião, o PSDB deveria ter saído (do governo) há bastante tempo. Mas a gente tem que entender também a complexidade de um partido com o tamanho do PSDB e que teve o presidente afastado da maneira como foi.

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