Noticias

Só 18% da Câmara votou contra Dilma, Cunha e Temer, diz o Valor

Dos 513 deputados, apenas 18% votaram de forma “coerente” contra a corrupção e defenderam o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) no impeachment, do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) no processo de cassação e do presidente Michel Temer (PMDB) nas duas denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República, segundo levantamento do site “Ranking dos Políticos”.

A maioria votou para afastar apenas um ou dois, mas preservou Dilma ou Temer. Só dois deputados, Jozi Araújo (Pode-AP) e João Carlos Bacelar (PR-BA), foram a favor de salvar todos. “Que o povo julgue nas urnas. Meu pai, quando era deputado, também votou contra o afastamento do [ex-] presidente Collor”, disse Bacelar. “Antes do trânsito em julgado eu sou contra [cassar]. Acho que tem que valer o voto popular, a democracia”, afirma Jozi.

Para Renato Dias, diretor do Ranking dos Políticos, criado pela iniciativa privada para fazer uma avaliação do desempenho de deputados e senadores, essas quatro votações são um bom parâmetro para ver quem age de acordo com o discurso. “Tem muitos parlamentares que se dizem a favor da transparência e contra a corrupção, mas não expressam isso “, diz.

Os 93 deputados que defenderam o afastamento dos três não têm um perfil claro por região ou partido. “É mais um perfil pessoal, de quem é coerente contra a corrupção não importa o partido”, afirma Renato Dias. Não há nenhum parlamentar do PT e Psol, por exemplo, porque todos votaram contra o impeachment de Dilma – que tinha as pedaladas fiscais como justificativa, mas com as acusações de corrupção como forte pano de fundo.

A “bancada dos éticos”, contudo, não está livre de pendências judiciais. Dos 93, apenas 55 (10% da Câmara) não têm nenhum processo na Justiça ou tribunais de contas. Os outros, mesmo se posicionando pelo afastamento, já foram condenados ou são alvo de processos eleitorais, ações de improbidade administrativa, ações civis públicas e até investigações na operação Lava-Jato.

A antiga oposição ao governo Dilma, que votou em peso pela destituição da petista, se mostrou um pouco mais “coerente”, embora um grupo expressivo tenha apoiado Temer. Dos 44 deputados do PSDB, 18 votaram contra Dilma, Cunha e Temer (nas duas vezes). No PSB, 15 dos 36 seguiram essa linha e no PPS, seis dos nove. O número total da bancada varia porque nem todos participaram de todas as votações – alguns foram substituídos por suplentes.

Também de oposição a Dilma, o DEM do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), votou em sua maioria para salvar Temer. Apenas cinco deputados foram “coerentes”. Relator do processo de cassação de Cunha, Marcos Rogério (DEM-RO) foi um deles. “Entendo a posição de alguns que votaram a favor do presidente em relação ao momento do país, mas isso é um risco. O que está em jogo é a confiança da opinião pública de que o sistema é honesto.”

No PMDB de Cunha e que esteve nos dois governos, só três dos 61 deputados votaram pelo afastamento de todos: Jarbas Vasconcellos (PE), Vitor Valim (CE) – apresentador de um programa de TV policialesco – e Sergio Zveiter (RJ), que mudou para o Podemos após relatar a primeira denúncia contra Temer.

Mesmo partidos do “Centrão”, mais ligado ao fisiologismo e protagonistas de escândalos nos últimos anos, também têm os seus “éticos”. Seis deputados do PP (de 50), sete do PSD (de 39) e seis do PR (de 38) defenderam o afastamento dos três.

Para o deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), que votou contra os três, a melhora do cenário econômico blindou Temer. “A economia serviu como argumento para muitos colegas porque a classe empresarial não queria realmente a saída dele. E numa eleição curta como a de 2018, vários preferiram levar uma obra para suas bases eleitorais. A lógica é que o povo vai esquecer o voto, mas não a quadra ou ponte.”

Deixe uma resposta