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Renan, o rei do oportunismo é o título de matéria na Istoé

Nesta semana, entre uma votação e outra, sentado em uma mesa no cafezinho do Senado, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) revira os olhos verdes para cima, como quem busca acessar dados na memória e, com um sorriso malicioso, dispara: “Eu tive o prazer de contar: já li 22 versões diferentes sobre o que teria me levado a divergir do governo Michel Temer.” Joga a cabeça para trás e ri. De cerca de 20 dias para cá, o líder do PMDB na Casa resolveu abrir fogo contra o Palácio do Planalto e está se deleitando com o incêndio causado por seus ataques ao presidente em vídeos publicados no Facebook, mensagens de Twitter e entrevistas.

Renan diz que é contra o atual texto da Reforma da Previdência e critica também a terceirização dos postos de trabalho. Porém, o cacique de Alagoas não está comprometido com as finanças do País, nem está preocupado se o trabalhador terá ou não como receber aposentadoria no futuro se nada for feito agora. Renan, assim como muito de seus pares, interessa-se por salvar a própria pele.

Antes de encarnar o indignado crítico pró-trabalhador, o alagoano encomendou uma pesquisa em seu Estado para avaliar a sua popularidade, a de Michel Temer, a do ex-presidente Lula e a de Renan Filho, governador e seu rebento. Foi só com os resultados em mãos que passou a atacar o chefe do Executivo.

Sem entender exatamente as intenções do até então aliado, Temer enviou os ministros da Casa Civil, José Padilha, e o da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, para falar com o senador duas vezes na mesma semana. Perguntaram o que ele queria e como o governo poderia solucionar essa contenda. Chegou-se a cogitar promover a estratégica Secretaria dos Portos novamente a ministério e entregá-la à turma de Renan. Atualmente, ela está vinculada à pasta dos Transportes, comandada pelo também alagoano Maurício Quintella, não integrante do feudo renanzista.

Mas, aos emissários, Renan não abriu o jogo. O que ele quer do governo neste momento chama-se distância. Na pesquisa, Renan identificou o que seu apurado feeling político já lhe apontava: a reprovação de Temer é estrondosa em Alagoas. No ano que vem, ele termina seu mandato como senador e terá que voltar à disputa eleitoral. Quanto mais ele se opuser ao presidente, calcula ele, melhor serão suas chances de se reeleger, especialmente empunhando uma bandeira contra reformas. Renan também está pavimentando um caminho que lhe permita agarrar nas barbas de Lula, caso o petista consiga ser candidato à presidência pelo PT.

Além de viver da política desde a década de 70, a renovação para seu quarto mandato no Senado é, mais que nunca, essencial, para que ele possa se manter com foro privilegiado. Ele é réu no Supremo Tribunal Federal por peculato (desvio de dinheiro público) e é investigado em outros 15 procedimentos criminais e cíveis no Supremo que apuram se ele cometeu crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Além de sua própria reeleição, ele também procura no distanciamento político em relação a Temer tentar ajudar Renan Filho na recondução ao governo alagoano. Está preocupado com as urnas, embora diga que seu herdeiro é o governador mais bem avaliado do Nordeste.

Supremacia ameaçada
O núcleo de Michel Temer avalia que, além das questões eleitorais, Renan se ressinta de ter deixado de ser o principal interlocutor de Alagoas junto ao poder federal, como costumava ser nas gestões de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff. Hoje, há outras lideranças do Estado com mais poder que ele – especialmente este ano, que deixou a presidência do Senado. A supremacia Calheiros está pulverizada diante da influência de Quintella, dos Transportes, do ministro do Turismo, Marx Beltrão, do senador Benedito Lira (PP), que é um frequentador assíduo do Planalto, só para pontuar alguns exemplos.

O jeito enigmático de Renan, de optar por não abrir o jogo, fez Temer se lembrar do episódio espinhoso envolvendo um apadrinhado do então presidente do Senado. Em 2014, Renan indicou para o Turismo Vinícius Lages. Mas em 2015, precisando da vaga para tentar conquistar apoio do PMDB na Câmara, Dilma pediu a Temer que consultasse Renan sobre a troca. O então vice-presidente da petista chamou Renan para conversar diversas vezes. E ouvia sempre respostas evasivas como “Michel, faça o que achar melhor”, pois não queria firmar nenhum compromisso. Diante das esquivadas, Temer acabou indicando Henrique Eduardo Alves (PMDB) para assumir a cadeira em 2015.

Já que o senador não quer conversa, a Presidência resolveu agir para neutralizar os efeitos de suas atitudes. Para sua retaliação ser relevante, Renan tenta influenciar integrantes da bancada peemedebista. Nas contas do Planalto, esta influência se dá apenas sobre mais quatro membros (Kátia Abreu, Roberto Requião, Rose de Freitas e Hélio José, de um total de 22 senadores). Aliados de Renan contam ao menos 11, ou seja, metade da bancada. Independentemente do saldo, o presidente está promovendo almoços e jantares com cada um deles, para que possam abrir seus corações – ou suas listas de pedidos.

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