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Caixa dois ‘é modelo reinante’, afirma Emílio Odebrecht é o título de matéria no Valor

O empresário Emílio Odebrecht afirmou que o pagamento não contabilizado, conhecido como caixa dois e que pode incluir repasses a campanhas eleitorais, “sempre foi modelo reinante no país”.

Emílio é um dos 78 delatores do grupo empresarial que fecharam acordo com o Ministério Público Federal (MPF) na Operação Lava-Jato. Ele foi interrogado ontem na Justiça Federal em Curitiba na condição de testemunha de defesa arrolada pelos advogados do ex-ministro Antonio Palocci, que responde a processo por corrupção e lavagem de dinheiro na Justiça Federal de Curitiba. O processo penal apura a suposta intermediação de vantagens por Palocci à Odebrecht envolvendo os navios-sondas da Petrobras para exploração da camada pré-sal.

Indagado sobre pagamentos não contabilizados (em caixa-dois), Emílio respondeu: “Existia isto já e sempre foi modelo reinante no país e que veio até recentemente. Porque houve impedimento e foi a partir de 2014, 2015. Mas até então, sempre existiu. Desde a minha época, da época de meu pai, [Norberto Odebrecht, fundador da empresa] da minha época e também de Marcelo [Odebrecht, filho de Emílio e também delator]. Sem dúvida, de todos aqueles que foram executivos do grupo”, disse Emílio.

Emílio também afirmou ser possível que o codinome ‘italiano’ tenha sido usado pela Odebrecht para se referir a Palocci. Mas confirmou “com certeza” que o nome também era usado para se referir ao ex-ministro.

“Olhe, tem muitos apelidos na organização, eu seria leviano em dizer, irresponsável em dizer que italiano é ele, é também, pode ser também nosso Palocci (…) Então não saberia dizer se efetivamente o italiano que se refere aí a estrutura pode ser o doutor Palocci, mas com certeza ele também era identificado como italiano”.

A pedido dos advogados, o interrogatório de Emílio Odebrecht foi colocado sob sigilo por determinação do juiz Sergio Moro. O magistrado decidiu aguardar a retirada do segredo das delações da Odebrecht pelo Supremo Tribunal Federal para tornar público o depoimento de Emílio. O Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, teve acesso ao depoimento de Emílio Odebrecht, que não teve sua imagem registrada em vídeo, mas cujo depoimento foi gravado pelo juízo. A lei que regulamenta a colaboração premiada prevê a proteção da imagem dos delatores.

A audiência ocorreu na 13ª Vara Federal Criminal em Curitiba.

Emílio foi ouvido por vídeo conferência na sede da Justiça Federal em São Paulo. Ele chegou ao fórum federal de carro e entrou diretamente pelo estacionamento reservado aos magistrado, evitando falar com jornalistas que faziam plantão no local.

Ontem, o ex-ministro da Justiça e advogado-geral da União no governo Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, também foi interrogado como testemunha de defesa de Palocci. Assim como Emílio, Cardozo foi ouvido por videoconferência na Justiça Federal de São Paulo.

O ex-ministro disse haver uma “cultura histórica de caixa dois no Brasil”.

Questionado pelo advogado de Palocci, José Roberto Batochio, sobre a origem das doações irregulares no Brasil, Cardozo classificou o sistema político do país como “anacrônico, atrasado e ultrapassado”. Na opinião dele, a legislação sobre o tema provoca confusões.

Cardozo tentou minimizar a prática de caixa dois, alegando que a prática não está necessariamente ligada à corrupção.

“Se este dinheiro que ele [doador] me doa é fruto de uma situação lesiva ao erário, eu, enquanto candidato, não sei”, disse.

A Lava-Jato sustenta que as propinas obtidas em contratos com a Petrobras eram repassadas por pagamentos em espécie, por meio de contartos simulados, transferências ao exterior e como doações oficiais registradas na Justiça Eleitoral. A tese jurídica se ampara no fato de delatores afirmarem que os políticos sabiam da origem do dinheiro. A Justiça eleitoral teria sido usada para lavagem dos recursos.

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