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Consultoria prevê ‘um impasse de alto risco’, diz o Valor

Um impasse de alto risco entre o governo e os parlamentares tende a ocorrer antes da votação da reforma da Previdência, segundo a consultoria Eurasia Group. Embora avalie que a probabilidade maior – de 70% – é de que uma reforma “razoavelmente robusta” seja aprovada, a empresa de risco político afirma que a resistência a importantes alterações propostas continua “substancial”, segundo consultas recentes feitas com os aliados do presidente Michel Temer no Congresso. Esse eventual impasse, com impacto negativo sobre o mercado, pode ser necessário para ajudar a reunir maioria em favor do projeto do governo na Câmara dos Deputados, aponta a Eurasia.

Em relatório divulgado ontem, a consultoria diz que conversou com a liderança de partidos governistas, entre eles PMDB, PSDB, DEM, PSB, PP, PSD e PSC. Segundo a Eurasia, ouviu-se muito pouco a ideia de rejeitar totalmente a proposta. “Mesmo dentro do PSB, mais inclinado à esquerda, há reconhecimento de que alguma versão da reforma precisa ser aprovada”, afirma a consultoria.

Mas, ao mesmo tempo, a maior parte dos líderes da base governista sugere que vão votar a reforma, mas com mudanças na idade mínima de aposentadoria, nas aposentadorias rurais, nas regras de transição e nos benefícios para os mais pobres ou para pessoas com deficiência (o benefício de prestação continuada).

Para a Eurasia, isso sugere que ainda há desconexão entre o governo, que reconhece a necessidade de aprovar uma reforma robusta para garantir a recuperação da economia, e sua base no Congresso, “compreensivelmente preocupada” com o efeito de medidas impopulares. A consultoria observa que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse na semana passada que, se a reforma foi muito diluída, o governo pode desistir da proposta. Para a Eurasia, é uma ameaça que faz sentido do ponto de vista econômico. Se o Congresso aprovar uma versão que não equilibre as contas públicas, isso pode trazer dificuldades para o próximo governo. “O raciocínio é que um ‘conserto ruim’ é pior do que nenhum.”

Ao mesmo tempo, a Eurasia avalia que se a resistência do Congresso for muito grande e o governo Temer não avançar a proposta, o impasse tem o potencial de causar desconforto nos mercados, podendo levar à alta do dólar, uma queda da bolsa e a avaliação entre os economistas de que a recuperação está em risco. Essa volatilidade, diz a consultoria, pode ser uma ferramenta efetiva para aumentar o fator “medo” entre os congressistas sobre as repercussões de não aprovarem a reforma. Isso pode dar credibilidade às afirmações do governo de que todos perdem em 2018 se a proposta não passar.

Na visão da Eurasia, isso sugere que o caminho para se conseguir maioria legislativa não vai ser suave, embora não seja suficiente para diminuir a convicção de que uma reforma “razoavelmente robusta” será aprovada. No cenário central da consultoria, a aposta é de que algo como três quartos da proposta do governo vão passar. “Mas, evidentemente, o que é aprovado na reforma não é um evento binário”, nota a Eurasia. Segundo o relatório, a empresa considera uma versão “razoavelmente robusta” se metade ou mais das propostas do governo forem aprovadas. A consultoria vê 30% de chances de isso não ocorrer, o que implica numa versão muito diluída da reforma. O relatório diz ainda que os protestos realizados na quarta-feira por centrais sindicais e movimentos de esquerda contra a reforma do sistema de aposentadorias tiveram comparecimento “modesto”, não mudando o panorama para a aprovação da reforma.

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