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Raquel e Janot é o título de análise de Joaquim Falcão no Globo

Engana-se quem acredita que Raquel e Janot terão destinos diferentes. Provavelmente terão igual destino.

Qual? Aquele que já escolheram. Defender, fortalecer, tornar mais eficiente a instituição: o Ministério Público Federal. Sobretudo agora, quando é vitima de ataques de ministro do Supremo e da Presidência da República.

Este destino, de roteiros diferentes, já comandou Antonio Fernando, Roberto Gurgel e Rodrigo Janot. Vai comandar Raquel Dodge também.

Desde 1988, o Ministério Público cresce na confiança da população. Mais do que o Judiciário.

Nada na historia de Raquel Dodge sugere disposição para trocar o destino institucional por preferências pessoais. Quaisquer que sejam. Por retribuições a quem a nomeou. Ou a interesses econômicos e políticos que a apoiaram. Ao contrário.

Engana-se quem acredita que Janot foi midiático. Revejam as imagens. Até sua raiva é serena. Só se revela no olhar. Midiático é o cargo. A forca do cargo. O poder do cargo. Raquel será midiática quando começar a usá-lo.

Janot já delineou seus últimos dias. Adiantar os processos. Sua gestão aperfeiçoou a estratégia de bem apurar fatos, que vence a obsessão elitista por etéreas doutrinas jurídicas.

Aquelas que criam nulidades para colher impunidades. Fatos vistos são decisivos na democracia de informação.

Autos não anulam a vida nem a memória do eleitor, telespectador ou investidor.

Raquel, no início, provavelmente continuará o curso. Há prazos a respeitar. Não terá que brigar pelo poder. Já o tem por quatro anos. Basta.

Qual então sua própria pauta? Muitas possíveis. Dependerá da conjugação da missão com a oportunidade.

Cresce, por exemplo, a inquietação de procuradores e da opinião pública diante da necessidade de aperfeiçoar a gestão interna, compliance. A supervisão das regras e comportamentos dos próprios procuradores.

Que o caso Marcello Miller não se repita. Investigar inclusive seu desempenho em outros casos de milhões de dólares. Transparentes auditorias terão que ser feitas.

A lacuna legal que permitiu a Miller, no dia seguinte ao seu desligamento, ir trabalhar no escritório de advocacia americano-brasileiro da JBS tem que ser fechada.

A lei exige quarentena, para procurador e juiz, apenas por aposentadoria. Não por desligamento voluntário. O Brasil está sofrendo consequências públicas de um privilégio funcional privado.

Ontem juiz, hoje advogado. Hoje regulador, amanhã regulado. Ontem procurador, amanhã consultor.

Este vai e vem, esta porta giratória entre o público e o privado, que infelizmente prevalece nas agências reguladoras e no setor financeiro, expande-se agora para o Poder Judiciário.

Estimula a promiscuidade patrimonialista. É antidemocrática.

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