Congresso

O Congresso subjugado é o título de reportagem na revista Veja

A Odebrecht tinha a bancada mais poderosa do Parlamento: o presidente do Senado, o presidente da Câmara, 24 senadores e 39 deputados todos no bolso

“EM GERAL, você não tem uma relação sustentável naquele toma lá dá cá. Se você chegasse para o deputado: ‘Pô, me apoia aqui’. Toda hora que você pede um apoio, o cara diz: ‘Eu quero tanto’. Não é uma relação sustentável. Em geral, aquelas relações mais duradouras são as que ficam: o cara sempre te ajuda e você está sempre ajudando ele.”

Foi assim, nas palavras de Marcelo Odebrecht, que, por décadas, a empreiteira foi consolidando influência e poder dentro do Congresso, em nível só comparável ao de grandes partidos. O método era simples e eficiente — o da cooptação financeira. Parlamentares precisavam de dinheiro para suas campanhas e, em muitos casos, também para outras despesas. A Odebrecht financiava os gastos, quase sempre por vias ilegais. Por quê? É a regra elementar das organizações mafiosas: ao entregar dinheiro sujo aos deputados e senadores, a empresa conquistava mais que parceiros. Ganhava cúmplices.

A lista de parlamentares acusados de embolsar dinheiro da construtora é extensa — ao todo, 24 senadores, um terço do total, e 39 deputados federais, de diferentes partidos. Nessa relação, estão o atual e praticamente todos os ex-presidentes da Câmara nas últimas duas décadas, além do atual e de mais três ex-presidentes do Senado. “Se você não tem acesso ao rei, você não consegue aprovar”, disse Marcelo Odebrecht em sua delação, ao explicar como emplacara projetos de interesse da empresa. O acesso da empreiteira aos monarcas do Congresso era irrestrito, o que gerava bons negócios, lucros imensos e proteção. Apesar dos escândalos recorrentes envolvendo a empreiteira desde a década de 90 — de superfaturamento de obras, de fraude em licitações, de denúncias de pagamento de subornos —, a Odebre-cht nunca foi alvo de uma investigação séria. Entende-se agora o porquê.

De acordo com os depoimentos, os grandes beneficiados pelo departamento de propinas da construtora sempre ocuparam postos-chave no Parlamento. O PMDB, o maior partido do país há trinta anos, tinha praticamente todos os seus principais dirigentes na folha da Odebrecht. O senador Romero Jucá é um caso exemplar. Foi líder ou expoente no Congresso de todos os governos, a partir de Fernando Henrique Cardoso. No ano passado, foi nomeado ministro do Planejamento de Temer. Deixou o cargo depois de ser pilhado em conversas em que tramava “estancar a sangria” da Lava-Jato. De volta ao Senado, ele assumiu a liderança do governo. Jucá era um cliente preferencial do departamento de propinas da Odebrecht. “Ele tinha atenção pela empresa e resolvia os assuntos”, relatou Cláudio Melo Filho, ex-diretor da construtora. Para “resolver os assuntos”, Jucá sempre dizia que “gostaria de contar com uma simpatia melhor da empresa”. Era a senha para pedir mais propina. Os recursos direcionados ao senador, que não operava sozinho, eram, segundo os delatores, divididos com outros cardeais do partido que rezavam pela cartilha da Odebrecht. Entre eles estão o ex-presidente do Senado Renan Calheiros e o seu sucessor, Eunício Oliveira, ou simplesmente “índio”, apelido registrado nas planilhas da empreiteira. Com o trio em sua folha de pagamento, a Odebrecht conseguia garantir que boa parte de seus interesses fosse contemplada em medidas provisórias que renderam bilhões à empresa e milhões aos parlamentares. Na política da Odebrecht, não havia distinção ideológica entre os políticos escolhidos. Bastava que eles compreendessem uma linguagem universal. Além dos peemedebistas que comandavam o Senado, na lista dos beneficiários da propina estão tucanos, como os senadores Aécio Neves e José Serra, e petistas, como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias. Também aparecem figuras do submundo parlamentar, como o senador do Piauí Ciro Nogueira, presidente do PP, e o notório ex-presidente Fernando Collor de Mello.

Na Câmara, a máquina de corromper da Odebrecht funcionava da mesma forma — numa amplitude também impressionante. Nos últimos vinte anos, oito dos onze presidentes da Casa aparecem na lista dos políticos cooptados pela construtora. Entre os acusados de receber ou solicitar caixa dois e propinas estão Michel Temer (PMDB), Aé-cio Neves (PSDB), João Paulo Cunha (PT), Arlindo Chinaglia (PT), Marco Maia (PT), Henrique Alves (PMDB), Eduardo Cunha (PMDB) e Rodrigo Maia (DEM). O peemedebista Eduardo Cunha, preso desde outubro do ano passado, e o petista Arlindo Chinaglia, que teria embolsado 10 milhões de reais, são investigados no mesmo inquérito por terem feito parte de um suposto esquema de corrupção que envolvia a Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia. O atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é apontado pela Odebrecht como destinatário de 900 000 reais nos anos de 2008, 2010 e 2013. Em ao menos uma ocasião, dizem os delatores, Maia atuou em favor da Odebrecht na aprovação de uma medida provisória. Em outras oportunidades, a construtora pagou ao deputado com o intuito de comprar sua influência no Rio de Janeiro.

A Odebrecht funcionava como um partido político e seus executivos substituíam os parlamentares. Na maioria das vezes, o departamento jurídico do grupo se encarregava de redigir textos que eram inseridos em projetos de lei ou medidas provisórias. A partir daí, os lobistas da empresa entravam em campo para “convencer” os deputados e senadores amigos a incorporar a idéia. Em outros casos, alguns diretores de companhias atuavam diretamente na frente parlamentar de um determinado setor.

“No caso da Braskem (empresa do grupo Odebrecht), por exemplo, ela participava da frente parlamentar da defesa da indústria química”, afirmou o delator Cláudio Melo. “Então, eles (executivos da Braskem) escolhiam as pessoas dele. Eu só conheço uma pessoa, um deputado da frente parlamentar (…) cumpria esse papel muito melhor que eu”, completou.

Na semana passada, após a divulgação da lista de investigados, o Congresso, de repente, ficou vazio. Vergonha? Talvez, em raríssimos casos. Só não era, com absoluta certeza, receio de que algo pior pudesse acontecer.

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