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Desembarque à vista é o título de destaque interno no Globo, ilustrado com foto de Alckmin

Não foi necessário nem um dia para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, deixar claro que, sob sua gestão, o PSDB irá desembarcar prontamente do governo do presidente Michel Temer. Desde a delação da JBS vir à tona, em maio, os tucanos vinham se digladiando entre ficar na esplanada ou largar os cargos. Ao responder, ontem, se o partido deixaria Temer durante sua gestão à frente da sigla, o tucano foi direto em entrevista à Rádio Bandeirantes:

É isso aí. E (o partido) manterá apoio a todas as reformas que sejam de interesse do Brasil — disse o governador.

O posicionamento abre caminho para uma estratégia tucana de tentar se desvincular dos ônus do governo Temer — entre eles sua impopularidade — em 2018. O presidente nacional do PMDB e líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), elogiou o acordo em torno de Alckmin, mas avisou que, se o PSDB não quiser defender o legado do governo Michel Temer, o PMDB terá um candidato para fazê-lo. Jucá insinua que, se o candidato tucano se render à pressão dos deputados rebeldes, os chamados “cabeças pretas”, para se afastar de Temer, ele pode estar comprometendo sua candidatura.

A decisão deve acelerar a debandada dos tucanos, que ainda comandam os ministérios das Relações Exteriores, dos Direitos Humanos e a Secretaria de Governo, além de cargos de escalões inferiores. A avaliação de dirigentes tucanos da ala governista é que o ministro Antônio Imbassahy (Governo) deve tomar a iniciativa de deixar o governo dentro de uma semana e que a ministra Luislinda Valois (Direitos Humanos) pode cair a qualquer momento.

O chanceler Aloysio Nunes Ferreira deu ontem novos sinais de que pretende continuar no governo. Ao falar sobre a declaração de Alckmin favorável ao desembarque, o ministro respondeu que, quando o PSDB decidiu apoiar o governo, apresentou uma plataforma programática e que as eventuais demissões cabem ao presidente Temer.

O que foi decidido é isso. Nós apoiamos segundo um programa que estabelecemos com ele e o governo está cumprindo. Participar ou não é uma decisão do presidente da República — disse Aloysio, completando: — Esse assunto é superado.

Diante do acordo tucano para que Alckmin assuma a presidência do partido, o plano de Temer é conversar com o governador de São Paulo para organizar a saída dos ministros do governo, em especial a de Imbassahy, sem traumas. O presidente aguarda uma sinalização de Alckmin e de seus interlocutores para que a conversa aconteça em Brasília ou em São Paulo.

Temer quer conversar com Alckmin para organizar a saída do PSDB do governo. O principal interessado no assunto neste momento é o próprio partido, então eles é que têm que pedir a conversa. Assim que for procurado, A ideia é fazer a saída da forma mais organizada e cortês possível — disse um interlocutor de Temer.

Não é novidade para o presidente”, dizem seus assessores, que Alckmin defende um desembarque rápido do governo. Com o acerto de que o governador de São Paulo vai comandar o partido, também “perde o sentido”, dizem pessoas próximas a Temer, a ideia inicialmente ventilada de esperar passar a convenção do PSDB, em 9 de dezembro, para dar início à reforma ministerial. Como não haverá mais conflito dentro do PSDB sobre quem vai assumir a presidência da legenda, essas trocas vão ocorrer assim que Temer e Alckmin conversarem.

Sem o conflito de quem será o presidente do PSDB, não tem mais sentido esperar a convenção do partido para tirar os ministros. Agora é combinar com o Alckmin — disse um auxiliar de Temer.

SEM REPETIR “CASO MARUN”

O presidente, no entanto, quer evitar nova “descortesia” com Imbassahy, como ocorreu na semana passada, quando ministros palacianos e outros peemedebistas se anteciparam a Temer e anunciaram, antes da hora, a nomeação do deputado Carlos Marun (PMDB-MS) para o cargo de Imbassahy. O movimento irritou o presidente, que repete sempre que gosta muito de Imbassahy e não quer que ele se sinta depreciado ou afastado do governo. Temer também não quer ser indelicado com a ala governista tucana, que é considerada fundamental para a aprovação da reforma da Previdência.

