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Defensores do impeachment voltam às ruas, diz o Valor

Os movimentos que defenderam o impeachment de Dilma Rousseff voltam às ruas no domingo em mais de 100 cidades do país para protestar contra as propostas encabeçadas por lideranças do Congresso Nacional e do Judiciário para a reforma política. Os manifestantes entendem que eventuais mudanças no sistema eleitoral, como o voto em lista fechada e a criação de um fundo público eleitoral, visam prejudicar os avanços da Lava-Jato.

A defesa da operação chefiada pelo juiz federal Sergio Moro foi o mote inicial para a convocação do protesto há pouco mais de um mês. O pretexto, na ocasião, era genérico e não tinha como alvo a reforma eleitoral. Até porque as articulações entre os líderes das maiores bancadas ainda estavam em fase embrionária. A oposição dos movimentos de rua às mudanças nas regras eleitorais ganhou corpo no último domingo após encontro entre os principais grupos.

Na reunião, ficou acertada a necessidade de afinar o discurso contra a lista fechada, a anistia ao caixa dois e a criação de um fundo bilionário para o financiamento de campanhas. Os manifestantes temiam um ato esvaziado sem uma agenda conjunta e pré-definida. O último protesto destes grupos, realizado em 4 de dezembro, teve menos adesões do que as edições anteriores, que chegaram a reunir até dois milhões de pessoas.

A partir da reunião dos manifestantes, a reforma política passou a ser apontada pelas lideranças dos movimentos de rua como uma ameaça à continuidade da operação sob responsabilidade de Moro. “Falar em apoio a Lava-Jato beira o pleonasmo. Trata-se da base da pirâmide. É algo tão óbvio entre praticamente toda a população que era capaz que os brasileiros deixassem de sair às ruas por isso”, diz Carla Zambelli, líder do NasRuas.

A lista fechada, segundo Carla, representa um “golpe” contra a Lava-Jato na medida em que permite a reeleição e a prerrogativa de foro privilegiado a políticos sob a mira da Justiça. “Esse modelo é antidemocrático, pois preserva o caciquismo partidário. As listas serão compostas por aqueles que precisam de foro. A população não terá mais o direito de escolher seus próprios candidatos sem a interferência dos partidos”, afirma Carla.

Nesse modelo, o eleitor vota na sigla, cuja a direção define a lista de candidatos em ordem de prioridade. Atualmente, no entanto, o eleitorado vota diretamente no candidato. Pelo princípio da anualidade, as novas mudanças eleitorais devem ser aprovados pelo Congresso Nacional até setembro deste ano para valerem nas eleições de 2018.

O líder do Vem Pra Rua, Rogério Chequer, enxerga na proposta de reforma política uma tentativa do parlamento de impedir uma renovação dos quadros. “É um combo político que estão tentando enfiar goela a baixo. Isso pode comprometer a renovação que o país tanto necessita”, diz o empresário, que lista como ameaças à democracia a manutenção do foro privilegiado, a anistia ao caixa dois e o fundo público de campanha.

Kim Kataguiri, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), também tem se posicionado contra as propostas de reforma eleitoral, sobretudo em relação ao voto em lista fechada. Em vídeo divulgado em redes sociais, Kim classificou a ideia como “esdrúxula” ao afirmar que ela representa a volta ao coronelismo.

Coautora da denúncia que levou ao impeachment de Dilma, a jurista e advogada Janaína Paschoal não decidiu ainda se comparecerá ao ato de domingo. De acordo com ela, a definição de uma pauta específica, como a oposição ao voto em lista fechada e a anistia ao caixa dois, é importante para evitar o risco de uma convulsão social.

“Estou alerta. Vejo uma tentativa de banalização do que é ilícito. Isso é péssimo ao país. Sinto que a classe política não entendeu nada com o impeachment”, ressalta Janaína, acrescentando que não adianta discutir uma ampla reforma política sem que eventuais irregularidades sejam coibidas pela Justiça. “A corrupção estraga todo e qualquer modelo, seja aqui, no Brasil, na Suécia ou onde for”.

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