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O ápice da crise tucana é destaque interno no Globo

No momento mais agudo da crise do PSDB, o senador Aécio Neves (MG) destituiu ontem o colega Tasso Jereissati (CE) da presidência interina do partido e nomeou em seu lugar o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman. Desde que assumiu o comando da legenda, após Aécio virar alvo da delação da JBS, Tasso tentava afastar o partido do governo do presidente Michel Temer e também renovar a legenda, incluindo um mea-culpa na TV pelo envolvimento de quadros do partido em denúncias de corrupção. Aécio é investigado em nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) e suspeito de ter recebido propina de R$ 2 milhões, o que ele nega.

Aliados de Tasso acusam Aécio de ter cedido a pressões do Planalto para minar a candidatura do senador cearense ao comando do partido na disputa com o governador de Goiás, Marconi Perillo. Tasso saiu atirando: acusou Aécio de agir de forma antiética, de apoiar o fisiologismo do governo Temer e de se agarrar ao cargo sem pensar no coletivo do partido. Reafirmou sua candidatura e disse acreditar que o gesto de Aécio o fortalecerá.

A crise tucana é mais um obstáculo para a composição de uma candidatura presidencial do PSDB nas eleições de 2018. Com o partido dividido, será mais difícil fortalecer um nome nacional e fazer alianças.

Na companhia de deputados aliados, Tasso começou sua fala brincando que estava desempregado. Em seguida, repetiu que o PSDB de Aécio não é o seu PSDB, nem o de Mário Covas, Fernando Henrique ou Geraldo Alckmin. Aécio foi ao gabinete de Tasso à tarde. O senador mineiro lhe disse que achava melhor ele se afastar da presidência interina, já que era candidato e isso equilibraria a disputa com Marconi.

Eu pedi a Aécio certa sinceridade quando viesse argumentar as razões. Sabia perfeitamente que ele não queria isso em nome da equidade. Que ele, na verdade, não queria que eu fosse candidato nem presidente do partido, era essa a questão, porque nós temos hoje diferenças profundas, muito profundas. São diferenças conhecidas, desde o comportamento político, comportamento ético, visão de governo, fisiologismo deste governo. Não é que ele seja fisiologista, mas concordar e se omitir é tão grave quanto ser.

Para Tasso, a crise não é de nome — dele ou de Marconi —, mas de ideias:

Certas posições podem ser irreconciliáveis — disse Tasso, acrescentando: — O PSDB desses caras não é o meu PSDB.

No fim do dia, Aécio disse que a decisão de afastar Tasso foi “legitima e necessária” a partir do momento que ele oficializou sua candidatura a presidência do partido na convenção de 9 de dezembro. Aécio disse que, nos seus quase 30 anos de militância no PSDB, sempre agiu “com enorme responsabilidade” pela unidade do partido, isso seria “incontestável”. E defendeu que a disputa pela presidência do PSDB entre Tasso e Perillo não seja polarizada com a discussão de estar ou não no governo.

Para Aécio, a mesma responsabilidade que o fez indicar Tasso para cumprir a interinidade o fez agora nomear Goldman:

Por uma simples razão: o senador Tasso ontem anunciou a sua candidatura à presidência do PSDB. Em havendo outro candidato, Marconi Perillo, é natural que seja garantida a isonomia na disputa. Portanto essa decisão é absolutamente normal. Foi uma decisão absolutamente legítima, e ao meu ver, necessária.

Tradicionalmente conhecido pelo fato de seus líderes optarem por posições moderadas, sendo alvo inclusive de acusações de não se posicionar, o PSDB vive o racha mais profundo desde a fundação do partido.

Aécio tentou ontem convencer Tasso a renunciar, que não aceitou e, numa conversa curta e muito ríspida, respondeu que só saia se Aécio o destituísse.

Diante da radicalização da crise provocada pela decisão de Aécio, o presidente de honra do partido, Fernando Henrique, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, entraram em campo. A possibilidade de Alckmin ser o candidato ao comando da sigla para evitar uma fratura ainda maior com o acirramento da guerra interna voltou a ser uma possibilidade. Outra possibilidade é o adiamento da convenção nacional de 9 de dezembro para buscar uma pacificação do PSDB.

Pegos de surpresa com o anúncio, Alckmin e o FH passaram a tarde e a noite falando com lideranças. O clima era de indignação, segundo um dos interlocutores de FH.

À noite, Alckmin divulgou uma declaração que deu a dimensão do ambiente conflagrado.

Eu não fui consultado. E se fosse, teria sido contra, porque não contribui para a união do partido — disse o governador sobre o afastamento de Tasso da direção da sigla.

FH ouviu pedidos de tucanos para que venha a público condenar a atitude de Aécio e propor uma saída alternativa à posse de Goldman na presidência. Mas, até as 22h, o ex-presidente não havia feito nenhuma manifestação.

CONVENÇÃO PODE SER ANTECIPADA

Ontem já era possível ouvir no tucanato de São Paulo um coro mais robusto para que Alckmin aceite a missão de presidir o PSDB. Ele seria um tipo de terceira via pacificadora entre as candidaturas. O governador resiste a assumir a missão, justificando que poderia atrapalhar seus planos de presidenciável. Mas, segundo um aliado, a atitude de Aécio pode fazê-lo mudar de ideia se houver um apelo do partido.

A destituição unilateral de Tasso por Aécio fez aparecer também uma reação até então não cogitada: antecipar para este mês a convenção nacional que está marcada para 9 de dezembro. Aliados de Alckmin começaram a pregar essa saída.

Goldman, disse ter sido “pego de surpresa” pela decisão de Aécio.

De acordo com Goldman, seu papel será de conduzir a disputa interna com “isonomia”. Ele evitou falar sobre um desembarque do governo Temer, reiterando apenas que a decisão da Executiva de permanecer nos cargos segue em vigor. Goldman negou que ocorra interferência externa do governo no PSDB e disse que uma conversa com os candidatos a comandar o partido é “necessária”:

Essa disputa pode ser ruim, ou até boa para revitalizar o partido, se for mantida dentro de um bom nível.

Evitando se posicionar sobre diversos temas, Goldman sustentou que uma das coisas que o partido precisa ter é “posição” nos debates do país:

A melhor coisa para um partido é ter unidade de ação, uma coisa que faltou ao PSDB nos últimos tempos.

Marconi elogiou, em nota, a decisão “correta e justa”: “Seria antiético e nem um pouco isonômico o processo se essa decisão não fosse adotada’’.

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