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‘Gestor não inspira nada, tem de ser líder’ é o título de entrevista de Fernando Henrique no Estadão

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), é o tucano “mais bem posicionado” para disputar a eleição presidencial em 2018. Em entrevista ao Estado, FHC também criticou o mote de gestor adotado pelo prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que também tem sido apontado como potencial candidato ao Palácio do Planalto.

Nesta entrevista, o tucano aborda ainda sua relação com o PSDB enquanto foi presidente e sua “irritação” com adversários políticos da época – temas presentes no terceiro dos quatro volumes de Diários da Presidência (Companhia das Letras).

Como o sr. vê os políticos que se colocam como não políticos?

Tem muitos aí e vão continuar fazendo isso (se colocar como não político). O momento é para o não político, mas é político. O que é político com “p” maiúsculo? Alguém que inspira, que pode conduzir. Se você for um gestor, você não vai inspirar nada. Tem de ser líder, e líder é alguém que inspira o caminho. No caso, quem ganha eleição inspirou de alguma maneira. (O gestor) Vai inspirar o Brasil? Não é simples.

João Doria pode ser um nome do PSDB para o Planalto em 2018?

Ele diz que não é, acredito nele.

Os outros três pré-candidatos (Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves) são citados na Operação Lava Jato…

Não dá para prever o nome do partido antes de ver o que vai acontecer, é precipitado.

Em entrevista ao Estado no ano passado o sr. disse que o Serra era o nome mais bem posicionado para 2018. O Geraldo Alckmin é esse nome hoje?

Se você olhar nos dias de hoje, sim. E o Doria apoia o Geraldo. Ele (Doria) disse a mim recentemente e eu acho que é verdade. Ele apoia o Geraldo. O balão está subindo então todo mundo começa a apostar. Agora, será o Geraldo? Não sei. Eu não tenho força no partido, não sou um homem do PSDB, não sou da máquina. Tudo isso vai depender do que vai acontecer nos próximos meses.

Por que Alckmin está mais bem posicionado?

O Alckmin tem um fator de poder na mão: ele é governador de São Paulo. Ele tem uma força grande, ele tem mais estrutura na mão. Agora, isso é decisivo? Não. Depende do clima, do que vai acontecer. No fim, o PSDB, como sempre fez, pode ter três ou quatro candidatos e vai afunilar. Não sei se vai afunilar, não vai, se vem outro e faz aliança, se haverá a questão do outsider.

O Alckmin está pressionando o PSDB para precipitar as prévias.

Ele não vai precipitar. O PSDB não tem razão para isso. O Lula já está se precipitando porque tem necessidade de ser candidato para manter a coesão do PT e dizer que está sendo perseguido. Já o PSDB, eu acho que tem que ter um candidato com tempo suficiente para se organizar. Tem que deixar passar essa tempestade na qual estamos. Quem é acusado de quê? Por enquanto é notícia ‘ouvi dizer que’.

O sr. teme a saída de Alckmin do PSDB?

Não, o Geraldo é um político de lealdade. Ele não vai sair. Ele vai tentar aliança com outros partidos como é natural. Ele vai lutar dentro do PSDB.

Há um acordo de ‘salvação nacional’ entre alvos da Lava Jato?

Ninguém vai se salvar às custas de passar uma borracha (nas investigações). Não dá. Temos que pensar no futuro do Brasil. E pensar com quem? Com quem não está comprometido com os malfeitos.

Como o sr. vê o movimento no Congresso de anistia ao caixa 2?

Qualquer tentativa de anistiar não vai dar certo porque a sociedade não vai concordar. Na nota que eu dei lá da Europa, que era a respeito de uma crítica ao Aécio (delator da Odebrecht disse que na campanha de 2014 repassou R$ 9 milhões a políticosdoPSDBedoPPeamarqueteiro tucano a pedido do então candidato à Presidência Aécio Neves), eu disse: ‘Tem que dar prevalência à Justiça’. A justiça vai ter que separar os vários tipos de crime. Eu disse: ‘É algo errado que tem que ser punido’. Eu te mato é uma coisa, e dou uma surra nele é outra. Os dois estão errados, mas é diferente. Aquela nota foi lida como se eu quisesse borrar os malfeitos. Não era essa a intenção. Era: ‘Há malfeitos e malfeitos, vamos distinguir’. Quem foi que disse a mesma coisa que eu? Uma pessoa que não conheço, o Deltan Dallagnol (coordenador da Lava Jato em Curitiba). Ele disse: ‘Nós não estamos visando o caixa 2, nós estamos visando corrupção’. Pode ser no caixa 1, no caixa 2 ou fora deles. Isso quer dizer que caixa 1 ou caixa 2 não seja passível de punição? É passível. Mas quem julga é a Justiça.

