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Doria faz 287 reuniões com empresários, diz o Valor

Cotado como candidato para as eleições de 2018, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), usou a agenda de seus sete primeiros meses de governo para projetar-se além dos limites da capital paulista. Em 208 dias de governo, o prefeito fez seis viagens internacionais e participou de quase três centenas de encontros com CEOs, empresários de diferentes setores da economia e lideranças do mercado financeiro. Ainda sem musculatura política no cenário nacional e em seu próprio partido, Doria investiu também em contatos com a cúpula tucana, reuniu-se com 12 ministros, buscou executivos de grandes grupos de comunicação e teve pelo menos 15 encontros com líderes de diferentes religiões.

O destaque na agenda de Doria, no entanto, são os encontros com empresários. Fundador do Lide, empresa de eventos empresariais, o prefeito teve 287 reuniões com representantes do setor produtivo e financeiro, na capital paulista e nas seis viagens internacionais que fez para a China, Emirados Árabes, Qatar, Coreia do Sul, Itália, Portugal e Estados Unidos. Na lista estão CEOs, presidentes e dirigentes de grandes empresas, multinacionais e instituições financeiras como Unilever, Siemens, Microsoft, Coca-Cola, Nike, Ambev, Credit Suisse, Bradesco, BM&F Bovespa, Grupo Corte Ingles, JCDecaux, BRF GM, BNDES, Votorantim, Souza Cruz e Brookfield Brasil entre outras.

Na pauta da intensa agenda com empresários, segundo a prefeitura, está o pedido de doações e parcerias, além dos projetos de privatização e concessão de bens e serviços municipais.

A proximidade da gestão com o setor produtivo é indicada não apenas pela agenda com dezenas de encontros, mas também pela própria composição do governo.

Em junho, o prefeito criou a Secretaria Especial de Investimento Social para nomear o então vice-presidente da Cyrela Brazil Realty Cláudio Carvalho de Lima. Vice-presidente de governança da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, o secretário foi o principal interlocutor da Cyrela nas negociações com a prefeitura em torno do Parque Augusta. No mesmo mês, Doria nomeou o presidente do comitê de gestão do Lide, Luiz Fernando Furlan, para presidir o conselho deliberativo da SP Negócios. Mesmo com o cargo municipal, Furlan disse que continuaria no comando do Lide.

Paulo Uebel, secretário de Gestão e um dos integrantes do primeiro escalão que mais aparecem na agenda do prefeito, foi CEO Mundial do Lide. Juan Quirós, presidente da SP Negócios e que também é registrado com frequência nos encontros com empresários, é ligado ao Lide: a esposa de Quirós é presidente da franquia de Campinas (SP) do grupo.

Além dos contatos que obteve à frente do Lide, Doria tem procurado cônsules e embaixadores de países europeus e asiáticos para ajudá-lo no contato com empresários. Foram pelo menos 39 encontros com autoridades diplomáticas, segundo a agenda do prefeito. Na maior parte dessas reuniões participam representantes do setor produtivo internacional.

As viagens para o exterior para “vender” projetos de concessão e privatização começaram no segundo mês de governo, com a ida aos Emirados Árabes Unidos. O tucano já passou mais de um mês fora do país – quando voltar da China, serão 35 dias. Além das seis viagens a trabalho, Doria ficou quatro dias em Porto Rico com a família.

No Brasil, o prefeito também tem se movimentado e já foram 12 viagens, além de eventos em Barueri e São Bernardo do Campo, na região metropolitana. Nos deslocamentos para o Rio (duas vezes), Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Foz do Iguaçu, Ribeirão Preto, Campinas e Campos do Jordão, o prefeito tentou buscar aliados fora de São Paulo.

Sem um grupo político definido no PSDB, Doria começou a gestão reforçando a proximidade com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Foram pelo menos 28 encontros e eventos políticos ao lado de Alckmin, além de reuniões não divulgadas. A possibilidade de uma candidatura presidencial de Doria, no entanto, gerou desconfianças no grupo político do governador, que age nos bastidores para barrar o prefeito e para garantir o lançamento de Alckmin para a disputa de 2018.

O prefeito tenta construir uma interlocução com o comando nacional do PSDB. O governo Doria divulgou encontros com o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), e com os senadores Cassio Cunha Lima (PB) e Aécio Neves (MG), além da participação em encontros partidários e de um périplo por Brasília, em reuniões com as bancadas de senadores e deputados e com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE). Alvo de críticas de Fernando Henrique Cardoso, Doria foi almoçar com o ex-presidente na tentativa de minimizar os ataques públicos.

A prioridade da agenda política nacional em relação à local irritou vereadores da base aliada e o PSDB-SP. Antes do recesso parlamentar, vereadores tucanos reclamaram da falta de diálogo e dificultaram a aprovação de projetos do Executivo, como os de privatização e concessão.

Doria tem mantido uma relação de proximidade com o governo Michel Temer. O tucano recebeu 12 dos 28 ministros, em 19 encontros e eventos na capital.

Com uma agenda de eventos que lembra a de um candidato, o prefeito também buscou uma aproximação com lideranças religiosas e teve pelo menos 15 encontros e eventos com representantes de diferentes crenças. O prefeito participou de homenagem à Igreja Universal do Reino de Deus, no Templo de Salomão, ao lado de Alckmin; reuniu-se às 23h30 de uma sexta-feira de fevereiro com Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial; participou de reunião de obreiros e da convenção nacional da Assembleia de Deus; encontrou-se com mórmons, representantes da igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e com o reverendo Aldo Quintão, da igreja anglicana. Houve encontros com o arcebispo metropolitano ortodoxo antioquino Dom Damaskinos Mansour, com o misssionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus; com a comunidade judaica e com o padre Marcelo Rossi e o arcebispo de São Paulo dom Odilo Scherer, católicos.

A agenda do antecessor de Doria Fernando Haddad (PT) teve uma proximidade ainda maior com o governo federal, então comandado por Dilma Rousseff, do mesmo partido. Apenas nos dois primeiros meses da gestão, Haddad reuniu-se com 12 ministros – 11 vieram a São Paulo. A promessa de destinação de R$ 8 bilhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no entanto, não se realizou. Houve dezenas de reuniões com empresários, sobretudo da construção civil, mas em proporção menor do que em relação ao atual governo. No começo da gestão, Haddad viajou a Paris, acompanhado de Alckmin, para tentar atrair para a cidade a Expo 2020. Durante a viagem, no entanto, eclodiu a Jornada de Junho, com protestos contra o aumento da tarifa de ônibus.

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