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Planalto reconhece impacto político de pedidos de inquérito contra ministros, diz o Valor

O Palácio do Planalto admitiu ontem o impacto político no governo a partir do encaminhamento dos pedidos de inquérito feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF), contra auxiliares diretos e apoiadores do presidente Michel Temer. Os pedidos de investigação abrangem deputados, senadores, ministros e governadores. A expectativa do presidente Michel Temer, entretanto, é por uma diluição do desgaste político decorrente das acusações de irregularidades e corrupção, diante do volume e abrangência dos inquéritos com base nas denúncias feitas por executivos da Odebrecht à Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito da Operação Lava-Jato.

O Planalto também buscará intensificar o debate sobre as reformas, em especial a da Previdência, para não deixar a base aliada desviar-se do foco. Os ministros palacianos, Moreira Franco e Eliseu Padilha, não farão comentários antes que as informações sejam tornadas públicas oficialmente e conheçam o teor das denúncias.

O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, divulgou nota em que informa ter requerido ao Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de seu advogado, acesso ao conteúdo das delações da Odebrecht “naquilo que poderia lhe dizer respeito”. Ele não fez nenhum comentário sobre a lista apresentada por Janot ao STF.

Uma das novidades da lista, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, divulgou uma nota na qual admite ter solicitado doações de campanha para “diversas empresas”, mas que sempre manteve com elas relações meramente institucionais. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, encerrou o dia de trabalho e saiu do Congresso sem comentar sua inclusão na lista do Janot.

Alvo de dois inquéritos já em curso, Edison Lobão (PMDB-MA) minimizou a perspectiva de impacto dos pedidos de investigação nas discussões no Congresso. “Não tem razão maior para tensão. Vários senadores já estão sob investigação, e inquéritos estão sendo arquivados por falta de provas”.

Presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) não quis comentar. “Vamos aguardar”, disse ao deixar o Congresso Nacional, antes do surgimento dos primeiros nomes que constam na “lista de Janot”, entre os quais o dele próprio.

Líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), criticou o que considera um julgamento prévio da opinião pública a ministros e parlamentares citados nas delações de executivos da Odebrecht.

Jucá é um dos políticos alvos de pedido de investigação pela PGR. “Colocar uma nuvem negra sobre toda a classe política é um desserviço ao Brasil. Se queimar a política, em substituição virá a aventura”, afirmou. Para Jucá, “não há nenhuma verdade em nenhuma delação até que seja comprovada”.

Em notas separadas, o PSDB e o PMDB defenderam as investigações da Lava-Jato e destacaram a necessidade de que os fatos apurados pela força-tarefa sejam esclarecidos. As legendas divulgaram os comunicados horas após a PGR ter pedido ao STF a abertura de 83 inquéritos no âmbito da operação.

Também em nota, Jucá disse dar apoio à Lava-Jato. Já Serra, questionado por jornalistas sobre a inclusão de seu nome na chamada “lista de Janot”, respondeu: “Não vi”.

O Senado divulgou, através de sua assessoria, uma nota de defesa conjunta. “Pedidos de investigação não convertem investigados em réus e nem são sentenças proferidas”, aponta a nota. “O Senado Federal recebe com absoluta serenidade e confiança na Justiça o envio ao Supremo Tribunal Federal dos pedidos de investigação relacionados a alguns de seus integrantes. Há que se obedecer e respeitar o amplo direito de defesa, uma das mais sólidas pedras basilares do Estado Democrático”.

Por fim, o texto diz ainda que “o Judiciário terá instrumentos de apuração, maturidade e firmeza para distinguir mentiras ou versões alternativas e a verdade dos fatos”.

Apesar do tumulto que causa entre os políticos, a equipe econômica do governo tentou demonstrar tranquilidade em relação aos possíveis impactos da lista de inquéritos do procurador-geral da República sobre a tramitação da reforma da Previdência. Uma fonte de alto escalão do governo ensaia inclusive um tom otimista, levantando a possibilidade de que os parlamentares busquem avançar nas discussões e negociações em torno do projeto de forma a ter uma outra pauta além do noticiário sobre corrupção. De qualquer forma, o próprio interlocutor reconhece que, independentemente do noticiário policial, mudanças na reforma, como a questão da transição para idade mínima, terão que ser negociadas pelo governo.

Um oposicionista, por sua vez, considera absurda a hipótese de que a crise gerada pela lista possa acelerar a reforma. “Quem vai conduzir o processo nesse tumulto?”, questiona o parlamentar, destacando que o cronograma original já está 40 dias atrasados. (Colaboraram Marcelo Ribeiro, Raphael Di Cunto, Murillo Camarotto e Fabio Murakawa)

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