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Países suspendem compra em frigoríficos investigados, diz O Globo

Merval Pereira, Míriam Leitão e Lydia Medeiros

Os efeitos da Operação Carne Fraca da Polícia Federal (PF), que revelou um esquema de pagamentos de propinas a fiscais agropecuários para a liberação de irregularidades na venda do produto, levaram importantes parceiros comerciais do país a suspender parcialmente as importações de carne brasileira. A operação motivou críticas à Polícia Federal, por parte de produtores e do próprio governo, pelo maneira como foi feita a divulgação de informações técnicas.

Ontem, o governo chinês avisou que não desembarcará carnes importadas do Brasil até receber as informações requeridas sobre as investigações. União Europeia e Egito, que garantiram uma receita de US$ 2,450 bilhões na pauta de exportações brasileiras em 2016, bloquearam as compras dos 21 frigoríficos suspeitos e o Chile avisou que pode seguir o mesmo caminho. De sua parte, o governo anunciou a suspensão das licenças de exportação dos 21 frigoríficos investigados.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse que tem fornecido todas as informações e que “reza e trabalha” para que esses países não decidam por um embargo total da carne brasileira. O ministro afirmou que o embargo total seria um cenário desastroso para a balança comercial brasileira. Segundo ele, o mercado de carnes movimenta US$ 15 bilhões anuais.

Para Blairo, se a carne brasileira sofrer embargo, poderia demorar anos para ser revertido. Ele lembrou que, após a febre aftosa, o Brasil chegou a ficar sem exportar para alguns países por três anos.

Com toda certeza, seria um desastre. A China é um grande importador nosso. A Comunidade Europeia, além de ser o nosso segundo ponto de exportação, é o nosso cartão de visitas. Quem vende para a Europa, vende para muitos países que muitas vezes nem pedem fiscalização nossa. Eu torço, eu rezo, eu penso, eu trabalho para que isso não venha a acontecer.

BRASIL AMEAÇA RETALIAR CHILE

Ao menos 30 países e a União Europeia receberam produtos de seis dos 21 frigoríficos que estão sob suspeita. Estão nessa lista, além de China, Chile e Egito, países como Estados Unidos, Argentina, Hong Kong, Emirados Árabes, Japão e Suíça. Do total de empresas, três delas estão interditadas. Blairo disse que só recebeu comunicados oficiais de China, União Europeia, Egito e Chile. O país asiático foi o que tomou a decisão mais drástica e paralisou o desembaraço de cargas brasileiras que estão no porto. A ideia é que os contêineres que chegam aos portos chineses sejam retidos até segunda ordem. A expectativa do governo brasileiro, ontem à noite, era que a decisão fosse revertida após videoconferência com o governo asiático.

Por enquanto, avalia-se que o custo de uma suspensão formal seja alto para os dois lados: a China é o segundo maior importador de carnes brasileiras. No ano passado, os chineses importaram cerca de US$ 2 bilhões do Brasil, que é o principal fornecedor de carnes de frango (80% do que a China importa) e de bovinos (29%) para o mercado chinês.

O ministro disse que a União Europeia já comunicou ao Brasil que só suspenderá as importações dos 21 frigoríficos sob investigação. Segundo o ministro, a expectativa é que, com a definição na Europa, o país comece “a clarear mais esse assunto” no resto do mundo.

A Coreia do Sul suspendeu apenas compras de frango da BRF. Rússia, Arábia Saudita e Argentina acompanham de perto os desdobramentos das investigações, mas ainda não se manifestaram em relação à suspensão de importações. Nos vizinhos argentinos, representantes de frigoríficos locais fizeram declarações de que há uma expectativa de que a crise da carne brasileira possa terminar beneficiando empresas argentinas, à medida que os países importadores teriam que recorrer a outros parceiros comerciais para suprir a demanda por carne.

Em relação ao Chile, o ministro disse que não entendeu se o país suspendeu todo o mercado ou apenas as compras dos 21 frigoríficos. Ele subiu o tom e disse que, caso o país opte por um embargo geral, o Brasil poderá suspender a importação de produtos chilenos, como retaliação. Blairo afirmou que tem a autorização do presidente Michel Temer para ter uma “reação mais forte” com o Chile para “proteger o mercado brasileiro”.

Nós somos grandes importadores dos produtos do Chile, como peixes, frutas e maçãs. Os produtores brasileiros vivem reclamando que nós deveríamos criar barreiras para isso. Comércio é assim, não tem só bonzinho no comércio. O comércio tem que ser feito, muitas vezes, a cotoveladas. Se eu tiver que ter uma reação mais forte para proteger o mercado brasileiro, eu farei com toda tranquilidade.

Apesar de não estarem exportando, a maior parte dos 21 frigoríficos continua produzindo para consumo interno.

Eu não posso simplesmente acabar com a cadeia produtiva por uma suspensão. Se olharem nos documentos porque (o frigorífico) está sob suspeita, nenhum está por adulteração de produtos, são problemas de relacionamento de fiscais com donos de frigoríficos. Não dá para dizer que a suspeição é sobre a qualidade do produto.

AÇÕES DAS EMPRESAS EM QUEDA

O ministro disse ainda que vai intervir com mais força nas superintendências do Ministério da Agricultura no Paraná e em Goiás. Os superintendentes já foram exonerados e novos nomes, indicados pelo ministro, vão assumir. A ideia é indicar nomes “neutros”, fora da convivência das superintendências.

O presidente da República, Michel Temer, também defendeu os sistemas de controle da produção de carne no Brasil. Em pronunciamento na Câmara de Comércio Americana (Amcham), o presidente garantiu a plateia de empresários que o país tem “sistemas rigorosíssimos” de inspeção sanitária e que as investigações recaem sobre um número “mínimo” de frigoríficos.

Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA) e a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) criticaram a forma como a PF divulgou a operação. Para os presidente das duas associações, Francisco Sérgio Turra (ABPA), e Antônio Jorge Camardelli (Abiec), os problemas apontados pela PF são “pontuais” e a forma como a ação foi divulgada leva à “avaliação e julgamento de situações que ainda não foram investigadas”.

Há uma situação sendo generalizada. O que não queremos é que todos sofram com essa imagem negativa que foi criada — reforçou Camardelli.

As ações dos frigoríficos permaneceram ontem sob forte pressão na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). A exceção foi a JBS, que fechou em leve alta, de 0,74%, após ter caído 10,59% na sexta-feira. As ações da BRF recuaram 2,15% no dia, enquanto que os papéis de Marfrig e Minerva — que não foram citadas nas investigações — caíram 4,28% e 7,43%. No caso da Minerva, pesou o fato dela exportar mais da metade de sua produção.

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