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Não é o apocalipse é o título de Carta ao leitor da Veja sobre delações da Odebrecht

OS POLÍTICOS têm tido uma reação pública e outra privada diante das primeiras revelações da segunda “lista de Janot”. A pública é vocalizada com estridência e alarme: a abrangência amazônica das acusações im-

plodirá o sistema político, tudo vai virar ruína e não sobrará ao final pedra sobre pedra (a idéia decorrente dessa: abriremos as portas do inferno e dele sairá um enganador demagogo que, disfarçado de salvador da pátria, chegará cuspindo fogo e instalará o caos definitivo no país). Já a reação privada é apenas sussurrada. Nos cantos escuros do Congresso ou protegidos pelas paredes dos palácios, muitos dos constantes da lista fatídica proclamam que tudo terminará como sempre

terminou — numa grande e comunitária pizza, assada no forno lento da morosidade da Justiça e temperada na certeza de que a abundância de acusados levará a um forçoso acórdão que, ao fim e ao cabo, livrará a todos da punição. Os que assim cochicham agem como se estivessem no baile da Ilha Fiscal, re-festelando-se com música e iguarias, enquanto lá fora o mundo se transforma.

Outros países já passaram por momentos parecidos e tomaram caminhos distintos. Nos anos 90, no curso da Operação Mãos Limpas, a Itália viu esfarelar seus principais partidos políticos. O impacto abriu espaço para a ascensão do aventureiro Silvio Berlusconi, que, ao chegar ao poder, tratou de trabalhar para manter impunes os corruptos e intocadas as velhas práticas políticas. Na mesma época, os japoneses — depois de uma década de instabi-

lidade que levou à prisão vários deputados, dois governadores, dois prefeitos e cerca de trinta diretores de empreiteiras de obras públicas — caminharam no sentido oposto. Fizeram uma profunda reforma que transformou o sistema de votação, redesenhou o mapa dos distritos eleitorais, mudou a composição da Câmara e criou controles rígidos para o financiamento de campanhas.

Aqui, o esperado avanço da Operação La-va-Jato deixará marcas, mortos e feridos pelo caminho, mas não trará o apocalipse. Ao contrário, pode representar a chance de o Brasil purgar seus pecados e lancetar seus tumores. O retorno à tradição do conchavo, do escapismo e da conciliação espúria terá como único resultado adiar o avanço do país para um novo patamar civilizatório — e atirá-lo definitivamente no passado.

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