Alckmin foi contra o embarque dos tucanos no governo Temer no ano passado, mas aceitou a decisão da maioria de que o partido precisava participar do governo como gesto de responsabilidade com a governabilidade e o país. Há alguns meses, entretanto, ele passou a engrossar o grupo dos que defendem a entrega dos cargos. Ontem de manhã, Alckmin reafirmou o discurso quando perguntado se continuava a favor da saída do PSDB do governo.

Abandonar (o governo) no sentido de não ter compromisso, não. Temos compromisso e temos que dar sustentação na Câmara e votar projetos de interesse do país. Mas sempre fui contra participar do governo. Não tinha a menor razão para o PSDB estar indicando ministros — afirmou.

Geraldo Alckmin será aclamado presidente nacional do PSDB na convenção do partido marcada para 9 de dezembro. A escolha foi fruto de um acordo costurado pelo ex-presidente Fernando Henrique que levou ontem os dois candidatos à vaga — Tasso Jereissati e Marconi Perillo — a abrir mão da disputa. Dessa forma, Alckmin se consolidou como o provável candidato do partido para a disputa presidencial do ano que vem.

Militante histórico do PSDB, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, disse ao GLOBO, no entanto, que exigirá prévias para a disputa presidencial.

Tem dois précandidatos à Presidência da República. Estou propondo que os filiados sejam ouvidos e não sirvam só para segurar bandeira e votar no dia da eleição do partido. Foi uma reuniãozinha, um grupo pequeno que escolheu Alckmin em 2006, José Serra em 2002 e em 2010 (para a Presidência). O Alckmin, em 2006, teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, quando disputou contra Lula. Tem que acabar com essas reuniõezinhas.

Plano para 2018 evidencia divisão

O consenso que levará Geraldo Alckmin à presidência do PSDB ainda não foi suficiente para cicatrizar todas as feridas provocadas pela disputa interna do partido. Isso ficou claro ontem, com o lançamento de um documento com propostas sobre economia e a situação do país. Produzido pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV), órgão de formulação de políticas públicas da legenda, o texto “Gente em primeiro lugar: O Brasil que queremos” esboça um programa tucano para 2018, mas já nasceu sob ataque interno.

O senador Tasso Jereissati (CE), adversário, na guerra interna do partido, do presidente do ITV, José Aníbal, foi o primeiro a criticar, dizendo que o documento estava “caduco” e que sequer tinha lido, o que irritou o presidente da legenda, Alberto Goldman, para quem Tasso “deveria ter lido para opinar”.

Goldman afirmou que o documento foi “amplamente debatido, todo mundo recebeu os esboços, participou, deu opinião”, e que, no congresso da legenda, em dezembro, haverá um aprofundamento do debate. Outro dirigente tucano afirmou que o texto foi submetido inclusive ao ex-presidente Fernando Henrique e a Geraldo Alckmin.

Uma suposta “superficialidade” das propostas contidas no texto foi o foco da crítica da economista Elena Landau, exdiretora do BNDES no governo Fernando Henrique, e próxima aos economistas que elaboraram o Plano Real e comandaram a economia na gestão tucana. Há um mês, ela, junto dos economistas Edmar Bacha e Pérsio Arida, havia assinado manifesto a favor da permanência de Tasso na presidência tucana com propostas para a economia do país. Agora, o grupo reclama não ter sido ouvido:

Espero que não seja a base de um programa de governo, porque não tem novidade, não tem ousadia, não tem sentido. É cheio de platitudes. Quem vai discordar de que se quer um “estado mais eficiente”, que a “questão fiscal é um entrave ao desenvolvimento”? Qual a gestão pública que se quer? Qual a proposta para educação, para saúde? Não tem nada.

O documento fala em “fim dos privilégios”. Num capítulo exclusivamente dedicado ao assunto, as diretrizes partidárias sugerem a revisão do acesso dos ricos a serviços públicos gratuitos.

O capitalismo de compadrio tem que acabar. A concessão de subsídios, renúncias fiscais, desonerações e benefícios tributários requer regras amplamente debatidas com a sociedade, e isso vale para todo o orçamento público! Em particular, o acesso dos mais ricos a serviços públicos gratuitos precisa ser reavaliado”, diz trecho do texto.

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