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O réu no palanque é o título de matéria na Época

Bater na reforma da Previdência é o remédio da Lula para aprumar-se após o interrogatório da Lava Jato

O juiz Ricardo Leite, da loa Vara Federal, em Brasília, cumpre os procedimentos rotineiros de um depoimento. Esclarece ao réu, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que acontecerá, do que ele é acusado e que pode ficar calado, se preferir. “Em síntese, a denúncia fala da existência de uma organização criminosa”, diz Leite. Nesse momento, sentado a sua frente, Lula cofia o bigode. Respira pesado, o que fica claro pelo estufar de seu peito, onde paira uma de suas gravatas mais usadas, listada de azul, branco e amarelo. O nome dele, Lula, é lido como um dos acusados de serem parte da organização. O juiz prossegue. “A denúncia fala que os denunciados teriam se esforçado para evitar – ou para ao menos modular – e conseguiram retardar a celebração de um acordo de colaboração premiada entre o Ministério Público Federal e Nestor Cerveró. O senhor tem conhecimento desses fatos.” Lula aquiesce. Com a licença de Leite, discursa por seis minutos sobre seu governo, a injustiça que diz sofrer e que responderá a tudo. “Adentrando então a peça acusatória, senhor Luiz Inácio…”, diz o juiz.

Na manhã da terça-feira, dia 14, Lula era só Luiz Inácio, estava ali porque é réu, acusado pelos procuradores de, ao lado do ex-senador Delcídio do Amaral, do banqueiro André Esteves e do empresário José Carlos Bumlai, de quem é próximo, entre outros, tentar evitar que o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró contasse à Lava Jato o que sabia (não adiantou muito: o plano vazou, Delcídio foi preso e Cerveró fez o acordo) – e arruinar PT, PMDB e Bumlai. Era seu primeiro interrogatório. Lula estava incomodado, irritado, como é normal acontecer a qualquer pessoa na mesma situação. “Tenho sido vítima de um massacre. Eu acho que todos aqui têm dimensão do que é um cidadão que foi presidente da República, que foi considerado o mais importante presidente da história deste país, que fez com que o Brasil fosse respeitado no mundo inteiro, de repente é pego de surpresa por manchetes de jornais todo santo dia.” É difícil para Lula ser cidadão comum.

Lula ficou incomodado mesmo quando as perguntas chegaram a José Carlos Bumlai. “Era meu amigo. Conversava com ele”, disse. Com que freqüência? “Ah, não sei, querido…”, disse, enfastiado.

Com dedo em riste, diz que respeita Bumlai e que não levava ninguém para casa para discutir negócios. Foram 48 minutos difíceis, nos quais Lula respondeu a perguntas do juiz, do procurador Ivan Marx e de advogados de defesa dos outros acusados.

Lula preparou o terreno para o desgaste que o depoimento causaria. No dia anterior, discursou no evento de uma entidade de trabalhadores rurais, em Brasília. Deixou a platéia desejosa de ouvir que será candidato à Presidência em 2018. Desse modo, garantiu que o noticiário do dia do depoimento o mostrasse em uma situação favorável. Lição de estratégia política. No dia seguinte ao depoimento, foi à Avenida Paulista discursar diante de milhares de pessoas, conclamadas por sindicatos a protestar contra a reforma da Previdência.

“Eu queria que o (ministro Henrique) Meirelles e o (presidente Michel) Temer ouvissem o recado de vocês. A Previdência tem problema? Tem. Quer resolver? Em vez de fazer a reforma, faça a economia voltar a crescer, a gerar emprego, aumenta os salários e a receita vai voltar a crescer”, disse.

Palanque é lugar de agradar à platéia; dane-se a coerência econômica. Em 2003, o governo Lula aprovou uma reforma da Previdência que gerou protestos por taxar servidores aposentados, estabelecer um teto para os benefícios e idade mínima para aposentadoria. Lula ainda fará muitos discursos políticos, assim como terá de ir a interrogatórios. O da semana passada foi o primeiro de uma das cinco ações contra ele, decorrentes da Lava Jato – três correm em Brasília, outras duas em Curitiba. É só o começo.

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