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Se exterminar a política, vai haver uma aventura, diz Romero Jucá é o título de matéria na Folha

No momento em que a Lava Jato atinge expoentes dos principais partidos do país, o senador e presidente do PMDB, Romero Jucá (RR), diz que paira “uma nuvem negra sobre todos os políticos”.

O líder do governo Michel Temer no Senado diz, em entrevista à Folha, que a política estará melhor ao fim da operação, mas corre o risco de chegar às eleições de 2018 “vulnerável a qualquer tipo de loucura”.

Jucá foi acusado por um ex-executivo da Odebrecht de receber dinheiro para aprovar medidas provisórias. Ele rechaça as afirmações e insinua que delatores sofreram pressões.

“Quem vai julgar essas pessoas é Deus. Eu sou vítima desse processo.”

O peemedebista ainda exerce influência sobre a pasta do Planejamento, da qual pediu demissão em maio após a Folha publicar áudios de conversa dele com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

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Folha O governo dizia que o PIB cresceria 1,6% em 2017, mas deve revisar a previsão para 0,5%. O que deu errado?

Romero Jucá O presidente Temer tem apenas seis meses de governo efetivo. Saímos de uma situação extremamente delicada e já temos bons indicadores. Sempre defendi que se divulgasse 0,5%.

Houve excesso de otimismo?

Sou cuidadoso porque o governo tem que falar o que efetivamente tem condição de acontecer. Na dúvida, tem que ser conservador.

O ministro Henrique Meirelles (Fazenda) diz que o país já saiu da recessão. Concorda?

Tecnicamente, sim. Mas precisamos ter cuidado. Um analista ou um empresário de determinado setor vai dizer que saiu, mas um desempregado vai dizer que não.

O sr. defende mais medidas de estímulo à economia. A resistência da Fazenda atrapalha?

Se você tiver um ministro da Fazenda que gosta de gastar, pode demiti-lo, porque ele está no lugar errado. O perfil do ministro da Fazenda tem que ser de controle de gastos.

Que outras medidas microeconômicas estão em estudo?

O governo precisa enfrentar a degradação do setor de serviços. Não uma ação anticíclica. Sugiro uma política de crédito específica para o setor. O governo não tem condição de desonerar mais nada e abrir mão de receita.

Haverá aumento de impostos para fechar as contas?

Há uma discussão de PIS/Cofins que não é a criação de novo imposto, mas a mudança de conceito de alíquota única ou alíquotas sucessivas, com abatimentos. Melhorias tributárias que não mexem com criação de imposto.

Esse novo modelo ajudaria a arrecadação já neste ano?

O impacto [se dá] 90 dias depois da aprovação.

Que tamanho terá o contingenciamento do Orçamento?

Algo entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões. Se mexer na receita, pode ser menos.

O governo terá dificuldade para aprovar a reforma da Previdência? Renan Calheiros, líder do PMDB, disse que o governo “já inviabilizou” o projeto.

Eu discordo. O que eu vejo de falha nesse processo é que não foi bem explicado para a sociedade e há uma guerra de comunicação. Como a reforma pode ser feita? É essa a questão que os profissionais do Congresso têm que discutir, porque ela foi proposta pela área técnica do governo.

A proposta do governo pode ser aprovada na íntegra?

O Congresso tem a obrigação de discutir e melhorar a proposta. Temos que sair com uma reforma que equacione esse drama. Agora, se vamos substituir opções e mexer… O Congresso tem autonomia, direito, experiência e representatividade para isso.

A Lava Jato fragiliza o governo?

A Lava Jato mudou o paradigma. Existe uma nuvem negra sobre todos os políticos. Existem delações de doações oficiais, doações não oficiais e caixa dois sobre todas as pessoas que disputaram eleições, porque todas receberam doação oficial. Ao fim da Operação Lava Jato, a política estará melhor. A resposta que o Congresso tem que dar é debater e votar as reformas. Não podemos nos abater.

É preciso especificar em lei o tipo de ato que faz com que a doação legal seja propina?

Doação legal só pode ser considerada propina se provada a relação entre benefício e interferência do político. A lei já define o que é propina.

O que vejo pela imprensa é a discussão sobre a existência do crime de caixa dois antes ou depois da tipificação. A lei não retroage para punir. Não precisamos ter angústia de fazer algo que pode ser entendido como retrocesso.

O Congresso vai votar algum projeto para conter o que considera arbitrário?

O Congresso Nacional não pode entrar nessa seara agora. Se entrar, ficaria como uma tentativa de inibir as investigações.

Em gravação feita por Sérgio Machado, o sr. fala que era preciso “estancar a sangria”. A operação precisa de limites?

A Folha pergunta isso nove meses após publicar uma matéria que, me desculpe, não era verdadeira. Não foi uma conversa de pessoas que estavam tratando de alguma coisa. Alguém foi deliberadamente puxar um assunto, como se estivesse desesperado. Foi uma armadilha.

Eu falava que o Brasil estava sangrando. E não era a Lava Jato que fazia sangrar, era o governo Dilma. Em momento nenhum eu obstruí a Lava Jato. O Ministério Público deve cumprir seu papel. Eu só acho que a gente deve ter cuidado com o país, porque a estabilidade é fundamental.

No ano passado, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu sua prisão. Como vê sua atuação?

Não vou julgar Janot ou o Ministério Público. Quem vai julgar a atuação, no caso dos parlamentares, é o Supremo. Eu ajudo, aqui no Senado, todas as questões do Ministério Público. Eu não erro com os outros porque erram comigo.

Em delação, o ex-executivo Cláudio Melo Filho disse que o sr. recebeu dinheiro para aprovar medidas provisórias de interesse da Odebrecht.

Eu recebo todos os setores que me procuram. Quem fala em venda de MP desconhece como isso funciona. Todo o processo é complexo e transparente, em que interfere uma série de pessoas. As decisões são da área econômica e do presidente da República.

Por que, então, o delator atrela esse trabalho a propina?

Que tipo de pressão ele sofreu? Não sei. Quem tem que responder isso é ele. Não tenho mágoa. Quem vai julgar essas pessoas é Deus, não eu. Eu sou vítima desse processo. Quem fez coisas erradas, se fez, que encontre sua paz. A minha está tranquila.

O Congresso mudará o foro privilegiado? Por que comparou isso a uma “suruba” ?

Defendo o fim do foro como é hoje. Vou assinar a urgência dessa discussão. Fiz referência a uma música dos Mamonas Assassinas [que cita “suruba”] e brinquei que o foro tem que acabar para todo mundo. A culpa não é do Supremo. Há atraso de investigação e instrução do processo.

Que impacto a Lava Jato terá nas eleições de 2018?

Talvez a Lava Jato não tenha tempo de isentar algumas figuras que podem disputar a eleição. É um dilema. Se você parte para uma generalização e quer exterminar a política, você vai para uma aventura. Mas você não inventa um presidente. Tem que se forçar o avanço, mas não se pode quebrar o modelo. Se quebrar o modelo, você fica vulnerável a qualquer tipo de loucura.

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