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Depois de reunião com Temer, cúpula do PSDB decide tirar sucessão da pauta, diz o Valor

Em reunião ocorrida nos bastidores do Fórum de Investimentos Brasil 2017, em São Paulo, o presidente Michel Temer e a cúpula do PSDB assumiram o compromisso de votar primeiro a reforma da Previdência e só depois tratar de sucessão presidencial.

Segundo apurou o Valor, Temer disse aos tucanos que o PSDB é sócio do governo e que é uma ilusão o partido pensar que não enfrentará os mesmos problemas, se vier a substitui-lo. Inclusive no que diz respeito às investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal, como mostra a situação do senador Aécio Neves (MG), que em pouco mais de dois anos passou da condição de forte candidato a presidente a de investigado.

O acordo ocorre num momento em que o Palácio do Planalto olhava com desconfiança os tucanos, e estes exibiam divisão em relação ao apoio a Temer. Boa parte deles, sobretudo os deputados, defende o rompimento imediato do partido com o governo. Cabe agora aos caciques do PSDB contornar a situação dos rebelados.

Ao lado de Temer, pelo governo, estava o ministro Moreira Franco (Secretaria Geral). Pelo PSDB participaram da conversa o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente do partido, senador Tasso Jereissati. A conversa tratou de todas as dificuldades enfrentadas pelo governo, mas foi cordial.

Houve consenso de que a aprovação das reformas deve ser o principal objetivo da aliança que fez o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e atualmente apoia o governo do presidente Michel Temer. Só depois os dois partidos devem tratar de sucessão. O presidente fez questão de reiterar que não vai renunciar ao mandato e que recorrerá a todos os instrumentos legais para permanecer no cargo, o que pode demandar mais de um ano. Ou seja, quando fala em sucessão, pelo menos o PMDB está se referindo a 2018.

Temer registrou um movimento dentro do PSDB para derrubá-lo. Na realidade, os tucanos estão literalmente rachados em relação ao governo Temer e à solução a ser dada, na hipótese de o presidente ser afastado. O senador Jereissati, que era um dos favoritos, complicou-se ao fazer uma reunião com os deputados federais, que defendem a saída do governo, mas também passou a ser visto como um potencial adversário pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, declaradamente pré-candidato a 2018.

O raciocínio é o seguinte: se Tasso assumir, em eventual afastamento de Temer, e seu governo for um sucesso, será um forte candidato à reeleição. Mas também liquidaria de vez as pretensões do PSDB, se a crise econômica se agravar. Ambas as hipóteses são ruins para Alckmin. O governador, segundo aliados, chegou a pensar em disputar no colégio eleitoral, se Temer sair. O governador inclusive já teria em mãos um parecer jurídico segundo o qual não precisaria deixar o governo (desincompatibilização) para concorrer em uma eleição indireta.

Entre os “cabeças brancas” tucanos, como são chamados os mais influentes caciques do PSDB, Alckmin é o que demonstra maior entusiasmo pelo desembarque imediato. Fernando Henrique Cardoso nome que será considerado, se Temer sair -, Tasso, José Serra e o ministro Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores) estão firmes no apoio ao governo Temer e às reformas, a menos que ocorra algum “fato novo” como tem sido comum desde o tempo em que o governo ainda era do PT.

O senador Aécio Neves, que teve de deixar a presidência do PSDB depois da denúncia de que pediu R$ 2 milhões para um dos sócios da J&F, alegadamente pela venda de um apartamento, também defende a permanência do PSDB no governo. Mas seus aliados em Minas Gerais, entre os quais o deputado Marcus Pestana e o senador Antonio Anastasia, dois de seus mais próximos aliados, fizeram recentemente uma reunião e concluíram que está difícil segurar o apoio das bases do partido ao governo. Os “cabeças pretas”, termo que designa os deputados em geral, são os que mais pressionam.

Estrela ascendente no PSDB, o prefeito João Doria ainda não tem grande ascendência sobre as bancadas, mas preferiria a manutenção do quadro atual, pois assim pode manter o figurino do anti-Lula até as eleições de 2018.

A reunião, realizada na noite da última segunda-feira, véspera do Forum de Investidores Brasil 2017, teve de imediato o efeito de unificar o discurso do PSDB em defesa do governo Temer. O presidente ainda corre riscos, mas “parou de piorar”, nas palavras de um aliado. O dia de ontem foi cheio de boas notícias para Temer: o STF desmembrou o inquérito pedido pela procuradoria para apurar ações do presidente e decidiu que Temer será ouvido por escrito.

Na política, o Fórum de Investimentos Brasil 2017 foi considerado um grande sucesso e o presidente foi aplaudido. No PMDB, o ex-senador José Sarney entrou em cena para tentar pacificar o Senado. Mas os aliados, de um modo geral, ainda consideram que a situação de Temer é grave, ele se mantém por falta de uma opção de consenso e que unifique uma base de partidos aliados a cada dia mais indóceis.

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