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“O dia em que o presidente quiser me tirar, ele tira”, diz Rabello de Castro é o título de matéria no Valor

O presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, volta e meia é visto em alguma polêmica com a equipe econômica, especialmente o Ministério da Fazenda. Na última terça-feira, Rabello de Castro esteve em Brasília para uma reunião fora de agenda com o presidente Michel Temer, no momento em que a cidade fervia com boatos sobre sua demissão iminente, a pedido do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Ficou para o almoço com Temer. “O dia que o presidente quiser me tirar, ele me tira e no dia seguinte eu tenho outra coisa para fazer”, diz. A novidade, segundo o presidente do BNDES, “é que o presidente nem mencionou essa questão”.

O tema da reunião foi o investimento. Mas Rabello de Castro não ignora as notícias sobre sua demissão. A questão é saber qual a origem delas. Ele responde com perguntas: “A quem eu estaria dando trabalho? Em que áreas eu tive atritos? Em que caso eu tenho atuação que tem provocado um desgosto, uma insatisfação? Porque é daí, certamente”. Suas divergências são públicas: com o Ministério da Fazenda e o Banco Central a respeito do cálculo da TLP – que vai substituir a atual Taxa de Juros de Longo Prazo, a TJLP – e sobre o pagamento antecipado de empréstimos feitos pelo tesouro ao BNDES – R$ 50 bilhões, este ano, e R$ 130 bilhões em 2018.

Em relação a 2017 está tudo certo com o economista. “Este ano nós vamos colaborar e no ano que vem é um assunto que tem que ser ainda analisado entre governo e TCU”, disse Rabello de Castro ao Valor. “A gente vai fazer o que for possível”.

A força exibida por Rabello de Castro deixa intrigados políticos acostumados a ver as equipes econômicas que passam pela Esplanada do Ministério a sempre atropelar outros demandantes. A explicação talvez possa ser encontrada no fim de maio último, quando o economista foi chamado para presidir o BNDES numa situação dramática. No dia 17, foram divulgados os áudios da conversa que o empresário Joesley Batista tivera com Temer no Palácio do Jaburu. Foi o momento de maior fragilidade do presidente, cuja renúncia ao cargo chegou a ser noticiada.

Pouco mais de uma semana depois, no dia 26, a então presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, pediu demissão. Rabello de Castro conta pela primeira vez como acabou presidente do banco. “O que aconteceu foi uma coisa muito atípica: o presidente foi pego de surpresa com o pedido da Maria Silvia. Ela chegou e disse estou ‘estou saindo’, não foi uma coisa ‘olha, vamos combinar’, foi “estou saindo”, ela não fez segredo disso”. A situação, segundo o economista, era insustentável também tendo em vista a Operação Bullish, da Polícia Federal, que investigava empréstimos bilionários do BNDES, inclusive para a JBS.

“É preciso contextualizar. Além da delação ao presidente, havia uma situação no banco insustentável”, diz. “Então o presidente me liga e diz ‘estou precisando de você em uma missão’. Eventualmente, aí não precisa ser um gênio para pensar – uma semana atrás aquele problemaço, sai a musa, uma pessoa muito simpática, inteligente, única mulher, o presidente deve ter ficado preocupado, ‘eu não posso deixar um espaço aberto. Se não tiver dificuldade, eu quero que você aceite logo’. Então não foi por não querer consultar, estava ali atendendo a uma questão quase de noticiário da noite”.

E foi o que aconteceu. À noite, quando ligou a televisão, Rabello de Castro já ouviu notícias sobre sua nomeação. Era uma questão urgente. “Porque a turma estava pegando no pé dele firme. Então eu acho que ele deve ter pensado com os botões dele: pelo menos nesse ponto aqui, rei morto, rei posto”. Rabello de Castro também se lembra de que foi para o BNDES – estava no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –

“num dia em que não tinha ninguém em volta do presidente. Na semana depois daquela fatídica delação, todo mundo tinha dado um perdido nele. Então essa história de que não foi consultado…”. Os jornais da época noticiaram que o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) dizia não acreditar na saída de Temer, mas que permaneceria num futuro governo, se este fosse o caso.

O economista prefere acreditar no desmentido feito por Rodrigo Maia. “O Rodrigo nunca sugeriu nome. Ficam inventando umas histórias… Na hora que o Rodrigo precisasse sugerir um nome, era questão de pegar o telefone”. Na terça-feira Rabello de Castro não teve oportunidade de estar com o presidente da Câmara. “Mas tenho intimidade com ele há longos anos, é o tipo de sujeito que poderia me ligar, se tivesse alguma coisa. Porque poderia não ser, mas por acaso é, ele sempre foi um rapaz muito alinhado no campo liberal, frequentava lá o Instituto Atlântico [ligado ao PFL, antecessor do DEM] e sempre tive muito carinho por ele e pelo pai”.

Maia seria uma pessoa que poderia falar diretamente com ele, “caso estivesse precisando de alguma coisa em relação ao Rio de Janeiro, um alinhamento”. Pelo que o economista sabe, Maia falou “me tira fora dessa, não bote na minha conta”. No que teria feito muito bem. Se deixasse o assunto rendendo por mais um dia seria vítima da “maledicência”, as pessoas começariam a dizer que ele queria “ser adulado com uma nomeação que é tipicamente um lugar que cuida de finanças, um dos poucos lugares na República onde o caixa ainda existe. Estranho. Era fundamental que ele desmentisse isso, como de fato ele não tem nada a ver com isso”.

As “intrigas” e “fuxicos”, portanto, não poderiam ser de outro lugar a não ser daqueles incomodados por sua atuação. “Não pode ser porque o banco vai bem ou vai mal, os investimentos vão sofríveis no Brasil inteiro e o crédito vai sofrível. Seria muito esquisito se o banco estivesse explodindo. Eu devia então estar fazendo uma coisa maluca”. Em quatro meses, boa parte do tempo foi dedicada a apagar incêndios. Mas houve tempo para lançar o BNDES giro, que “começa a decolar”. E “a TJLP permanecendo como ainda está, nos píncaros de 7%, ela também não é exatamente um convite para o empresário investidor encarar um investimento”. Rabello de Castro diz que se começasse a distribuir dinheiro na avenida Chile, onde fica a sede do BNDES, no Rio, teria dificuldade de conseguir.

O economista reconhece que o investimento está muito baixo. Existe uma retomada do crescimento do Produto Interno Bruto, diz, que não conta com a contribuição do investimento, mas da agricultura, do aumento do consumo, do aumento da demanda dos automóveis. “O conjunto geral do PIB é um ciclo que é um conjunto de miniciclos. O ciclo, a curvinha lá do investimento, essa está demorando mais”. E a conversa com Temer girou sobre como melhorar o investimento. ” Eu não estou aqui para ficar de conversa e de fofoca, eu não sou político e acho que a política tem que mudar muito. O país não vai pra frente com este monte de homem fofocando e ninguém trabalhando. Isto é uma safadeza que nós fazemos com o país”.

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