No livro, o sr. chamou Ciro Gomes de hipócrita, mau-caráter. Como vê o projeto político dele?

Eu acho que é a esquerda que tem de responder. Mas esse é um bom momento para eu esclarecer o seguinte: o que eu digo no livro são os meus sentimentos naquele momento. Não é um julgamento tranquilo, é quase um desabafo. E o Ciro quando ofende, você reage. Ele não foi o único. Em vários momentos no livro eu fico irritado. Não é um julgamento de pessoas e da história. O valor que isso tem é documental.

O sr. chamou o   de mau-caráter, por exemplo.

Pois é. Eu diria isso hoje? Não.

Do Ciro também não?

Eu não diria, mas na hora ele disse alguma coisa que me fez reagir dessa maneira. Tem que ter noção da circunstância. É arriscado? É. Talvez fosse mais conveniente publicar depois de morto, mas nem eu poderia dizer o que estou dizendo nem os outros poderiam se defender por estarem mortos também.

Pelos registros, o PSDB tinha uma relação difícil com o senhor.

Uma coisa é o partido, outra coisa é o governo. Quem está no governo tem uma responsabilidade pública nacional, e o partido, o próprio nome diz, é uma parte. Você não pode achar que essa parte, estando você no governo, sobreponha o todo. E você, quando é eleito, diz ao País qual é a sua visão. A minha visão não era necessariamente a do PSDB porque, embora eu seja talvez o principal redator do programa do partido, eles dizem uma coisa e, na prática, eles atuam de outra maneira. O PSDB era um partido que nasceu como social-democrata. Eu não queria nem esse nome. Por quê? Eu, que sou sociólogo, vou ter o trabalho de explicar como é um partido social-democrático que não nasce dos sindicatos. Reconheço que as forças econômicas existem, que o mercado é um fator importante e que o Estado tem que ter um papel para compensar o que o mercado não faz. Até que ponto o PSDB se imbuiu disso? Não sei.

O sr. se arrependeu de não ter privatizado Furnas?

Eu tentei e não consegui.

Havia resistência do Aécio.

De todos os partidos, porque eles têm interesse corporativo e não porque têm interesse financeiro. É por causa de sustentação no poder.

No livro o sr. reclama da dificuldade de dialogar com a oposição.

O PT tinha medo das consequências de entrar em algum tipo de negociação com o governo.

É possível que haja hoje um diálogo entre você e Lula?

Do ponto de vista pessoal, nunca houve ruptura minha com Lula. Há um distanciamento e uma visão diferente do que é melhor para o País. Muitas pessoas me pediram para falar com o Lula. Eu nunca recusei. O Lula jamais quis, mesmo quando era presidente. Eu insistia, mas não havia uma real motivação do Lula para conversar. Agora, talvez, com uma situação tão difícil no Brasil. Mas qual é a pauta?

Qual seria essa pauta?

O Brasil precisa sair dessa encalacrada que entrou, com 12 milhões de desempregados. Um tema nacional é o sistema partidário, que não funciona. Quer discutir isso? Então tem pauta.

Michel Temer ainda o procura, mesmo após o caso da ‘pinguela’?

Sim. Conheço Michel Temer há muitos anos. Sempre tivemos relação boa. Nunca conversei com ele senão assuntos políticos. A pinguela não era ele, mas o momento.

O sr. no livro mostrou incômodo com a movimentação do Aécio para presidir a Câmara.

Ele se achava o eixo de toda a política? Ele é muito meu amigo. O PSDB se queixava muito que era preterido no governo. Em parte, tinha razão. O PSDB, diferentemente do PT, não tinha força suficiente. Eu precisava do equilíbrio entre PMDB e PFL e, de fato, sacrificava o PSDB. O Aécio é muito hábil, então o partido começou a querê-lo como presidente da Câmara. Eu não me meti, o Aécio virou presidente da Câmara e eu ganhei um abacaxi. A briga entre PFL e PMDB não acabou mais.

O Aécio queria chutar o PMDB depois da votação da CPMF.

Não era só o Aécio. Muita gente do PSDB queria chutar o PMDB. Então como governo?

O sr.diz que o PMDB tinha um jeito descarado.

O PMDB é um partido de Estado. PSDB e PT eram polos eleitorais. O PMDB nunca foi polo de nada. Sempre foi o partido que era capaz de fazer a engrenagem pública funcionar. O PMDB continua sendo um partido que manobra o Estado, mas não leva o Brasil. Quem vai levar? Não tenho bola de cristal.

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