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“Doria é reformista e avança rapidamente”, diz Meirelles é o título de matéria no Valor

O PSDB não definiu seu candidato à Presidência da República em 2018. Não se sabe sequer se a escolha se dará por decisão de cúpula ou se o partido se abrirá para prévias. Ainda assim, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sentiu-se à vontade para citar o prefeito de São Paulo, João Doria, como candidato “que avança muito rapidamente nesta direção”.

O ministro estava em Frankfurt, numa palestra para investidores promovido pelo Instituto Internacional de Finanças (IIF), e fora questionado sobre o impacto da sucessão presidencial sobre reformas como a da Previdência. Nenhum nome foi citado na pergunta, mas o ministro não se incomodou em nominá-los. Reconheceu que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao qual serviu por oito anos no comando do Banco Central, poderia causar “certo retrocesso” às reformas, a despeito de seu “histórico de moderação”. Chegou a citar discurso de Lula na noite anterior, durante as manifestações, em que o ex-presidente disse que convenceria seu ex-colaborador de que as reformas não deveriam passar da forma que estavam propostas por este governo.

Foi de Doria, no entanto, que o ministro melhor se serviu para convencer sua plateia de que os nomes “de centro-direita” que despontam no cenário eleitoral não são contrários à pauta defendida pelo presidente Michel Temer. A disposição do ministro em dobrar sua plateia o levou inclusive a citar “um militar controverso que está crescendo nas pesquisas”, que também é a favor das reformas. Em entrevista à “Folha de S.Paulo” no início desta semana, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) disse ser “completamente contra” a reforma da Previdência nos termos colocados pelo governo. Meirelles, no entanto, não hesitou em incluí-lo na sua preleção: “Acho que, no final das contas, as chances são de que esses candidatos prevaleçam”.

A intempestiva declaração de Meirelles revela a necessidade de os agentes econômicos terem um nome pró-reformas em que possam apostar. A inclusão do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apenas intensificou este movimento que não se estabelece sem fortes resistências no partido.

Um alckmista devotado à causa define a percepção que hoje domina o entorno do governador. Diz que o modo como Doria escolheu para gerir a cidade, com um marketing mais acelerado do que a máquina pública é capaz de responder, não se sustentaria ao longo de um mandato. O prefeito, na visão deste tucano, teria possibilidade de revolucionar a cidade, mas não tem o perfil para plantar políticas públicas, acompanhá-las na minúcia política e administrativa, para colher resultados daqui a quatro ou oito anos.

A pressa do prefeito, portanto, já teria sido assimilada, pelos alckmistas. O que ainda não foi aceito é que Doria acelere rumo ao Planalto. Ainda pretendem desviar sua rota para o Palácio dos Bandeirantes, que lhe cairia como prêmio de consolação por ter aberto mão da disputa interna, a despeito de ser incensado em palestras internacionais. Lembram o que aconteceu com o senador José Serra, que ganhou em Doria um rival em suas ambições, e também foi um prefeito breve. Eleito em 2004, Serra se desincompatibilizou um ano e quatro meses depois para disputar o Bandeirantes no ano em que Alckmin disputou a Presidência da República.

A movimentação dos alckmistas pela antecipação do processo que definirá, internamente, o candidato do PSDB ao Palácio do Planalto, alveja mais do que as pretensões do presidente nacional da legenda, o senador Aécio Neves. Há, de fato, temores de que o governador fique nas mãos da direção da legenda e perca o prazo para trocar de partido se o veredito final for a recusa de seus correligionários em lhe ceder a legenda. Não é desprezível o argumento de que sua candidatura arrastaria o partido para a vala comum da Lava-Jato tanto quanto a de Aécio.

O que acendeu a luz amarela no Palácio dos Bandeirantes, no entanto, foi a possibilidade de aliança branca entre Aécio e Doria. A nenhum dos dois interessa a antecipação do calendário. Ao senador mineiro porque perderia poder de barganha na legenda e em sua relação com o presidente Michel Temer. A Doria porque a redução de um mandato já condenado a ser curto pode custar pontos a sua imagem. Sua gestão, observa este tucano, tem extensa cobertura da imprensa, em grande parte porque prefeitos lidam mais diretamente com temas que afetam a vida da população do que os governadores. Uma candidatura precoce poderia vir a virar o tom desta cobertura e embaçar sua estratégia.

Para enfrentar esta disputa interna, o prefeito de São Paulo acaba de ganhar um novo cabo eleitoral, de audiência internacional, e disposto a propagandear aquela que é, até agora, sua principal virtude, o de ser o mais viável candidato anti-Lula.

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