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Em escuta, fiscal afirma que deputado do PMDB ‘recebeu muito dinheiro’ é o título de matéria no Valor

O deputado Sergio Souza (PMDB-PR) é mencionado em escutas telefônicas da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal (PF), como destinatário de “muito dinheiro” supostamente pago pelo fiscal apontado como líder de um esquema de corrupção no Ministério da Agricultura, Daniel Gonçalves Filho, preso preventivamente. Souza foi eleito presidente da Comissão de Agricultura da Câmara ontem, em votação unânime.

Em telefonema capturado pela PF em 11 de abril de 2016, seis dias antes da votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o então superintendente regional do Paraná lotado na Vigilância Agropecuária do Porto de Paranaguá (PR), Gil Bueno de Magalhães, conversa com pessoa identificada como Francisco, que seria representante da Cooperativa Agroindustrial Castrolanda, em Castro (PR).

Francisco quer saber qual a posição do deputado sobre o impeachment. “Aquele Sergio Souza, pelo que me falaram, ele tá a favor do PT nessa história do impeachment”, pergunta. Magalhães responde afirmativamente: “Tá, ele recebeu muito dinheiro do suspenso [o fiscal Daniel Gonçalves Filho, que havia sido afastado do Ministério da Agricultura em razão de processo administrativo]”.

Francisco então conclui: “Ah, ele tá com o rabo preso”. Dilma Rousseff teve o mandato cassado e Sergio Souza votou favoravelmente ao impeachment.

Ao Valor, Souza negou que tenha indicado Gil Magalhães.

“O Gil me conhecia, foi superintendente antes, já. Eu sou um deputado ligado ao agronegócio. E eu não indiquei o Gil. Mas o Francisco eu não conheço. Sinceramente, não tenho a mínima ideia de quem ele seja”, disse.

O deputado Sergio Souza disse que chegou a ser procurado por Daniel Gonçalves Filho quando o fiscal foi afastado da função. Segundo a versão do parlamentar, Daniel Gonçalves teria dito que estaria sendo alvo de uma espécie de retaliação política.

“O Daniel sofreu aquela sanção do processo administrativo e procurou a mim e a outros deputados e disse assim: ‘estou sofrendo essa sanção porque vocês estão a favor do impeachment”‘.

Segundo o deputado, a indicação de Daniel Gonçalves para ocupar o posto de superintendente foi uma decisão tomada por toda a bancada federal do PMDB do Paraná.

“A indicação do superintendente da Agricultura é da bancada federal do PMDB, sempre foi.

Em 2015, eu e todos os deputados da bancada do PMDB assinamos um requerimento pela indicação do Daniel para o cargo. E levamos essa indicação do nome do Daniel para a [senadora] Kátia Abreu [PMDB-TO]”, afirmou.

De acordo com o deputado, Kátia Abreu teria dito que ‘quem indica os superintendentes são os senadores eleitos por cada Estado’. “Aí ela ligou para o [senador Roberto] Requião [PMDB-PR] na nossa frente e ele abençoou, autorizou a nomeação do Daniel”. Procurada pelo Valor, a assessoria de Requião disse que a declaração do deputado não corresponde à verdade. “Sergio Souza, com tais insinuações, não consegue apagar o carimbo de patrocinador e avalista de Daniel”, afirmou.

Indagado sobre o motivo pelo qual toda a bancada do PMDB do Paraná na Câmara se empenhou na aprovação do nome de um ocupante de cargo de segundo escalão, Souza justificou-se dizendo que se tratou de uma indicação de natureza “técnica”.

“O Daniel, nós tínhamos ele como um cara técnico, fiscal de carreira do ministério. Foi uma indicação natural. Ninguém imaginou que o caboclo era chefe de quadrilha”, afirmou.

Questionado se está preocupado com o fato de ter seu nome citado por investigados pela Operação Carne Fraca, Sergio Souza garantiu que está “totalmente tranquilo sobre isso”.

Todas as menções a parlamentares encontradas nas escutas telefônicas e telemáticas (de internet) da Operação Carne Fraca foram remetidas à Procuradoria-Geral da República (PGR), porque deputados e senadores têm privilégio de foro: só podem ser investigados com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF).

Até agora, a PF em Curitiba tem afirmado que não encontrou indícios de crimes que tenham envolvido parlamentares.

No entanto, o Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, apurou que existem novas interceptações telefônicas sob segredo de Justiça com menções a outros parlamentares do PMDB. A avaliação inicial dos investigadores é que esse material teria indícios de irregularidades que demandariam uma investigação específica.

Essas evidências deverão ser encaminhadas à PGR até a semana que vem, que terá de verificar se as suspeitas de ilícitos justificam a formalização de pedidos de abertura de inquéritos no STF.

Uma hipótese de investigação considerada é que os superintendentes regionais do ministério da Agricultura repassariam parte das propinas exigidas das empresas frigoríficas a partidos políticos.

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