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Dólar e juros sobem após euforia, diz o Valor

Após a euforia com o tom ameno do banco central americano, os mercados brasileiros de câmbio e juros acabaram se concentrando em fatores locais, o que impôs uma quinta-feira de alta para o dólar e para as taxas da renda fixa.

O dólar subiu 0,17% e terminou os negócios a R$ 3,1151. Um grupo de moedas emergentes, excluindo a brasileira, foi na contramão e subiu 0,68%. A “vantagem” do real sobre seus pares – medida pela diferença entre a alta no ano da moeda brasileira e a de uma cesta de divisas emergentes – foi praticamente zerada, depois de chegar a mais de 5 pontos percentuais no começo do ano.

A performance mais fraca da moeda brasileira também é evidenciada pelo aumento da volatilidade implícita, que mensura a expectativa de variação do preço de um ativo ao longo de um determinado período. Desde 14 de fevereiro, a volatilidade implícita do real para um intervalo de um mês aumentou 48 pontos-base, enquanto, em média, a de outras divisas de países emergentes caiu 6 pontos.

Na avaliação de analistas, os mercados acabaram tendo de lidar ontem com a escalada da cautela no plano doméstico, já perceptível nos últimos dias. No câmbio, pesou a sinalização do Banco Central de que pode deixar vencer o equivalente a US$ 4,2 bilhões em swaps cambiais. Liquidar o vencimento desses contratos significa tirar liquidez do mercado, o que tende a exercer pressão de alta sobre o dólar.

Nos juros, a combinação entre firme alta das taxas de retorno dos Treasuries (títulos do Tesouro americano), contínuas incertezas do lado do ajuste fiscal e notícias sugerindo perda de arrecadação pelo governo deram impulso às taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI). A taxa do DI com vencimento em janeiro de 2021 subiu a 9,99% ao ano, ante 9,95% do ajuste ocorrido na quarta-feira.

“Pode ainda haver algum mal-estar com a história da Previdência”, diz o estrategista da Brasif Gestão, Henrique de la Rocque, referindo-se à informação do Valor de que o governo trabalha com demora adicional na votação do projeto na Câmara dos Deputados. O estrategista diz que, aos preços atuais, tanto câmbio quanto juros parecem “justos” e apenas novas notícias “bastante” positivas teriam potencial para conduzir os mercados a uma nova rodada de ganhos significativos.

Citando os receios do lado fiscal, o chefe de pesquisa econômica para as Américas do Standard Chartered Bank em Nova York, Mike Moran, mantém recomendação “neutra” para o real, a despeito da expectativa de valorização de outras divisas emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano. Moran diz esperar aprovação da reforma da Previdência até a metade do ano, mas já questiona se outras reformas poderão vir em seguida e se esse conjunto de medidas conseguirá interromper a trajetória de alta da dívida pública em relação ao PIB. “Certamente o cenário político vai ficar menos favorável ao ajuste fiscal – e ao câmbio – conforme ficamos mais próximos das eleições”, disse.

David Kohl, chefe de pesquisa de moedas do banco suíço Julius Baer, recomenda manutenção de posicionamento de curto prazo na moeda brasileira, mas não indica reforço de alocação.

“O real ainda continua circundado por riscos fiscais no Brasil. A trajetória da dívida brasileira segue como o principal problema ao mercado doméstico”, diz.

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