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Ataque preventivo é o título de matéria interna no Globo

Enquanto Temer promete resistir, delação de Funaro chega ao Supremo com 30 anexos

No mesmo dia em que a delação do operador Lúcio Bolonha Funaro chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Michel Temer gravou um vídeo e, numa clara tentativa de vacina contra a nova denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que algumas pessoas querem semear desordem e paralisar o país. Informações da delação do operador podem abastecer a segunda denúncia que Janot deverá apresentar contra Temer nos próximos dias. Cúmplice do deputado cassado Eduardo Cunha em supostos desvios do Fundo de Investimento do FGTS, da Caixa Econômica Federal, Funaro reuniu conteúdos considerados impactantes por quem conhece as acusações.

A delação de Funaro tem 30 anexos e atinge em cheio pelo menos 15 deputados do antigo núcleo de Cunha e Temer na Câmara. Numa série de depoimentos prestados na Polícia Federal e na sede da Procuradoria-Geral, o operador confessou crimes, descreveu o envolvimento de parlamentares nas negociatas e entregou provas “fortes” de movimentação ilegal de dinheiro. As declarações do operador foram concluídas na semana passada e, desde ontem, já estão em poder do ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato no Supremo. Uma segunda denúncia obrigará Temer a tentar reorganizar a base do governo para salvar o mandato e, pelo menos por enquanto, manter-se fora do alcance da Justiça. Um presidente da República só pode ser processado com autorização prévia da Câmara. Sabedor das dificuldades que terá pela frente nos próximos dias, Temer reclamou de supostos obstáculos que estariam sendo colocados no caminho dele, queixou-se da criação de “desordem”, mas disse que, mesmo assim, resistirá.

Sabemos que tem gente que quer parar o Brasil, e esse desejo não tem limites. Querem colocar obstáculos ao nosso trabalho, semear a desordem nas instituições, mas tenho a força necessária para resistir. Nenhuma força me desviará desse rumo — disse Temer, em vídeo gravado pouco antes de embarcar para a China com escala em Portugal.

Na quinta-feira passada, O GLOBO informou que Janot e equipe já estão preparando a segunda denúncia contra Temer. Não está claro ainda se o presidente será denunciado por obstrução à Justiça, organização criminosa ou mesmo se a acusação abrangerá os dois crimes. No encontro E Agora, Brasil?, organizado pelo GLOBO na segundafeira, Janot não quis falar sobre a segunda denúncia, mas deixou claro que não deixaria de praticar atos de ofício só porque está em fim de mandato.

O procurador-geral deixa o cargo em 17 de setembro, quando será substituído pela atual subprocuradora-geral Raquel Dodge.

No vídeo, Temer também apelou para a generosidade e otimismo do brasileiro. Para ele, mesmo com tantas decepções, os cidadãos “torcem” por resultados positivos. O presidente disse que a sociedade é a única beneficiada das ações do governo. Também prometeu buscar investimentos na China. Na semana passada, o Palácio do Planalto anunciou um pacote de privatizações e concessões ao setor privado envolvendo a Eletrobras, 14 aeroportos, Casa da Moeda e Parque Olímpico.

BRASILEIROS AMARGARAM DECEPÇÕES, DIZ TEMER

— O brasileiro é trabalhador e generoso. Se estão desconfiados da política, é porque já sofreram muito e amargaram grandes decepções. Mas, no fim, sempre torcem para dar certo. Vai dar certo. Não vamos deixar que a agenda negativa venha abater o nosso ânimo — disse Temer, que tem aprovação de 5%, a mais baixa em três décadas, segundo o última pesquisa do Ibope.

Janot e equipe têm, no entanto, visão diferente sobre o que é “dar certo”. O procurador-geral e os auxiliares mais próximos já estão em fase adiantada da elaboração da denúncia que pode resultar no afastamento de Temer da Presidência da República. O trabalho é cercado de sigilo, mas, entre investigadores, é dado como certo que elementos da delação de Funaro vão ser incluídos em inquérito já em curso para amparar a nova acusação formal contra Temer.

O presidente é investigado em inquérito aberto no STF para apurar o suposto envolvimento dele, do ex-assessor Rodrigo Rocha Loures, entre outros, em crimes como corrupção, obstrução à Justiça e organização criminosa. Temer é suspeito de usar Rocha Loures para negócios escusos, receber propina da JBS e atrapalhar a Lava-Jato em pleno exercício do mandato. Isso tudo no início do ano, quando se completavam três anos de prisões e condenações da Lava-Jato.

No dia 2 deste mês, com os votos de 263 deputados, a Câmara barrou a denúncia que Janot apresentou contra Temer por corrupção passiva. O caso só pode ser devidamente apurado quando Temer deixar a Presidência. As investigações sobre o suposto envolvimento de Temer com organização criminosa e obstrução à Justiça, no entanto, continuam em andamento. É com base nesse trabalho que Janot deverá determinar o conteúdo da nova denúncia.

Essas investigações realçam a importância da delação de Funaro. Nas tratativas iniciais, o doleiro teria prometido falar sobre assuntos relacionados a Temer e um expressivo número de políticos, sobretudo aqueles que tiveram campanhas financiadas em negociações intermediadas por Cunha. Depois das devastadoras delações da Odebrecht e da JBS, alguns políticos em Brasília passaram a acreditar que o estoque de acusações sobre corrupção estava esgotado. Uma fonte que conhece os caminhos percorridos pelo operador afirma que essa conclusão é equivocada.

Funaro teria feito revelações consistentes e revelantes. As primeiras informações fornecidas por Funaro, antes mesmo do início das negociações do acordo, levaram à prisão o ex-ministro Geddel Vieira Lima, um dos principais aliados de Temer. Num depoimento à Polícia Federal, o operador disse que o ex-ministro telefonou diversas vezes para a mulher dele recentemente. Nas ligações, Geddel teria “sondado” a disposição dele, Funaro, de depor.

DOLEIRO REFORÇA DELAÇÃO DE JOESLEY

No interrogatório, o operador também reforçou parte das acusações do empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, contra o presidente. Funaro disse que Geddel atuava como interlocutor de Joesley no governo. A substituição de Geddel pelo ex-assessor Rodrigo Rocha Loures na intermediação dos interesses da JBS teria sido um dos motivos centrais da conversa entre Joesley e Temer no Palácio do Jaburu, na noite de 3 de março. Geddel, hoje em prisão domiciliar, acabou sendo detido por tentativa de atrapalhar a Lava-Jato.

Funaro teria falado também sobre a intermediação de um repasse de R$ 4 milhões da Odebrecht para o PMDB de São Paulo a pedido de Temer. Os R$ 4 milhões fariam parte de um total de R$ 10 milhões acertados por Temer, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) ,o ex-presidente da Odebrecht Marcelo Odebrecht e o executivo Cláudio Melo Filho na fase da pré-campanha de 2014.

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