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Temer se equilibra no Judiciário e no Congresso para se manter no cargo, diz o Valor

Em etapa decisiva para sua permanência na Presidência da República, o presidente Michel Temer reuniu-se ontem à noite com a cúpula do PSDB e DEM, os fiadores principais da governabilidade nos próximos dias. Também convocou uma reunião ministerial, com a presença da equipe econômica, para traçar a estratégia da próxima semana, e recebeu dezenas de deputados em jantar no Palácio da Alvorada.

Durante o encontro, o presidente se dedicou a dar explicações contra as acusações que lhe foram dirigidas a partir da delação premiada da cúpula da JBS, segundo relatos de alguns participantes. O Palácio do Planalto tentou dar um tom informal ao encontro, embora o ministro da secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, tenha disparado convites a ministros, deputados e senadores.A palavra de ordem de Temer aos aliados é cautela, porque o naufrágio será coletivo, já que ministros e líderes da base aliada são igualmente investigados na Lava-Jato. As próximas votações e o julgamento de quarta-feira no Supremo Tribunal Federal serão termômetros da capacidade de reação nos próximos dias.

Encurralado pela colaboração premiada dos executivos que tem como “bala de prata” o áudio da conversa gravada por Joesley Batista com Temer em sua residência, o presidente apoia-se em dois movimentos, político e jurídico, para sustentar-se no cargo. Todos os esforços antes voltados para a aprovação das reformas agora convertem-se no esforço de sobrevivência política.

Auxiliares do presidente asseguram que ele está com “energia, vigor e disposição” para prosseguir com o enfrentamento político. O deputado federal Heráclito Fortes (PSB-PI), que conhece Temer há duas décadas, disse que o aliado “está forte como um touro”. Embora a Executiva do PSB tenha pedido a renúncia do pemedebista, Heráclito integra uma ala da legenda junto com o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, que não deixará o governo.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse ao Valor que o ministro e seu pai, o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), afirmaram a Temer no sábado que ficam no governo, apesar da orientação contrária do partido. Inclusive, Fernando Coelho participou da reunião ministerial deste domingo.

É fundamental para o Planalto evitar o desembarque do PSDB. O movimento mais veemente de desembarque vem da ala paulista, do governador Geraldo Alckmin, embora o prefeito João Doria defenda a permanência na base.

Por telefone, Temer conversou várias vezes no fim de semana com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No início da crise quando foi divulgado o áudio da conversa de Temer com Joesley, o tucano foi a público pedir a renúncia do pemedebista. Depois, em conversas internas, admitiu precipitação.

Agora, a orientação de não fazer nada com afogadilho e muito diálogo pautam a relação dos tucanos com Temer. Ontem o novo presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), e o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), também jantaram com Temer, ministros e deputados.

“Deixar o governo agora, além de uma leviandade, seria uma precipitação e um desserviço ao país”, critica um deputado do PMDB, que passou pelo Alvorada.

Além de manter o PSDB por perto, Temer quer convencer deputados e senadores a avançarem com as votações das reformas. Há dois argumentos principais: o primeiro é de que a maioria dos governistas tem “telhado de vidro”. Se Temer, no comando do Executivo federal, pode ser abatido, estão todos vulneráveis.

Vários ministros, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira, o líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), o líder do governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e dezenas de deputados da base governista são alvos de inquérito na Lava-Jato. “Agora não podem posar de vestais”, aponta um pemedebista, sobre aliados que acenaram com o desembarque.

O governo também aposta no temor da instabilidade política e econômica: “ruim com Temer, pior sem ele”, afirma um aliado. “O governo Temer tem um foco, uma agenda de reformas de que o país precisava há muitos anos, abandoná-las agora é um atraso”, diz um auxiliar.

Ontem Temer comandou uma reunião ampla, com a equipe econômica e ministros de vários partidos, para definir a linha de ação dos próximos dias para garantir as votações e impedir a fuga de aliados. Além da equipe econômica Henrique Meirelles (Fazenda) e Dyogo Oliveira (Planejamento), participaram do encontro os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil, PMDB), Moreira Franco (Secretaria Geral, PMDB), Hélder Barbalho (Integração Regional, PMDB), e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo, PSDB).

O presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), os ministros Raul Jungmann (Defesa, PPS), Osmar Serraglio (Justiça, PMDB) e Osmar Terra (Desenvolvimento Social, PMDB) também estiveram no Alvorada. Deputados do PP, PSD, PPS, PR, PRB, PSDB e até do PTN que rompeu com o governo, depois recuou, chegaram aos poucos.

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